Lula prepara uma resposta?

As pesquisas continuam lhe dando, sem ser candidato, o máximo de consenso. Seria o único que desbancaria hoje nas eleições presidenciais qualquer candidato

O ex-presidente Lula durante entrevista a blogueiros em São Paulo.
O ex-presidente Lula durante entrevista a blogueiros em São Paulo.Ricardo Stuckert (Instituto Lula/Divulgação)

O ex-presidente Lula da Silva voltou a estar mais do que nunca acima do jogo político. Diante da crise que começa a afetar a sociedade e o astral negativo que se abateu sobre o governo de sua pupila, a presidenta Dilma Rousseff, voltam a multiplicar-se os comentários de que Lula estaria se esquentando no banco dos reservas e que até poderia preparar uma surpresa.

As pesquisas continuam lhe dando, sem ser candidato, o máximo de consenso. Seria o único que desbancaria hoje nas eleições presidenciais qualquer candidato, a começar por Dilma.

O que, no entanto, mais preocupa o carismático ex-sindicalista não é a queda de 6 pontos de Dilma nas pesquisas. Ele sabe muito bem que assim que subir nos palanques, com a força ainda de sua popularidade, poderia fazer aquecer de novo o termômetro do consenso de sua escolhida.

O que o preocupa, sobretudo, é o fato evidenciado na última pesquisa nacional, segundo a qual pela primeira vez a maioria dos brasileiros manifesta pessimismo em relação ao futuro. Até agora, os brasileiros admitiam sempre não só que estavam em melhor situação, mas também que melhorariam ainda mais no futuro, que seus filhos viveriam em uma sociedade mais próspera.

Isso está mudando, e hoje a sociedade manifesta até medo do desemprego em um país no qual foram criados milhões de postos de trabalho, com aumento considerável dos salários.

O que está acontecendo? Se o otimismo é contagioso, o pessimismo é ainda mais. E é esse sentimento de que as coisas começam “a ir mal” é o que está tomando conta até de muitos que acabam de sair da pobreza para se sentarem na mesa da classe média. Temem, de repente, perder o que foi conquistado.

É isso o que mais assista Lula porque, como o político sagaz que é, sabe muito bem que quando se começa a descer a ladeira é difícil voltar a subi-la.

Ninguém sabe na verdade o que Lula e Dilma se disseram em suas longas conversas em um hotel de São Paulo, mas certamente não falaram de flores. Ambos se encontram em uma situação delicada. Dilma sabe que a recuperação não será fácil nem sequer com a ajuda de seu mentor. Tudo parece de repente ter ficado contra ela. Quase se transformou em um bode expiatório sobre o qual se descarregam as iras terrenas e divinas.

O que ela e Lula farão se as coisas piorarem? Essa é a grande pregunta. Não se trata já de saber se Lula voltará ou não. O problema é mais complexo porque ele não poderia voltar sem o consentimento de Dilma. Não pode fazê-lo alegando, se fosse o caso, que sua pupila fracassou porque isso significaria que ele fracassou com la, já que a apresentou à sociedade como sua melhor sucessora. E o país acreditou nele e a elegeu.

A solução, se a economia piorar nos próximos meses, ou se a sensação de insatisfação crescer entre o eleitorado, deverá vir dos dois juntos. Como? Com Dilma renunciando? E por qual motivo? Poderia fazer isso sem criar problemas para a saída de Lula a campo se estivesse doente, mas ela está saudável e em forma, e com vontade de ganhar a batalha.

Há quem diga que Lula não teria esses escrúpulos e que se decidisse se apresentar como candidato não se valeria de subterfúgios nem pediria permissão a ninguém. Isso seria, porém, desconhecer seu apurado olfato político. A sociedade brasileira cresceu e amadureceu. Mantém uma boa recordação de seus dois mandatos de governo e ele ainda é amado pela maioria dos eleitores, que confiam nele e que, no entanto, não o perdoariam hoje se entrasse na disputa política como um elefante em uma cristaleira.

Cabe então alguma outra opção se Lula vir que seu partido poderá perder as eleições ou que o Brasil entra em uma crise que prejudicará sua imagem internacionalmente? Estaria Lula preparando alguma surpresa? Uma das hipóteses plausíveis para sair desse atoleiro, que salvaria ele e Dilma ao mesmo tempo poderia ser, segundo alguns, apresentar-se com a proposta de um governo de salvação nacional no qual a oposição possa também participar. E isso com a finalidade de sair da crise e levar adiante, com a ajuda de todos os partidos, uma reforma política que dê luz verde a uma república parlamentar, com um primeiro ministro, uma solução que hoje é defendida até pelo senador e ex-presidente José Sarney, a quem ninguém poderá acusar de conspirador ou de não conhecer a vida parlamentar à qual dedicou sua vida. E ele é um fiel aliado seu.

Desse modo, Lula iria também ao encontro da inquietação que existe atualmente entre os partidos aliados que apoiaram seus dois governos e o de Dilma, principalmente o PMDB, os quais dão sinais de cansaço e até de estarem tentados à traição.

Ficção científica? Não. Trata-se de uma saída que, ao que parece, Lula estaria considerando seriamente. Tudo dependerá, porém, do que possa acontecer de agora até finais de junho e o final da Copa. Ou seja, nada e uma eternidade ao mesmo tempo.

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