entrevista | josé sarney, EX-PRESIDENTE DO BRASIL

“Caiu o Muro de Berlim, mas Cuba não caiu”

Primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura militar, José Sarney diz que o Brasil tem vivido de costas para a América Latina e que a situação da Venezuela é parte da hipoteca da Guerra Fria Para o ex-presidente, está na moda criticar o Maranhão e atacá-lo

O presidente do Senado, José Sarney, no gabinete.
O presidente do Senado, José Sarney, no gabinete.A. Dusek/ESTADAO

Pai de uma transição democrática feita, como ele mesmo repetiu, “com os militares, e não contra eles”, o ex-presidente José Sarney (1985-1990), de 83 anos, repassa em entrevista a este jornal 50 anos de vida política.

Deputado, ex-governador do Maranhão, várias vezes senador (atualmente pelo Amapá), Sarney é também escritor e decano da Academia Brasileira de Letras. Poetas como Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto e o português Gaspar Simões teceram elogios à sua narrativa e à sua poesia.

Sarney ocupa um lugar na história do país como o homem que aplainou o difícil caminho da ditadura (1964-1985) até a democracia, durante um mandato infestado de turbulências e problemas econômicos, mas que acabou desembocando posteriormente no período de maior liberdade e prosperidade da história do Brasil.

A conversa transcorre na sua casa, em Brasília, num começo de tarde deste início de outono. A seu lado, a pilha de volumes das suas memórias, já concluídas e à espera de que ele tenha tempo para uma última revisão. Suas memórias serão preciosas para os historiadores.

Sarney destaca os avanços do Brasil durante os últimos anos nas áreas econômica e social, “uma preocupação que entrou na agenda com meu Governo”, afirma, mas se mostra muito crítico com o progresso obtido no terreno político. “Politicamente o Brasil não avançou. A legislação eleitoral permite práticas do século XIX e torna muito difícil a formação de partidos nacionais”.

Firme partidário da reforma política, tantas vezes postergada neste país, o ex-presidente defende o fim do voto proporcional e uninominal, responsável por múltiplas distorções eleitorais, e se mostra a favor de evitar “a proliferação de pequenos partidos parasitas”. Sarney recorda que a lei de partidos vigente é de 1995, e que não há no Brasil uma tradição de partidos nacionais. O resultado é que o gigante sul-americano, em vez de contar com “partidos modernos, pragmáticos e não doutrinários” de âmbito nacional, encontra-se afligido por múltiplos partidos com interesses locais, sempre dispostos a comercializar seu apoio.

Sarney vê falhas também no sistema constitucional, uma estrutura que qualifica de “quase anárquica”. “A Constituição de 1988 já tem 64 emendas”, afirma, com gravidade. Essa estrutura, unida à “anarquia administrativa”, argumenta ele, faz com que “tudo no país dependa da sensatez do presidente”, cuja principal virtude deve ser a “paciência”. Na sua opinião, o Brasil deveria adotar um regime parlamentar, com um primeiro-ministro, “onde as crises fossem solucionadas com uma mudança de Governo, sem colocar em perigo a estrutura do Estado”.

No aspecto econômico, Sarney argumenta que a indústria foi modernizada, que o país se internacionalizou e que, graças ao Plano Cruzado, rompeu-se com a ortodoxia econômica. Entretanto, acredita que o modelo de crescimento “começou a se esgotar”, sem investimentos suficientes para modernizar a infraestrutura obsoleta e sem os recursos necessários para satisfazer uma classe média cada vez mais exigente. “O modelo brasileiro é muito difuso, e não existe uma proposta global.”

Mas a conversa volta repetidamente à política e à ausência de lideranças, um problema global que o preocupa. “Não existem novos líderes. Vivemos tempos de mudança, da civilização industrial para a digital. Em todo o mundo, o poder está desaparecendo. O poder está desgastado. Faltam verdadeiros estadistas.”

Para ele “o Brasil tem um futuro, e é o da reforma política”. Ele dá tanta importância a isso que, apesar de ser o homem e político ponderado que é, chegou a dizer: “Ou reforma, ou revolução”. Testemunha viva durante meio século da rica e conturbada vida do Congresso, Sarney é crítico com relação à atual função do Parlamento, já que este se vê muitas vezes tolhido pelas medidas provisórias do Executivo, sem poder exercer a fundo sua verdadeira função legislativa.

O Brasil recordou na semana passadas os 50 anos do golpe de Estado que derrubou o presidente João Goulart, em abril de 1964, uma efeméride que voltou a chamar a atenção para o papel dos militares na história deste país. “A página da ditadura está completamente virada”, interrompe. “As Forças Armadas, cuja influência política vem da Guerra do Paraguai, são hoje constitucionais”.

O diálogo leva à relação do Brasil com o resto da América Latina, num momento em que um país vizinho, a Venezuela, atravessa uma grave crise política e social. “Brasil tem vivido de costas para a América Latina, mas tudo pode ser mudado, menos a geografia.”

“A eliminação de distâncias que não faziam sentido me levou, junto com o [então] presidente argentino, Raúl Alfonsín, a criar o Mercosul. Começamos então a trabalhar pela integração latino-americana. Hoje, o Mercosul está paralisado, mas confio que sobreviverá a esta crise.”

E a Venezuela? “Neste continente, ocorre que caiu o Muro de Berlim, mas Cuba não caiu. A situação da Venezuela é parte da hipoteca da Guerra Fria e das contorções da liberdade. A tentação hegemônica de um partido ou um governante sempre existe, mas no Brasil não há nenhum perigo de contágio do populismo bolivariano.”

Ele é criticado pelo fato de seu Estado natal, o Maranhão, continuar mergulhado na pobreza, apesar de ele ser um dos líderes políticos com maior poder em nível federal. “É um Estado paupérrimo, sem interesse estratégico algum, do tamanho da França [na verdade tem pouco mais de três quintos do país europeu]. Apesar das críticas, cresceu no ano passado em ritmo chinês, 15%. Foram feitas grandes obras de infraestrutura que não foram notícia. Conta hoje com o segundo porto mais importante do Brasil [em tamanho, mas o quinto em negócios].” E além disso, diz, “tudo o que significa criticar o Maranhão significa atacar o Sarney. Está na moda”.

Será novamente candidato ao Senado? Ele sorri com a pergunta e responde: “Pessoalmente, preferiria descansar”. Em seu sorriso parece ficar implícito que o eterno Sarney voltará à arena. A política faz parte do seu sangue. Dele, que é impermeável às críticas e que gosta de emoldurar as charges mais cruéis publicadas contra ele, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a dizer que “não é uma pessoa comum”. Possivelmente ele já seja uma instituição, a respeito da qual outro ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, elogia sua valiosa contribuição na consolidação da democracia no Brasil.

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