Tribuna
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A impunidade matou Gregorio Jiménez

Os delinquentes não tinham motivos para pensar que, no Estado mexicano de Veracruz, assassinar esse repórter local poderia ter consequências

O governo mexicano tem uma Promotoria de Justiça para crimes contra a liberdade de expressão e um mecanismo de proteção de jornalistas. O governo do Estado de Veracruz, por sua vez, tem uma Comissão Estatal de Atenção e Proteção a Jornalistas. Os três escritórios são parte de uma estrutura legal para, supostamente, garantir o exercício de uma imprensa livre de intimidação.

Nenhuma das três instâncias pode prevenir que Gregorio Jiménez de la Cruz, repórter policiald de Notisur e de Liberal del Sur, fosse sequestrado no dia 5 de fevereiro em Coatzacoalcos. Tampouco puderam encontrar seus sequestradores e submetê-los a pressão suficiente para obrigá-los a libertar o jornalista com vida. De fato, aconteceu o contrário: os sequestradores assassinaram Jiménez e jogaram seu corpo numa fossa, onde apareceu no dia 11 de fevereiro.

Depois do trágico desenlace de um caso que abalou os jornalistas mexicanos e chamou a atenção como poucos, fica claro que nada poderia ter salvo Gregorio da morte. Seus sequestro e assassinato foram estimulados pela impunidade que prevaleceu nos nove casos de jornalistas assassinados e três casos de desaparecidos em Veracruz desde 2010, durante a administração do governador Javier Duarte, sem contar os cinco assassinados durante o governo de Fidel Herrera.

A morte de Gregorio Jiménez obriga a olhar com lupa as leis e instâncias governamentais criadas nos últimos anos para a proteção de jornalistas e fazer uma análise sobre a sua efetividade.

O mecanismo de proteção a jornalistas pode ajudar Jiménez? E a Promotoria especializada da Procuradoria Geral da República (PGR, Promotoria)? O jornalista assassinado beneficiou-se da recente federalização dos delitos contra a liberdade de imprensa, tida em tão alto conceito pelos legisladores e funcionários públicos? Serviu para alguma coisa a Comissão Estatal de Atenção e Proteção a Jornalistas de Veracruz, criada por Duarte? Se dermos uma repassada nos fatos, sob a premissa de que em qualquer sequestro as primeiras horas são as mais valiosas para entender a situação e recolher pistas, veremos que Jiménez não tinha muitas probabilidades de sair com vida.

No dia 5 de fevereiro, seu desaparecimento foi informado. Segundo o governo de Veracruz, desde o início foi mobilizado um grupo operacional de buscas que incluiu soldados, marinheiros e policiais federais e estatais, num total de mil pessoas. Mas o problema não é quantos o estavam procurando. Não fica claro se levavam em conta pistas trazidas pelos colegas de Jiménez sobre as notícias que ele havia publicado nas semanas anteriores, ou se prestaram atenção à suspeita que apontava a dona de um bar, afinal presa como suspeita de ser a autora intelectual do crime. Tampouco está claro se Jiménez ou os meios de comunicação nos quais trabalhava haviam alertado as autoridades sobre ameaças recebidas.

Parte do problema reside em que as ferramentas legais de que os jornalistas dispõem para buscar proteção estão condicionadas a terem recebido ameaças prévias, mas muitas das agressões (senão a maioria) ocorrem sem aviso prévio.

Por isso, recorrer ao Mecanismo de Proteção a Jornalistas, lançado pelo governo mexicano em 2012, resultava inútil depois do sequestro. Ao mesmo tempo, a Comissão Estatal de Atenção e Proteção a Jornalistas gastou saliva e tinta exigindo que se encontrasse o jornalista, mas foi incapaz de fazer qualquer outra coisa, pois sua missão é dar proteção a jornalistas que a solicitem e, a essas alturas, Jiménez não tinha possibilidade de solicitar nada.

E enquanto transcorriam as primeiras, valiosíssimas, horas do sequestro, a PGR, onde a denúncia foi apresentada, ainda estava “avaliando” se se tratava ou não de um ataque à liberdade de expressão que justificasse federalizar o crime. De fato, parece que ainda estão “avaliando”.

A novidade no sequestro de Jiménez foi o grupo operacional de busca ativado, que contrastava com a apatia mostrada pelas autoridades em todos os casos anteriores. Mas a mobilização de centenas de militares e policiais, provocada em boa medida pelo grito de alarme dado por jornalistas e organizações não governamentais, não serviu para pressionar os sequestradores, para adverti-los que o sequestro do jornalista era inaceitável, para ameaçá-los com um castigo iminente pelo crime e, finalmente, para dissuadi-los de assassinar Jiménez.

Os sequestradores e assassinos de Jiménez confiaram que sairiam impunes, pois esse havia sido o resultado dos crimes anteriores contra jornalistas. A regra em Veracruz, assim como em grande parte do país, é que as agressões contra a imprensa não sejam castigadas. Os delinquentes não tinham motivos para pensar de outra forma, muito menos para se preocupar.

Nos últimos anos, vi de perto dois casos de sequestro para intimidar os meios de comunicação na Comarca Lagunera. Ambos foram resolvidos de forma satisfatória, mas apenas graças à pressão exercita por autoridades que responderam imediatamente aos pedidos de ajuda.

O primeiro caso, em julho de 2010, envolveu repórteres de Televisa e Milenio que cobriam a rebelião dos presos relacionados com o Cartel do Pacífico, na prisão de Gómez Palacio, em Durango. Um repórter e um cinegrafista foram sequestrados para obrigar os meios de comunicação a transmitir vídeos de propaganda do cartel. Televisa e Milenio se negaram a veicular esse material em suas redes nacionais pois, mesmo sabendo que desafiar a ameaça punha em risco a vida desses repórteres, avaliaram que seguir as instruções de criminosos abria espaço para um cenário aterrador para a imprensa mexicana. Para reduzir o risco, pressionaram o governo federal a resgatar os três sequestrados, o que finalmente ocorreu.

Naquela época, eu dirigia a redação do El Siglo de Torreón e, embora o jornal tenha escapado de ser incluído no sequestro, vivemos a pressão de sentir que a qualquer momento um de nós poderia engrossar o grupo de sequestrados.

Lembrar dessa experiência foi muito útil no ano passado quando El Siglo de Torreón enfrentou o sequestro de cinco trabalhadores. Ainda me lembro dessa noite de fevereiro, com o telefone colado à orelha falando com chefes militares, policiais e funcionários federais e de Coahuila que se somavam nas pressões para que as vítimas fossem libertadas, o que ocorreu em algumas horas. Nos dias subsequentes, mais de 40 pessoas foram detidas por sua participação no sequestro ou por vínculos com o grupo criminoso que o perpetuou. A resposta serviu, sem dúvida, para que os meios de comunicação em La Laguna estejam há um ano livres de ameaças e agressões do crime organizado.

Os nove homicídios, três desaparecimentos e dezenas de agressões contra jornalistas em Veracruz nos últimos três anos nunca tiveram uma resposta semelhante. Isso permitiu o sequestro e assassinado de Gregorio Jiménez. Não há Mecanismo de Proteção ou Promotoria Federal Especializada que houvesse podido salvá-lo. Tampouco uma comissão de nível estatal teria podido fazer qualquer coisa, pois o organismo que a imprensa simpática ao governador Duarte qualifica como “inovador” e “contundente”, na verdade, se traduz como exatamente o contrário: lança-se mão do velho recurso de criar uma comissão para que pareça que alguma coisa está sendo feita.

O caso de Gregorio Jiménez deve ser analisado sob os critérios de todas as ferramentas governamentais para a proteção de jornalistas para se fazer uma avaliação honesta de se, de fato, teriam funcionado. Minha suspeita, resultado de ter vivido de perto agressões contra jornalistas, é que não. Apenas a ausência de impunidade teria prevenido o crime.

Esperemos que a prisão de seis pessoas acusadas desse crime sirva para dissuador aqueles que no futuro pensem que tudo se resolve matando o mensageiro.

Javier Garza Ramos, jornalista, é ex-diretor do El Siglo de Torreón.

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