A polícia italiana encontra quadros de Gauguin e Bonnard roubados em 1970

As pinturas estavam originalmente em uma casa de colecionistas, em Londres Foram compradas por 75 reais por um cidadão que as tinha expostas em sua cozinha

'Fruits sul une table ou nature au petit chien', o quadro Gauguin recuperado pela polícia italiana.
'Fruits sul une table ou nature au petit chien', o quadro Gauguin recuperado pela polícia italiana. (AFP)

Desde 1975, um quadro atribuído a Paul Gauguin (Fruits sul une table ou nature au petit chien, que vale entre 47 e 109 milhões de reais) e outro de Pierre Bonnard (La femme aux deux fauteuils, de 1,8 milhão) permaneceram pendurados na cozinha de um funcionário da Fiat de Turim, que adquiriu ambas as pinturas em um leilão por 45.000 liras (75 reais) sem saber sua verdadeira autoria nem que haviam sido roubadas da casa de colecionistas de Londres cinco anos antes.

Segundo a reconstrução efetuada ontem em Roma pelo general dos Carabinieri (polícia italiana) Mariano Mossa, os ladrões transladaram as obras de arte a Paris, desde onde tomaram um trem com destino a Turim, mas algo deve ter acontecido na fronteira com a Itália –talvez um controle policial— que lhes fez desaparecer, abandonando o saque. Os empregados da companhia italiana de Trens do Estado encontraram as telas e, ao desconhecer seu grande valor, deixaram-nas durante um tempo no departamento de objetos perdidos. Como não foram reclamados por ninguém, os quadros —junto a outros objetos também esquecidos nos trens italianos— foram leiloados. Ninguém se deu conta então de que se tratava de um autêntico gauguin de 1869 nem de um bonnard de 1909, apesar de que ambas obras estavam catalogadas e se sabia que estavam perdidas. Segundo o general Mossa, o único que apreciou a beleza das obras do pós-impressionismo francês —que representam cestos de frutas e uma jovem sentada em uma cadeira de vime— foi o trabalhador da Fiat, que fez a oferta e levou o lote por um valor que atualmente seria de 75 reais.

A princípio, o funcionário, cuja identidade não foi relevada, pendurou os quadros em sua casa de Turim, mas depois de aposentado levou consigo à sua cidade natal, na Sicília. Segundo o general Mossa, os quadros permaneceram ali até que um filho do antigo empregado —estudante de arquitetura— descobriu em 2013 que um dos quadros que seu pai tinha pendurados na cozinha de  casa se assemelhava muito aos de um catálogo de Gauguin. Começou a perguntar até que a notícia, através dos especialistas consultados, chegou a ouvidos dos agentes dos Carabinieri encarregados da tutela de Bens Culturais.

Os pesquisadores comprovaram que, efetivamente, se tratava de um gauguin e um bonnard roubados em 1970 na casa de um casal de colecionistas de arte de sobrenome Marks e Kennedy, que os adquiriram em um leilão em 28 de junho de 1961. O general Mossa acrescentou que seus agentes comprovaram que alguns jornais ingleses de 8 de junho de 1970 informavam sobre o roubo dos dois quadros em uma casa do bairro londrino de Regent’s Park. As autoridades italianas entraram em contato com as britânicas para averiguar se Marks e Kennedy, já falecidos, deixaram herdeiros para devolver a eles os quadros.

O ministro de Bens Culturais, Dario Franceschini, elogiou o trabalho do Comando para a Tutela do Patrimônio dos Carabinieri e reivindicou a importância que a cultura tem para a Itália: “Como diz nosso primeiro-ministro [Matteo Renzi] tudo relacionado com a cultura está no centro de nossa ação de Governo. É necessário investir em nossa principal fonte de recursos. E da mesma forma que se dirigem os focos para as coisas que não funcionam na Itália, deveriam também acendê-los para mostrar nossas excelências e, neste caso, sobre o extraordinário trabalho de nossos carabinieri”.

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