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Os mistérios de Messi

Com a Champions e a final da Copa do Rei pela frente, o ânimo de “La Pulga” marca os duelos do Barcelona com o Atlético e o Real Madrid

Messi, com Neymar e N’Diaye atrás, no sábado passado.
Messi, com Neymar e N’Diaye atrás, no sábado passado.JOSEP LAGO (AFP)

Com Atlético, Barça e Real na roda e com jogadas em vários tabuleiros, a caminhada se aproxima de seu cume com muitas incertezas. Partida após partida e de gol em gol, o firme Atlético segue com as garras na Liga e tem vantagem na Europa. O Real Madrid quase já está nas quartas da Champions, tem vaga na final da Copa do Rei e vai na cola dos líderes na Liga, depois de no Anoeta por fim brindar contra um rival de categoria. O Barça é o mais enigmático, tão mutante como Messi, que se ativa contra o Real, fica neutralizado diante do Atlético e desaparece com o Betis. Mais do que nunca, com a nudez da zaga, os catalães não têm melhor defesa que o ataque.

Pelo que foi visto desde o clássico, o contágio de Lionel Messi é absoluto e com ele ausente este Barça é menos que o Real sem CR ou os mosqueteiros de “Cholo” Simeone sem Diego Costa. No sábado, com a bandeira de La Masia e o Camp Nou quase transbordando, Leo foi mole. Sabe-se que Messi e Cristiano exigem jogar até nos recreativos. Por isso, causava ainda mais estupor ver contra o Betis como ele nem se preocupava em se desmarcar, em socorrer seus companheiros quando estes o pediam soluções. Poderia ser um dia fora do escritório, sem mais, não fosse que não era a primeira vez que “La Pulga” passava por isso. Estranha que alguém queira jogar a carta na mesa para depois desistir da partida. O argentino, a quem tanto devem o Barça e o futebol, hoje se administra gota a gota. Ele saberá a causa, mas sua trajetória sublime não esconde sua caminhada acidentada destes tempos, seguindo os altos e baixos da equipe e do clube. Messi é outro e já não parece encontrar incentivos nem no pessoal. Com a Bola de Ouro no museu de Cristiano, cabia pensar que no seu íntimo o argentino lutaria pelo troféu Pichichi (dado ao artilheiro da Liga), disputa habitual entre eles, que não deixavam passar nenhuma chance. Nada, de pênalti em pênalti (e nenhum provocado por ele), como se tivesse perdido o apetite que diferencia um Diego Costa em ebulição ou um CR que, ainda que tenha partidas cinzas, como no clássico, empurra e empurra a carroça.

Para este Barça descontínuo o contagio de Leo é mais importante que o de Cristiano ou Diego Costa para suas equipes

Messi é para si próprio e, por seu universo peculiar, é difícil adivinhar qual é a dele: a Champions, a final da Copa do Rei, a Copa do Mundo? O Calderón, na quarta-feira, e o Mestalla, uma semana depois na final da Copa do Rei, deixarão pistas. O futebol é um jogo coletivo, mas quando chegam as provas finais e tudo se decide, os gênios ditam as sentenças. A não ser que a toxicidade sufoque inclusive a eles, como aconteceu com CR há quase um ano, afetado também pelas novelas de Mourinho. Neste Barça, os enredos, e são muitos, também calam.

No entanto não há eminência como Messi, porque dele depende grande parte do desenlace final. Já foi capital na recuperação barcelonista na Liga em Chamartín. Em um duelo direto, Messi se saiu melhor do que CR. Hoje, no entanto, não é difícil prever qual Cristiano se verá depois da pausa deste fim de semana, nem com que Costa o Atlético vai contar na reta final. Com Messi, com este Messi, não há prognósticos. Do colosso perpétuo ao artista regulado. Ele reforça a enorme dimensão de sua figura nos últimos anos. Neste esporte, no qual a vertigem, o vedetismo e o esgotamento físico e mental produzem astros fugazes, Messi parecia ser eterno. Desde Di Stéfano não houve um jogador de futebol por tanto tempo no auge.

No caminho do infinito, as últimas lesões fizeram Messi ver que nem ele é invulnerável. A qualquer um angustiaria a praga de lesões nestes dias, ainda mais com o Brasil à vista. O Calderón e o Mestalla não são somente escalas. Das intrigas que restam rumo ao Maracanã, ninguém provocará mais dúvidas do que Messi. Não há candidato tão subordinado a seu astro como o Barcelona das pernas, cabeça e o ânimo de “La Pulga”. Um mistério não só para o Barça. É claro que o Madrid e este louvável Atlético têm argumentos de sobra para competir com qualquer um. Mas nada pode ser considerado igual dependendo de qual Messi virá pela frente.