31ª JORNADA DE LIGA | SEVILLA - REAL MADRID

O Atlético se confirma na Catedral

O líder vira depois do gol inicial de Muiain e enterra o Athletic em uma demonstração de solidez. Os gols de Diego Costa e de Koke mantém os colchoneros no mais alto da Liga

Koke marcade cabeça o segundo gol do Atlético
Koke marcade cabeça o segundo gol do Atléticoalfredo aldai (EFE)

Ao Atlético a pressa começou antes do despertar, como quando não escuta o despertador e o segundo alarme te rompe os ouvidos e te sobressalta, e tropeça na porta do banheiro. Muniain havia arrancado seu humor com as unhas afiadas, tão finas que rasgou as cortinas de Courtois como se arranha a seda, com delicadeza, com um dedo, depois de ter tirado as cores a Juanfran, lento no lado direito, tão sonolento que não se deu conta do magnífico passe de área a área de San José. Seu despertador tocou tarde e quando saltou da cama, Muniain já havia tomado café de Courtois. Fez o gesto perfeito e sua dor nas costas a passou a Juanfran e ao surpreendido goleiro belga, que não esperava as torradas tão cedo. E Muniain as comeu, com a ligeireza da manteiga e o sabor da geleia.

ATHLETIC, 1 - ATLÉTICO, 2

Athletic: Iraizoz; Iraola, San José, Laporte, Balenziaga; Iturraspe; Susaeta (Guillermo, m. 71), Mikel Rico, (Beñat, m. 82) De Marcos (Toquero, m. 77), Muniain; e Aduriz. Não utilizados: Herrerín, Erik Morán, Etxeita y Saborit.

Atlético: Courtois; Juanfran, Miranda, Godín, Filipe; Sosa (Arda, m. 56), Suárez, Gabi, Koke; Raúl García (Cebola Rodríguez, m. 82); e Diego Costa (Vila, m. 90). Não utilizados: Aranzubia, Tiago, Anderweireld y Diego.

Goles: 1-0. M. 5. Muniain eleva acima de Courtois. 1-1. M- 21. Error de Iturraspe no passe e Diego Costa bate a Iraizoz. 1-2. M. 55. Koke, de cabeça.

Árbitro: Teixeira Vitienes II. Amonestó a Gabi, Godín, Iturraspe y Laporte.

Nuevo San Mamés: 35.000 espetadores.

Já desperto, tocou a campainha e o exército de Simeone colocou o uniforme e começou a manobra. O Athletic sabia que o conflito entre San José e Diego Costa era mais desigual que uma corrida entre um Fórmula 1 e um trator, que cada arrancada era uma viagem ao infinito, um buraco negro na defesa do Athletic, que cedo ou tarde devia devorar aos astronautas alvirrubros. Ainda assim, Valverde preferiu manter sua defesa adiantada, submetendo Laporte e San José a uma resistência impossível. Diego Costa saiu da ducha fria do gol de Muniain com o primeiro mano a mano com Iraizoz que o goleiro salvou com reflexos. Era um cartão de visitas, apagado, um pouco sujo, mas cartão no fim das contas. No primeiro duelo, Diego disparou a primeira bala. Era o anúncio de uma metralhadora, ainda que o primeiro disparo fosse falho. O Atlético não deu um passo adiante, simplesmente rodou a bola, se juntou, o amansou sempre observado afrente, com a intensão de que esse tesouro com meia pradaria vazia frente aos olhos de Diego Costa, tinha meio trabalho pronto. Era uma sensação estranha: dominava a partida, a posse de bola, o tempo... e jogava em contragolpe. E em um desses, um mais, chegou o anunciado gol de Diego costa. Certo que por meio de um passe errado de Iturraspe, mas podia ter sido em qualquer outra ocasião. San Mamés emudecia cada vez que o brasileiro pisava no acelerador.

A constância e a solidariedade do Atlético em todas suas linhas tinha a seu favor a multidão de erro de passe dos jogadores do Athletic, com o agravante de que cada bola perdida supunha uma resposta perigosa por parte dos de Simeone. Tanto foi assim que essa tendência levou a tirar a responsabilidade dos pés com cruzamentos previsíveis dos que levantam o público e acalmam os zagueiros.

El Athletic, que nascia com músculos poderosos, se voltou uma miniatura

É difícil que duas equipes joguem de contra-ataque e, no entanto, nessa estranha guerra, os exércitos iam à emboscada. De Marcos desperdiçou uma escaramuça alvirrubra, com uma inocência de um recruta e depois, no breve espaço de uns minutos, Raúl Garcia desperdiçou outro mano a mano; e na mesma linha seguiu outra bola cruzada que tocou Aduriz para Susaeta, que vinha com o acelerador solto cabeceando por cima de Courtois, mas fora.

Era uma polémica entre a álgebra e a intuição. O meio-campo do Atlético sabia que era sua equação: roubar, movimentar rapidamente e buscar as correrias de Diego Costa. A equação só tinha uma incógnita: se a pontaria afiada do brasileiro encontrava a rede ou só a procurava. O Athletic, que havia nascido com músculos poderosos e grandes, ia pouco a pouco transformando-se em uma miniatura, raivosa, mas miniatura, como se o perigo que assumia na defesa fosse minando sua moral. Diego Costa voltou a falhar e logo Laporte lhe fez um pênalti que Teixeira Vitienes não quis ver. A partida se via tão grande que frequentemente fechava os olhos, como quando colocou uma venda para não ver um empurrão de Arda em Toquero na área.

O partido vinha-lhe tão grande a Teixeira Vitienes que com frequência se tampou os olhos

Pela metade, o Atlético havia feito seu trabalho. Uma das múltiplas arrancadas partindo do centro do campo encontros os cabos perfeitos para chegar à pequena área: toque para o meio para que Koke abrisse o jogo pela lateral, a domina Filipe Luis, desprotegido, e finalização de cabeça de Koke no primeiro pau. A equação estava resolvida e a liderança também, ainda que o gato alvirrubro tenha muitas vidas, o que lhe dá um coração enorme especialmente nas adversidades. A última jogada da partida devolveu ao Atlético o pesadelo do início, porque De Marcos, outra vez recruta, mandou às nuvens da Catedral um passo com laço de presente incluído de Aduriz. Ou porque o próprio Aduriz provocou no ar um cruzamento da direita que exigiu o melhor de Courtois.

O desespero alvirrubro se transformou em agonía para os amarelos de Simeone, talvez cansados, talvez precavidos, talvez assustados, talvez superados pela pressão mais que pelo futebol do Athletic. O certo é oque o medo se colocou no corpo e saiu no espírito conservador frente aos objetivos que o esperam.

O de ontem não era menor, menos despertando fora da hora. O Athletic teve a miragem do gol de Muniain. O que tinha que tranquiliza-lo, que junta-lo no campo, teve o efeito contrário, o bagunçou e provocou um estado de ansiedade, o que frente a uma equipe feita da solidez sua particular concepção de beleza, é um convite ao suicídio. É o que fazem as miragens: que não só enganam, também deslumbram. E o Athletic ficou cego quando o Atlético abriu os olhos para manter o mais alto posto da Liga.

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