O FMI põe de novo o foco na Europa

O Fundo quer que o Banco Central Europeu não adie mais sua ação contra a baixa inflação A freada das economias emergentes aumenta a pressão nos países avançados

Christine Lagarde, chefe do FMI (esq.), com Angela Merkel, em 2012.
Christine Lagarde, chefe do FMI (esq.), com Angela Merkel, em 2012.ODD ANDERSEN (AFP)

Albert Camus, Walter Whitman, Robert Frost, Rainer Maria Rilke, Aristóteles... Não há um só discurso prévio às reuniões semestrais do Fundo Monetário Internacional (FMI) no qual a diretora-gerente, Christine Lagarde, deixe de lançar mão de citações de grandes nomes da cultura, da filosofia, para explicar o ser ou o não ser da economia mundial e sua lânguida recuperação. Desta vez, Lagarde se serviu de Victor Hugo para concluir com um bonito “a perseverança é o segredo de todos os triunfos” e explicar que a economia já estava saindo do buraco, mas que seria preciso “perseverar juntos” para completar a viagem.

O Fundo, muito nervoso há um ano com a falta de vigor da economia europeia, volta a pôr o foco no velho continente; quer que o Banco Central Europeu (BCE) atue já contra a inflação excessivamente baixa, se preocupa com que os países percam o interesse por levar adiante as reformas econômicas prometidas e continua vendo uma demanda interna muito fraca. E, se faltava o toque final, também a sombra da crise da Ucrânia e os seus efeitos na região pairam sobre as jornadas de primavera da instituição, que começam amanhã.

O avanço dos emergentes, além disso, perdeu fôlego como motor da recuperação há um ano, devido à queda do preço das matérias primas e o início da retirada dos estímulos da Reserva Federal (o Fed, dos EUA), que está castigando a entrada de capitais.

75% do crescimento mundial desde 2009 se deve aos emergentes

Quando Lagarde deixa as citações célebres e opta pela produção própria, pronuncia frases sobre a economia como “o otimismo está no ar: a fase do gelo ficou para trás, e o horizonte está mais brilhante”, que disse em 15 de janeiro, mas os discursos do Fundo envelhecem piores do que as citações de Victor Hugo: aparecem novas sombras na recuperação global, já lenta por si própria, como esse feio risco de deflação na Europa: uma queda dos preços sustentada e generalizada que bloqueia o consumo e o investimento.

A inflação se encontra na zona do euro em um nível de 0,5%, em dados de março, o nível mais baixo desde 2009, quando o objetivo é de 2%, e se a situação persistir o ortodoxo BCE já tem definido que terá de pôr em marcha a máquina para empurrar os preços: comprar ativos e créditos baratos.

“Uma flexibilização adicional da política monetária na zona do euro é necessária para elevar as perspectivas e alcançar o objetivo de estabilidade de preços do BCE”, disse Lagarde na quarta-feira, aplicando mais pressão ao BCE, em um discurso no qual também lembrou a importância da união bancária e a próxima revisão de ativos da banca. Mas o organismo europeu, que se reuniu no dia seguinte para decidir sobre as taxas, evitou aprovar qualquer medida, embora o aviso de que o faria tenha surtido efeito nos mercados.

Os especialistas concordam em que o risco de deflação na zona do euro é baixo, mas a coisa piora se se coloca a lupa sobre cada país. “A periferia necessita ter preços mais baixos que na Alemanha, de modo que, se a inflação alemã continua em 1%, a Espanha, sim, corre o risco de deflação. A Alemanha deveria ter uma taxa de 2,5% para que a periferia tenha essa margem”, adverte Xavier Vives, professor de Economia e Finanças da escola de negócios IESE.

A instituição pede mais coordenação entre os bancos centrais

Os preços da energia têm muito a ver com essa baixa inflação, mas também uma demanda que na Europa está longe de recuperar o vigor. Há um ano o FMI acendia a lanterna vermelha sobre a Europa pela lenta velocidade de sua recuperação, então liderada pelas economias emergentes, mas agora a expansão dos EUA está ganhando peso no crescimento mundial e os europeus continuam com um avanço “modesto”.

O FMI prevê um aumento do PIB para a zona do euro de 1% em 2014 e de 1,4% em 2015, embora na terça-feira vá publicar suas novas previsões. Em termos globais, a diretora-gerente antecipou na semana passada que projetava “uma melhora modesta” em relação a 2013, quando o mundo em conjunto cresceu 3%.

Há um dado especialmente significativo na salada de números do FMI: nos últimos cinco anos, os mercados emergentes e as economias em desenvolvimento representaram 75% do crescimento global, mas a retirada dos estímulos monetários está reequilibrando o avanço. O que preocupa a instituição é que a correção seja progressiva, controlada, por isso insiste nesta primavera em pedir ao Fed “cooperação” e “uma comunicação clara” que evite as sacudidas nos mercados, e que esse otimismo – usando as palavras de Lagarde –, que está no ar, não seja afastado por novas nuvens sombrias.

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