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irene arias | diretora da CORPORAÇÃO FINANCEIRA INTERNACIONAL

A classe média, o motor do crescimento latino-americano

A diretora da IFC Irene Arias antecipa que até 2030 essa parcela da população aumentará significativamente, passando dos 29% atuais para 42% do total

Arias, que admite que a baixa produtividade é um dos desafios.
Arias, que admite que a baixa produtividade é um dos desafios.

Irene Arias (Madri, 1974) constantemente sente saudades de seu país. Em 1999 começou sua carreira profissional no Banco Mundial, e com ela um exílio forçado que a levou a buscar o sucesso em diferentes continentes: foi de Sarajevo a Lagos até chegar a Washington, para depois desembarcar em Bogotá após passar por Istambul e Johanesburgo. Depois de 15 anos, Arias sabe que continuará sentindo falta da Espanha. A única diferença é que já não está mais buscando seu sucesso pessoal. Agora se dedica a gerir o dos outros.

Formada em Economia pela Universidade Carlos III, em 2001 Arias começou como analista na Corporação Financeira Internacional (IFC), a instituição do Grupo do Banco Mundial que promove o crescimento econômico através do setor privado, operando em mais de 100 países em desenvolvimento. Gerente da região andina desde janeiro de 2012 até agosto de 2013, Arias é desde o final do ano passado diretora para a América Latina e Caribe, a primeira mulher a ocupar este cargo. “É uma oportunidade maravilhosa, apesar da grande pressão e responsabilidade que acarreta”, confessa após assistir uma conferência em Madri, organizada pela Casa de América e voltada para empresas espanholas interessadas em expandir-se na região.

“A reação dos empresários foi muito boa”, explica Arias, que reconhece que tempos ruins podem ser propícios de acordo com a perspectiva com a qual se olha. Se a crise sufocou a atividade econômica no primeiro mundo, por outro lado impulsionou a busca de negócios no exterior e converteu o mercado latino-americano em uma isca para atrair investimento estrangeiro. Até dezembro de 2013, a carteira acumulada de compromissos do IFC com empresas espanholas na região era uma das maiores da Europa, com 1,2 bilhões de euros (3,67 bilhões de reais). Para este ano, Arias informa que já existem acordos fechados de mais de 1,1 bilhões de euros (3,36 bilhões de reais) “Este montante não inclui muita companhias com as quais já estabelecemos contato e que poderão ser potenciais investidores”, adiciona a economista.

Em 2013, os investimentos da IFC na América Latina e Caribe representaram 26% da carteira global da instituição

Estas cifras, segundo Arias, estarão um tanto menores na próxima década – sobretudo pelo atrativo que outras áreas dão; a África em particular – mas seguirá tendo um peso importante. Sobretudo porque a Espanha conta com investimentos significativos na região, alguns das quais datam de mais de 40 anos. “Existem muitas empresas que já têm um pé dentro da região, é mais fácil aprofundar do que entrar”, aposta.

A Espanha não é o único país que colocou os olhos na mina de oportunidades latino-americanas. O maior investidor da região continua sendo os Estados Unidos, segundo o último informe da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), publicado quinta passada. De acordo com o órgão, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) na região voltou a crescer em 2013 até alcançar os 135,85 bilhões de euros (415,22 bilhões de reais), mas estima uma ligeira queda nos próximos anos. A entidade, entretanto, calcula que o interesse dos investidores seguirá vivo graças às políticas reformistas implementadas por muitos países da região.

Segundo Arias, o mercado latino-americano não perderá seu atrativo porque apesar de avançar a passos largos ainda está longe da saturação. Ainda que o Fundo Monetário Internacional (FMI) tenha rebaixado as previsões de crescimento da região para 2,5% em 2014 – longe do percentual de 4,3% de 2011 -, a América Latina conseguiu reduzir a taxa de pobreza de 42% para 25% em uma década, e se prevê que as exportações subam 5,4% em 2016, de acordo com o Banco Mundial. Mas a aposta de Arias vai em outra direção. Sobretudo as grandes economias, as que mais investimentos recebem – Brasil, México, Chile, Peru e Colômbia – contam com um importantíssimo motor de crescimento: uma classe média cada vez mais numerosa e exigente. “Estimamos que de agora até 2030 ela aumentará significativamente, e passará a constituir dos 29% atual até 42% da população”. Isto se traduz, continua Arias, “em uma demanda maior de bens e serviços e na necessidade de desenvolver uma infraestrutura” adequada para as necessidades incipientes.

A falta de produtividade e competitividade sempre foi vista como o tendão de Aquiles da região

A fundamentação das bases ainda não está consolidada. Mas a aposta é grande. Em 2013, os investimentos do IFC na América Latina e Caribe representaram 26% da carteira global da instituição, uma proporção superior a de qualquer outra região. Os investimentos alcançaram 4,77 bilhões de euros (14,58 bilhões de reais) distribuídos em 129 projetos, o que resulta em um incremento de 30% em relação ao ano anterior.

“Além disso”, recorda Arias, “graças aos projetos financiados pela Corporação, em 2013 contabilizamos que foram gerados 2,7 milhões de empregos, serviços de saúde para mais de 17 milhões de cidadãos, tudo isto para os projetos realizados em 2013, e levou-se o acesso a energia elétrica para mais de 50 milhões de pessoas e água para mais de 40 milhões”.

O IFC prevê que a região receba, em 2014, 99 bilhões de euros (302,59 bilhões de reais) em investimentos privados em infraestrutura, o setor no qual mais apostam as empresas espanholas (30% do total) através da Corporação, por trás somente do financeiro (46%). “São áreas nas quais a Espanha tem uma vantagem comparativa, uma capacidade e tradição absolutamente exportável”, insiste, após revelar que a empresa que patrocina um dos últimos projetos do órgão, - o financiamento da construção e operação de um novo terminal portuário em Queztal, Guatemala –, é a espanhola Grup Maritim TCB.

Arias quer deixar claro que as excelências setoriais espanholas – em particular o abastecimento e geração de energia e o campo da infra-estrutura – poderiam representar o antídoto ao principal entrave do crescimento econômico latino-americano. “A falta de produtividade e competitividade sempre foi visto como p tendão de Aquiles da região”, manifesta Arias. As razões? “Excesso de burocracia, falta de conexão entre formação e emprego, desigualdade e arrecadação muito baixas”, resume a economista. E se atreve a fazer uma comparação com os tigres asiáticos: “Nenhum país latino-americano conseguiu o que fez a Coréia em tão pouco tempo, e em parte é porque a produtividade é baixíssima. Se a região focar em atacar este obstáculo poderia dar um salto significativo, se não seguirá perdendo terreno frente a outras economias que fizeram melhor este trabalho”.