Morre Tito Vilanova

O ex-treinador do Barça falece aos 45 anos, vítima de um câncer detectado em 2011 Sua parceria com Pep Guardiola no clube formou um time inesquecível

Tito Vilanova.
Tito Vilanova. (CORDON)

Mesmo quando falava da sua doença, Tito Vilanova desdramatizava e se referia à clínica como um escritório pelo qual tinha que passar com certa regularidade por exigências da revisão anual. A última visita foi fatal. Tito Vilanova morreu aos 45 anos em Barcelona vítima de câncer na glândula parótida, do qual sofria desde 2011 e que o afastou do futebol.

Tito havia aprendido a conviver bem com sua doença, tanto que suavizava até a situação mais tensa, inclusive a última, quando informou a um parente que em vez de ir à casa de campo para descansar durante a Semana Santa, se internaria na clínica Quirón de Barcelona. Tinha um vírus e seu sistema imunológico não estava respondendo depois do fracasso de um tratamento experimental que havia feito na França. Ele não deu muita importância ao fato, como se fosse coisa de rotina, porque, no final das contas, já fazia tempo que Vilanova entrava e saia da clínica, ia e voltava do campo de futebol onde seu filho Adriá jogava pelo juvenil B do Barça e, de vez em quando, ia jantar em algum restaurante com sua esposa Montse.

Uma longa luta

22-11-2011. O Barcelona anuncia que Tito Vilanova sofre de um tumor na glândula parótica e que será submetido a uma operação urgente. Seis dias depois, ele recebe alta.

07-12-2011. Duas semanas depois da intervenção cirúrgica, Vilanova se reincorpora aos treinos.

27-04-2012. O Barcelona nomeia Vilanova primeiro treinador no mesmo dia em que Guardiola anuncia sua despedida do clube.

12-05-2012. Os serviços médicos do Barcelona anunciam que o técnico está curado e livre da doença.

19-12-2012. O Barça informa sobre a recaída de Vilanova. No dia seguinte ele é operado.

21-01-2013. Tito viaja a Nova York para se tratar.

26-03-2013. Volta dos EUA.

29-03-2013. Volta a comandar os treinamentos.

02-04-2013. Regressa ao banco do Barça na partida da Champions contra o PSG.

11-05-2013. O Barcelona ganha a Liga.

19-07-2013. O clube anuncia que Tito recai e que deixa o cargo.

25-04-2014. Tito falece em Barcelona.

Embora tentasse levar uma vida normal, as pessoas comentavam sobre seu aspecto, sobre o lenço que cobria seu pescoço, sobre seu gorro de lã, sobre suas relações com Pep Guardiola e também sobre como Sandro Rosell estava se saindo bem. Houve algum amigo íntimo que deixou de visitá-lo porque lhe dava aflição vê-lo e conversar sobre a vida com a inteireza com que falava. Talvez por seu caráter de nativo do Ampurdà, interior da Catalunha (nasceu em Bellcaire, dia 17 de setembro de 1968), ele tenha aprendido a conviver com sua doença, a relativizar sua dor, a desafiar a morte que anunciava sua maledicência. Os próprios médicos, ou ao menos alguns dos que o trataram, previram em abril do ano passado que poderia enfrentar a temporada com o otimismo renovado: "Sinto-me forte", anunciou, para recair pouco depois para a surpresa do clube, da clínica e dos oncologistas que lhe haviam recomendado o melhor dos remédios: trabalhar. Naquele dia, alguém do clube sentenciou: "Quando você deixa de ser treinador do Barça, passa a ser um doente comum. Não é a melhor terapia".

O Barça deu vida a Tito e Tito se esforçou para continuar no Barça desde que voltou à entidade, na temporada de 2007-2008. Guardiola o chamou para que fosse seu ajudante no Barcelona B. Ambos eram bons amigos desde que conviveram em La Masia. Embora tenham sido meio-campistas virtuosos, viviam o futebol de maneira oposta: a paixão rauxa (imprudente, em catalão) de Guardiola contrastava com o seny (senso comum) de Tito. A mistura funcionou maravilhosamente bem e se o time filial conseguiu ascender à Segunda B foi pelo profundo conhecimento dos rivais que Tito tinha, por ter sido ex-jogador do Figueres, do Lleida e Gramanet, além do Celta, do Badajoz, do Mallorca e do Elche; técnico do Palafrugell; e diretor esportivo do Figueres e do Terrassa. Guardiola disse que o título de que tem melhor lembrança é o de campeão da Terceira Divisão. Por isso se entende que ele não teve dúvida alguma em confirmar Tito como seu braço direito quando chegou ao Camp Nou no ano seguinte. Guardiola procurou que não faltasse nada a Tito e conseguiu que Rosell lhe propusesse um contrato típico do melhor técnico da Primeira Divisão.

Guardiola o chamou para que fosse seu ajudante no Barcelona B. Ambos eram bons amigos desde que conviveram em La Masia

O Marquês, como era chamado na sua época de jogador dos times inferiores do Barça, o mesmo que havia perdido seu lugar na filial de Lluís Pujol para Danny Muller, naquele momento namorado de uma das filhas de Johan Cruyff, era agora o complemento ideal de Guardiola, da mesma forma que na época de Cruyff e Carles Rexach. Tito preparava a estratégia, aconselhava contratações como a de Cesc, sabia quem devia ser substituído e em que momento, entendia o Messi e dava entrevistas com a aprovação de Guardiola. O Barcelona se converteu no melhor time do mundo a partir da parceria Guardiola-Vilanova, 14 títulos em 19 competições. Até que numa consulta relacionada com problemas de ouvido, dos quais ele sofria desde pequeno, soube-se que tinha um tumor na glândula parótida. Foi operado em novembro de 2011, quando o time viajava para Milão. O câncer não o abandonou mais, enquanto Guardiola se distanciava do Barça.

Guardiola e Tito também foram se separando e se confrontando progressivamente até chegarem à ruptura. E, mais tarde, à reconciliação, quando já não havia nem intermediários nem familiares envolvidos, ambos afastados do Barça. Talvez Pep quisesse que a história acabasse como havia começado e talvez Tito pretendesse garantir o futuro da sua família e dirigir a transição do Barça. O título da Liga de 2013 confirma as intenções de Vilanova: os jogadores do time deitaram no seu colo, cansados da cultura do esforço de Guardiola. Não pareceu um ataque de vaidade, mas sim algo coerente com sua personalidade. Tito conseguiu relativizar o papel do treinador do Barça diante da figura de Messi. E se alguma vez se fez de importante foi para combater o menosprezo daqueles que ignoravam seus conhecimentos.

Tito veio e se foi como se não tivesse acontecido nada, como se não sofresse de mal algum, como se estivesse passando pela vida e pelo clube.

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