FINAL DA LIGA DOS CAMPEÕES | REAL MADRID x ATLÉTICO

O outro equilíbrio de Simeone

Um roqueiro, um “professor”, um ex-goleiro e amigo, um antigo companheiro, tecnologia de ponta e paixão apoiam o técnico do Atlético de Madri

Burgos (à dir.) e Simeone celebram o título espanhol.
Burgos (à dir.) e Simeone celebram o título espanhol. (AFP)

“Isto é uma final de Liga dos Campeões, deve-se estar atento a tudo. São os detalhes que importam, irmos para Los Ángeles de San Rafael, aí se começa a ganhar os jogos”, vociferava na quarta-feira o Professor Ortega, preparador físico do Atlético no estacionamento do Cerro Del Espino. Ortega combina alta tecnologia com o tradicional jeito professoral para relacionar-se com jogadores que podem reclamar quando o exigente trabalho físico os derruba. Ele decidiu, junto com Simeone, que a equipe se concentraria em Los Ángeles de San Rafael, onde até ontem preparou os futebolistas com seguidos trabalhos visando a final de sábado. Aceita que o momento histórico deve ser desfrutado competindo, mas frisa sempre o mote que explica este Atlético: “Aproveitar sim, mas ganhar sempre”. Parte da sua metodologia, a divisão do campo em quadrantes, vinda dos seus tempos como técnico de rúgbi no Uruguay, tem a ver com a coordenação e a precisão demonstradas pela equipe nas marcações pressão alta e baixa. A área de Ortega é uma das quatro vertentes principais da comissão técnica. Todos, com suas diferentes personalidades, compõem o “outro equilíbrio”, o profissional e pessoal que Simeone considera imprescindível para os êxitos recentes.

“Com Courtois tive de trabalhar para que ele não parecesse ter 19 anos”, diz Vercellone

Germán Burgos, braço direito de Simeone, é um roqueiro obcecado por futebol que tem como um de seus livros de cabeceira “A Máquina de Trepar”, de Charles Bukowski. Pablo Vercellone, ex-goleiro do Estudiantes de La Plata que passou rápida e prematuramente pela elite do futebol, é o preparador de goleiros e, pela idade, o mais próximo de Simeone na vida privada, com quem chegou a morar por um ano quando chegou a Madri. Juan Vizcaíno, ex-companheiro de Simeone nos títulos do Atlético de 1995-1996 é calmo, tranquilo e bonachão. Ponto de ligação ideal entre comissão técnica e jogadores, possui também vasto conhecimento futebolístico de grande ajuda por sua visão do jogo no campo. Carlos Menéndez, preparador físico e ajudante de Ortega, é reservado, defensor de seus métodos modernos, descoberto pelo diretor das categorias de base Carlos Aguilera nas divisões menores do clube.

Diego Costa, no último treinamento.
Diego Costa, no último treinamento.Gonzalo Arroyo Moreno (Getty Images)

“Minha vestimenta provavelmente não combina com minha faceta de estudioso do futebol”, brinca Germán Burgos, alguém capaz de pedir a seus auxiliares, quando treinava o Carabanchel na Primeira Regional, que medisse as dimensões dos campos dos rivais. Agora trabalha com um programa pioneiro, o Wiscouts, que disseca os adversários em um tablet. “Foi Carlos Griguol, meu treinador no Ferro Carril da Argentina, que me disse que eu poderia ser técnico. Quando ainda não estava na equipe principal já treinava garotos em um colégio”, assegura Burgos, que há tempos parou com o The Garb, grupo de rock batizado com suas iniciais: Germán Adrián Ramón Burgos.

A música, como o futebol, é parte da pele de Burgos. No domingo, em Neptuno, durante a celebração do título espanhol, tocou Thunderstruck, do AC/DC, quando foi chamado para falar. Griguol, com seu inseparável boné, foi quem o apelidou de Mono (macaco, em espanhol), “porque viu meu tamanho e em vez de me chamar de gorila, disse Mono, e tenho de agüentar”, confessou. Sentado em seu carro, reflete sobre o título do espanhol: “não gosto que digam que foi uma aula, o que fizemos foi um exemplo, como disse Simeone, para o povo humilde para quem tudo é muito difícil”.

Burgos é a alegria, aquele que sempre tem uma brincadeira para relaxar treinos e concentrações, mas pode ser também um vulcão quando se enerva. “Arranco sua cabeça, não sou Tito”, chegou a dizer para José Mourinho em um clássico tenso. Tampouco teve dúvidas em encarar Adrián no último jogo do campeonato espanhol, quando considerou que os protestos do atacante ao ser substituído passaram do limite. “Metam bomba”, é um de seus gritos para pedir intensidade aos jogadores em partidas como a de sábado.

“Meu jeito de ser talvez não pareça com o de um estudioso do futebol”, brinca Burgos

“Cada um tem seu jeito de ser e tratamos de colaborar como equipe e como pessoas porque também existe amizade. O Professor Ortega, quando trabalha, te ensina. Simeone o respeita muito. Eu talvez seja o que mais em comum tem com o técnico, somos quase da mesma idade, temos filho e passamos por circunstâncias pessoais parecidas. Germán vocês já sabem como é, mas vive o futebol”, aponta Pablo Vercellone, o homem que poliu Courtois. “Thibu já trazia muitas qualidades, mas tinha somente 19 anos. Tratava-se de dissimular sua idade, de fazê-lo jogar como um goleiro de 30 anos, e para isso era necessário que ele trabalhasse muito os fundamentos básicos, um “abcd” da posição: reposições, defesas, saídas de gol, cortes. Foram muitas repetições, eu me aborrecia, mas estes treinamentos deveriam suprir os anos de diferença para goleiros mais experientes”. Vercellone também modelou Courtois de acordo com o estilo de jogo: “Precisávamos de um goleiro sólido, sério e efetivo, que transmita o mesmo jeito da equipe. Não gosto de goleiros voadores”.

Nas concentrações, quando os jogadores já estão dormindo, pode-se ver toda a comissão técnica sentada, conversando. “Quase sempre acabamos falando de futebol”, assegura Vercellone. “Para mim o corpo técnico é como minha segunda família”, diz Simeone no livro En El Efecto Simeone, La Motivación Como Estrategia, em que também descreve a importância vital de seus colaboradores: “Valorizo muito mais que seu trabalho. É algo que está mais além. É uma integração com o sentimento. Não é isolar-nos do que pensamos sobre a vida. É a paixão, a obsessão, a busca. Não se trata só de questões futebolísticas. Há ocasiões em que são idéias para transmitir-lhes uma forma de vida. Gente que sem falar, somente no olhar já sabe o que tem de fazer. Todos juntos somo puro sentimento”.

Com todos já reunidos, incluindo seu assessor de imprensa, Pepe Pasqués, Simeone os homenageou na primeira entrevista coletiva como campeão espanhol na sala de imprensa do estádio Camp Nou; pediu que estivessem com ele “porque me fizeram ser um treinador melhor”.

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