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Um político de consensos

Com a morte de Suárez desaparece o melhor intérprete do valor do pacto para resolver uma crise de Estado

Adolfo Suárez foi a pessoa adequada no momento oportuno: o estadista ao que as circunstâncias colocaram em situação de moldar um acontecimento tão extraordinário como foi a transformação da ditadura em democracia. Sua morte não só supõe emoção pela lembrança do passado; também, e sobretudo, a oportunidade coletiva de refletir sobre o valor do acordo e da concordância em um país que, em pleno século XXI, precisa tanto como naquele momento. Suárez foi quem mais utilizou o diálogo e o consenso como método para resolver as crises de Estado, e o melhor intérprete de um espírito que coloca em primeiro lugar o interesse geral do país ao invés de cada uma de suas frações.

O que a Espanha mais tem saudades no presente é daquilo que Suárez foi mestre durante seus primeiros anos no poder: a busca de saídas pacíficas a conflitos que parecem não ter solução possível. Todas as pesquisas de opinião recentes mostram um sentimento cidadão que sente falta do estilo político da Transição, anseio que não parou de se acentuar à medida em que o deterioro do conjunto das instituições se fez mais visível. Muitos têm saudades de sua autoridade e credibilidade no meio da conjuntura crítica que a Espanha vive, sacudida por problemas econômicos e confrontos territoriais, quando a irritação e o bloqueio de qualquer diálogo entre partidos se apoderaram dos espaços que na época de Suárez eram ocupados pelo diálogo e a exploração de consensos, por extraordinários que fossem os obstáculos a superar.

Em frente aos que criticam a concordância como sinônimo de troca de favores ou ceder a pressões, a verdade é que do método consensual impulsionado por Suárez surgiu o melhor da Espanha nas últimas décadas: o sistema de proteção das liberdades civis e a normalização democrática. Ainda regiam as chamadas “leis fundamentais” da época de Franco quando Suárez já defendia publicamente que a Constituição e o enquadramento legal de direitos e liberdades públicas deviam ser “a plataforma básica de convivência”, ao mesmo tempo em que pedia “definir as bases de um entendimento duradouro”.

O resultado de um método

Sem dúvida, a Transição constituiu o fruto de muitas vontades, cujos intérpretes principais foram o Rei, como motor da mudança, e Suárez como motorista do processo. Sendo um político que dava seus primeiros passos no partido único da ditadura, Suárez foi quem desmontou as estruturas do franquismo e organizou as primeiras eleições livres; o que convocou os pactos da Moncloa, convertidos na primeira e única iniciativa partilhada por forças políticas, empresariais e sindicais para enfrentar uma crise econômica; e o que soube compreender que não haveria Constituição democrática sem a participação da direita, do centro, da esquerda e dos nacionalismos.

Foi nomeado presidente seis meses após a morte do ditador. O Rei prometia a restauração das liberdades e um sistema político moderno, mas seu primeiro Governo, dirigido por Carlos Arias e do que Suárez fazia parte como ministro, fracassou enquanto a rua pedia mudanças profundas. Dom Juan Carlos decidiu arriscar a Coroa ao encarregar a Suárez a tarefa de facilitar o processo, entregando assim sua confiança a um político de sua geração, desprezado pela gerontocracia dominante. Em dois anos e meio construiu uma democracia assentada sobre o poder das urnas e uma Constituição respaldada pelo povo espanhol. Os obstáculos não foram pequenos. Teve conspirações políticas e militares que pretenderam frear o processo ou trancar a Espanha em uma pseudo-democracia limitada e vigiada. Os protagonistas da mudança também não se assustaram com os ataques terroristas (ETA, GRAPO, ultradireita) que tentaram matar o incipiente projeto democrático.

Em seus primeiros anos contaram com o respaldo firme de Dom Juan Carlos e com a colaboração de Felipe González, Santiago Carrillo e do exilado presidente da Generalitat catalã, Josep Tarradellas, entre outros que creram na sinceridade das intenções do Monarca e de seu chefe de Governo para construir uma democracia —parafraseando o próprio Suárez— com todas as tubulações funcionando, sem vazios nem descontinuidades.

Marca na história

O preço do sucesso, que foi não prestar contas pelo passado, se discutiu a posteriori. No entanto, no final dos anos setenta, não se havia como fazer isso de outro modo sem provocar a desestabilização. E não foi isso o que lhe levou à morte política. Suárez foi submetido a um enorme acosso em seus últimos anos como presidente do Governo, não só por parte da oposição parlamentar, mas também de setores importantes de seu próprio partido, a União Centro-Democrática (UCD) e operações além dos muros do Parlamento. Depois de renunciar à presidência no final de janeiro de 1981, sua ousadia pessoal contra os golpistas do 23-F, embora insuficiente para parar a tentativa de golpe de estado, voltou a demonstrar seu compromisso democrático e a força de sua personalidade.

Tentou se refazer politicamente em outro partido, o Centro Democrático e Social (CDS). Mas era muito melhor motorista da Transição que homem de partido: já não pôde superar a concorrência política ordinária com outros protagonistas, primeiro Felipe González e Manuel Fraga, depois José María Aznar, que ficaram com os eleitores do centro, mas que reconheceram a Suárez —quando já estava desativado como competidor direto— os méritos que lhe correspondiam pela Transição e pela discreta administração de sua influência posterior.

A normalização democrática foi levava adiante, de forma paradoxal, por um de seus grandes artífices. O consenso passou a ser uma lembrança e a tensão se instalou na vida política com a irrupção de Aznar. À medida que a polarização se agudiza, com suas correspondentes cicatrizes e indesejadas consequências sobre a vida política espanhola, o apreço à sua figura cresceu como mostra de reconhecimento de um tempo e um estilo políticos menos rudes. Fica a impressão de uma tarefa construtiva, capaz de evitar confrontos civis e de reformar a fundo o sistema político de um país. Todo isso lhe faz merecedor do direito de entrar pela porta principal na história da Espanha. Porque sem Suárez nada seria igual.

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