Coluna
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Minha primeira vez

Tentei tornar-me invisível no novo colégio e descobri um enorme salão vazio. Ao me observar sempre por ali, quieto, a mulher de óculos e coque me chamou

Foi assim: meu pai era o segundo mais importante pipoqueiro de Cataguases, já que nosso carrinho verde ficava estacionado na praça da igreja-matriz de Santa Rita de Cássia (hoje santuário), e o do nosso concorrente, seu Sebastião Lopes, mais bem sucedido, na praça Rui Barbosa, que monopolizava os dois únicos cinemas da cidade, Cine-Teatro Edgard e Cine Machado. Eu auxiliava meu pai nos sábados e domingos, quando aumentava o movimento, e tomava conta do negócio sozinho nas tardes do resto da semana.

Um domingo, na saída da missa das sete horas, um homem aproximou-se e, após comprar um pacote de pipoca, perguntou se eu estudava e onde. Antecipando-se, meu pai respondeu que sim e declinou o nome de um lugar com fama de ensino ruim. Surpreso, o homem indagou por que não me matriculava no excelente Colégio Cataguases, entidade pública que congregava a elite local. Meu pai explicou que todos os anos tentava, mas nunca havia conseguido. Talvez condoído pelo aspecto humildemente decepcionado de meu pai, o homem, apresentando-se como diretor da escola, prometeu, para o ano seguinte, que arranjaria uma vaga para mim.

Em fevereiro de 1973, lá estava eu, dentro de um uniforme novo, arrastando meu desconforto pelos longos corredores do Colégio Cataguases. Até então, cursara a quinta e sexta séries no Ginásio Comercial Antônio Amaro, ligado à Campanha Nacional de Escolas da Comunidade, que alugava o horário noturno de prédios de instituições públicas com o propósito de oferecer educação a baixo custo. Pela manhã, montado em minha bicicleta, carregava, para cima e para baixo, as trouxas de roupa que minha mãe lavava e passava. À tarde, entediava-me no carrinho de pipoca, a observar um bicho-preguiça desescalando os galhos das sibipurunas que ornamentam a praça. À noite, sentado em duros bancos, tentava assimilar coisa que prestasse ao meu corpo cansado.

No Colégio Cataguases, onde as aulas ocorriam pela manhã, fui designado para uma classe de repetentes, a maioria por indisciplina, e enfrentei a franca hostilidade dos colegas, que lembravam-me a todo momento minha origem pobre, filho de lavadeira e pipoqueiro. Assim, decorridas apenas duas semanas, tornou-se claro que não me adaptaria àquele ambiente. Ao mesmo tempo, não podia frustrar as expectativas de meus pais, que acreditavam que o simples ingresso ao mundo de pessoas melhor situadas financeiramente me garantiria um futuro melhor.

Tentei tornar-me invisível, deslizando acuado rente às paredes da escola, até descobrir, sem querer, um enorme salão vazio, silencioso e pouco iluminado, que passei a freqüentar. Ao me observar sempre por ali, quieto, sem nada fazer, a mulher de óculos e coque que permanecia sozinha atrás de um longo balcão, rodeada de livros, pensou talvez que eu quisesse fazer um empréstimo, mas que, por algum motivo, timidez talvez, não tivesse coragem de me dirigir a ela. Então, tomando a iniciativa, me chamou, colheu alguns dados, preencheu uma ficha, colocou um livro em minha mão e disse: Leve, leia e devolva daqui a cinco dias... Em pânico, não contestei. Enrubescido, peguei a brochura, coloquei na pasta e deixei rapidamente a biblioteca.

Ao chegar, meu pai questionou, como fazia sempre que aparecíamos com algo diferente em casa, O que é isso, menino? Respondi, sem graça: Um livro. Ele: Onde você pegou isso?! Eu: Peguei não, a moça lá do colégio que deu... Ele: Como assim?! Eu: Ela falou pra eu ler e devolver. Ele: Se ela falou pra ler e devolver, leia e devolva, que não quero nada dos outros aqui não! Dois dias depois, aliviado, depositei o volume sobre o balcão e já me afastava, ligeiro, quando a bibliotecária, desconfiada, indagou: Você leu o livro, menino? Eu: Sim, senhora. Ela, feliz: Que bom! E, virando-se para a estante, tomou outro título e disse: Tome este, leia e devolva em cinco dias. Contrariado, mas obediente, peguei a brochura, coloquei na pasta e deixei rapidamente a biblioteca.

Ao chegar em casa, meu pai questionou: O que é isso, menino, não entregou o livro pra mulher, não? Respondi que sim, esclarecendo, aborrecido, que aquele era outro... Ele, impaciente, falou: Então leia e devolva logo! Dois dias depois, aliviado, depositei o volume sobre o balcão, crente que me livrava de um tormento, quando a mulher, óculos e coque, indagou: Você leu este também, menino? Eu: Sim, senhora. Ela, exultante: Que ótimo! E, virando-se para a estante, tomou outro título e disse: Tome, leia e devolva em cinco dias. Contrariado, mas obediente, peguei a brochura, coloquei na pasta e deixei rapidamente a biblioteca.

Enfim, a bibliotecária transformou minha vida num inferno... Eu lia os livros que ela me impingia, devolvia e, cada vez mais feliz com minha voracidade, me repassava outros volumes... No fim do ano, inadaptado, deixei o Colégio Cataguases e voltei a estudar no Ginásio Antônio Amaro, à noite, retomando minha vida. Mas o vírus da leitura já havia me contaminado...

Luiz Ruffato é escritor

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