Coluna
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A esquerda não sonha mais?

A esquerda brasileira repete os mesmos erros da direita, elaborando suas plataformas de forma autoritária e autocentrada. No caso da cultura, isso é patente

Há pouco acompanhei, aturdido, a polêmica em torno de uma proposta, que, por ser tão absurda, custei a levar a sério: de “traduzir” clássicos da literatura brasileira para torná-los mais acessíveis aos leitores. “Quero livros nas casas dos mais simples”, argumentou a autora do projeto, que, com dinheiro captado por meio de renúncia fiscal, em junho distribuirá gratuitamente 600 mil exemplares, em linguagem facilitada, de O alienista, de Machado de Assis, e de A pata da gazela, de José de Alencar. Aguardei a poeira baixar um pouco para fugir da armadilha de criticar a ideia de Patrícia Secco sob o argumento corrente de que não se pode mexer no texto dos autores porque isso é por demais óbvio.

O que me preocupa, na verdade, é a visão distópica que alicerça a convicção de Patrícia Secco e de seus apoiadores, e que alimenta o discurso da esquerda brasileira (aqui incluo petistas e tucanos e todos os assemelhados). Ela afirma que, por causa do vocabulário, considerado difícil, os jovens não gostam de Machado de Assis, o que é fato. Então, ao invés de sugerir mudanças no sistema educacional, visando à melhoria do nível dos alunos, Patrícia e seus apoiadores propõem “descomplicar” o texto do autor. Ou seja, o problema não está no nosso péssimo sistema de ensino, que historicamente vem sendo o instrumento mais eficaz de manutenção das desigualdades sociais, mas no escritor que utiliza palavras por demais sofisticadas.

Certa feita, um jornalista de um grande diário de São Paulo escreveu uma resenha sobre um romance nacional e, após pespegar inúmeros elogios ao livro, encerrou o texto afirmando que, para além de todos os outros méritos, o que sobressaía era a capacidade ímpar do autor de mimetizar a linguagem errada e o vocabulário pobre do povo. Naquela mesma noite, o noticiário televisivo exibiu uma matéria sobre o assassinato de um jovem numa comunidade do Rio de Janeiro. A repórter, segurando burocrática o microfone, perguntou à mãe da vítima: O que a senhora está sentindo? E a mulher respondeu, cabisbaixa: O que me deixa triste é que meu filho não teve tempo de frutificar. Uma sentença que certamente nem a repórter, nem o resenhista e nem o autor do livro elogiado teriam capacidade de formular.

Em 1931, Oswald de Andrade, que teve muitos defeitos, mas não o de ser sincero em suas crenças, filiou-se ao Partido Comunista. Já autor de um dos romances basilares da literatura brasileira, Memórias sentimentais de João Miramar, foi convocado pelo comitê central, que, tomando Jorge Amado como exemplo, instou-o a escrever livros para consumo em grande escala, utilizando vocabulário fácil, psicologia rasa e estrutura simples, que pudessem ser compreendidos pelo povo e, portanto, servissem como ferramenta de disseminação ideológica. Oswald então, negando-se a compactuar com tamanha estupidez, cunhou uma de suas mais célebres frases: Um dia, a massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico.

No poder, ou mesmo fora dele, a esquerda brasileira repete os mesmos erros da direita – sim, eu insisto que há diferenças abismais entre as visões de esquerda e direita –, elaborando suas plataformas de forma autoritária e autocentrada. No caso da cultura, isso é patente. Intelectuais de gabinete, investidos de um saber delegado sabe-se lá por quem, acreditam sinceramente que entendem o que é o melhor para o povo, essa entidade mítica e amorfa. Assim, estabelecem políticas públicas demagógicas e populistas, visando muito mais à coleta de votos ao fim do mandato que propriamente a elevação espiritual da população.

Seguir o caminho indicado por Patrícia Secco e seus apoiadores é contribuir, de forma consciente, para aprofundar o fosso existente entre ricos (brancos) e pobres (brancos, negros, mestiços e índios) no Brasil. Ao invés de darmos chances iguais a todos os cidadãos, por meio de uma educação pública de qualidade, para que possamos construir uma sociedade menos injusta, estaremos ajudando a erguer ainda mais alto o muro já existente de exclusão social. Como Patrícia Secco, também quero os livros de Machado de Assis e José de Alencar em todas as casas, até nas mais simples. A diferença é que nutro uma utopia: a de ver as pessoas lendo Machado de Assis e José de Alencar no original, e não na versão de Patrícia Secco.