“Estamos no mundo de Usain Bolt”

O venezuelano Maickel Melamed, consultor de desenvolvimento e talento humano, analisa a subjetividade do evento tecnológico

Ao entrar no Campus Party, no Anhembi em São Paulo, um participante do evento comentava com uma companheira: "Muitos nomes que estão aqui você nem conhece, mas quando escuta eles, descobre que já participaram da sua vida de alguma forma ou que suas reflexões são capazes de explicar as coisas que nem você consegue dar nome". Esta síntese se aplica ao venezuelano Maickel Melamed, um consultor de desenvolvimento e talento humano que dá palestras e consultorias sobre potencializar capacidades através de ideias muito simples, que pouco alteram a rotina das pessoas. Quando nasceu, Melamed foi diagnosticado com "atraso motor", e lhe disseram que jamais poderia andar. Melamed, de 39 anos, é corredor e foi o conferencista de quarta-feira no Campus Party.

Pergunta: O que é o Campus Party, para o senhor?

Resposta: É o mundo dos jovens, dos donos do mundo com menos de 30 anos. Aqueles que assumem novas linguagens de conhecimento e sabem como aplicá-las. Estão mais preocupados com a sustentabilidade, em tornar algo mais humano, mais ecológico.

P. Qual é a maior potencialidade desses jovens? O conhecimento? O acesso a ele?

R. Acho que se trata de um tema cultural e o Brasil tem potencial para levar a vanguarda deste setor. Os jovens são capazes de provar algo, construir, sempre com uma atitude empreendedora. A interação, agora todos sabemos que isso é assim porque é evidente, efetivo e cotidiano. O vínculo humano é algo natural.

P. Então é a interação?

R. Eu sou um produto de todas as pessoas que cruzaram meu caminho, que me ajudaram a me construir. Eu vim aqui buscar pistas, não tenho respostas. E compartilhar algo também. Se o wifi já é real, por que não passamos esta tecnologia a outros campos? Já existe esta conexão invisível, que não se trata daquilo que não vemos, mas daquilo tão pequeno que não se enxerga. São interações infinitas que mudam o rumo das coisas. É importante dizer isso para estes jovens que estão buscando seus sonhos, que às vezes não se dão conta daquilo que não estão fazendo.

P. E o que seria?

R. Eles estão vivendo um momento importante de busca pela identidade, querem se diferenciar, para somar, acrescentar. Mas também dar shares e likes é fundamental, porque tanto compartilhamos quanto recebemos. Então vamos deixar que eles nos ensinem, que eles nos mostrem o caminho.

P. O que eles sabem, de momento?

R. Eles sabem que quanto mais autênticos e honestos, mais seguidores eles vão ter. Não se trata mais de quantidade, mas de qualidade. As pessoas intuem, são fenômenos comunicacionais. Estamos procurando a sustentabilidade e aqui buscamos harmonizar a vida real-virtual. É um exemplo de que você está legitimando a você mesmo.

P. Uma das principais barreiras dessa vida real-virtual é o tempo. Você acha que a geração de hoje lida melhor com isso?

R. Tudo implica no tempo. Vou te contar uma história. Organizamos uma maratona uma vez que não deu certo. Mas insistimos no ano seguinte e ela saiu. Foi no mesmo ano em que o streaming surgiu. Quer dizer, tivemos 2 bilhões de pessoas conectadas para ver o final da corrida, algo que não teria acontecido se tivéssemos feito na primeira tentativa. E isso é tempo. Estamos no mundo de Usain Bolt. Eu não sei você, mas eu não consigo fazer nada em menos de 10 segundos.

Então o tema do tempo pode frustrar porque eles são impacientes. Mas não entendem que se não espera, não acontece. É um tema para reflexão. Eles estão lutando para que ninguém leve a ideia deles ao mercado antes do tempo. O que precisamos harmonizar é a eficiência em relação ao ritmo de cada um.

P. Como isso é possível, se vivemos neste tempo das pressas, conseguir encontrar este equilíbrio?

R. A velocidade é cada vez mais intensa porque o mundo é assim. Mas cada um deve encontrar seu ritmo. Sempre estamos falando de crise e não pensamos que pode ser uma oportunidade. O humano está no foto e este continente tem muito a contribuir. Às vezes estamos conversando dessas ideias e de repente eles têm um clic e vão correndo para suas mesas. É a imediatez. Desenvolver algo rápido e compartilhar. E fazer isso a todo instante. Na CP você vem procurando algo, mais deixa algo também, talvez seja o princípio desse equilíbrio individual.