Argentina alivia as restrições à compra de dólares depois da queda do peso

O Governo dá uma guinada na política monetária em vigor desde o final de 2011

Um luminoso com a mudança do peso, nesta quinta-feira em Buenos Aires.
Um luminoso com a mudança do peso, nesta quinta-feira em Buenos Aires.LEO LA VALLE (AFP/Getty Images)

A partir da segunda-feira, os cidadãos argentinos poderão comprar dólares no mercado oficial, algo que havia se tornado quase impossível desde o final de 2011, devido às restrições que impunha o Governo. A medida foi anunciada nas primeiras horas da manhã da quarta-feira pelo Chefe de Gabinete, Jorge Capitanich, em presença do ministro de Economia, Axel Kicillof, um dia após o peso experimentar sua maior depreciação nos últimos 12 anos e o câmbio fechar a 7,75 pesos por dólar no mercado oficial onde operam os bancos, e de 13 pesos no mercado negro. De surpresa, o Governo decidiu reduzir também de 35% para 20% o imposto pago para adquirir divisas com fins turísticos ou nas compra no exterior com cartão de crédito.

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Jorge Capitanich costuma oferecer toda manhã, às oito, uma coletiva de imprensa na qual admite perguntas. Mas desta vez, quando anunciou a medida mais importante desde que assumiu o cargo, limitou-se a emitir um anúncio que durou um minuto e meio: “viemos aqui para comunicar que decidimos autorizar a compra de dólares para pessoas físicas, de acordo  com o fluxo de rendimentos declarados. E, paralelamente, decidiu-se diminuir o imposto aos ganhos de 35% para 20% para o comprador. Esta decisão obedece o enquadramento da política cambial de flutuação administrada do tipo de câmbio. O Governo considera que o preço da divisa, isto é, do dólar, alcançou um nível de convergência aceitável para os objetivos da política econômica. Estas medidas se instrumentarão a partir de segunda-feira através dos organismos pertinentes. Muito obrigado”.

Diante das numerosas dúvidas levantadas pelos jornalistas, Axel Kicillof tomou o microfone quando já se começava a descer do palco (onde acontecia a entrevista) e disse: “Olhem: os mesmos que nos disseram durante dez anos —se referia à década dos noventa, quando governou o peronista Carlos Menem— que o dólar valia um peso são os que hoje querem nos convencer de que vale 13. Desse modo, tirem suas próprias conclusões”.

Kicillof se referia ao preço que o câmbio atingiu no dia anterior no mercado negro ou dólar blue, que é ao qual tem acesso os pequenos poupadores para conseguir divisas. O Governo transmitiu, em várias ocasiões, a mensagem de que as convulsões do mercado cambial obedecem aos interesses especulativos de um reduzido grupo de capitalistas.

O Governo pretendia aumentar o fluxo de dólares disponíveis do Banco Central e promover o uso do peso frente à divisa norte-americana. Mas, até o momento, todo o batalhão de medidas implantadas em dois anos não geraram os resultados esperados. O dólar oficial vendia-se em outubro de 2011 – quando as medidas restritivas tiveram início - a 4,24 pesos enquanto no mercado paralelo oferecia-se a 4,49 pesos. Nesta quinta-feira, um dia antes de o Governo anunciar a volta atrás em sua política cambial, o dólar oficial chegou aos 8,40 pesos e fechou a 7,75, após o Banco Central colocar em circulação 100 milhões de dólares provenientes de suas reservas para evitar um maior colapso do peso. Enquanto isso, no mercado negro o dólar blue ou negro pagou-se a 13,10 pesos, o triplo do que custava em outubro de 2011.

E as reservas do Banco Central, que em outubro de 2011 se situavam em 47.821 milhões de dólares, desceram na quinta-feira até os 29.263 milhões, uma cifra que não se registrava há sete anos. Boa parte desses 18.558 milhões evaporados desde 2011 foram utilizados para pagar dívidas, algo do que se orgulha o Governo. Mas, outra parte teve que ser utilizada para colocar dólares no mercado para que não o dólar no mercado negro não disparasse. A primeira coisa que fizeram na quinta-feira milhares de cidadãos, quando viram que o dólar negro alcançava 13 pesos, foi ir às grutas, ou escritórios ilegais, antes que a moeda continuasse subindo.

Em 2012, Cristina Fernández tentou convencer os cidadãos de que era bem mais rentável poupar em pesos que em dólares. Animou-os a pesificar suas poupanças. Para dar exemplo, em julho de 2012 converteu em pesos três milhões de dólares que tinha em depósito a prazo fixo e incitou o senador oficialista Aníbal Fernández a que pesificara também suas poupanças em dólares. Mas a maioria dos argentinos continuaram confiando na divisa norte-americana.

As consequências da nova medida estão por ser vistas. Mas a maioria dos economistas críticos assinalam que não se conseguirá direcionar o leme enquanto não haja um reconhecimento claro da inflação e uma política para combatê-la. Em resumo: o Governo ainda não tomou as rédeas da situação.

Ibex

O índice Ibex 35 está sofrendo nesta sexta-feira seu quinto dia consecutivo de quedas e, além disso, com maior intensidade que nas jornadas precedentes pelo colapso das divisas dos emergentes, especialmente do peso argentino. A volatilidade que tem tomado o mercado cambial nas últimas horas levou o índice espanhol a ceder mais de 3,3%, com o qual disse adeus aos 10.000 pontos, embora a partir desse momento tenha moderado a queda. O motivo que disparou as vendas é o impacto que tem a depreciação destas moedas nas empresas cotadas na bolsa de Madri com negócios na América Latina, que são praticamente todas as grandes companhias do país. No resto da Europa também as quedas foram predominantes, embora de menor intensidade que em Espanha.

"Hoje as bolsas foram afetadas por 3 razões: agravamento na Argentina, noite asiática baixista —pela publicação de mais maus dados da China— e realização de lucros depois do prolongado rally anterior. Frente a isso, não há referências que possam impulsionar o mercado", resumiram os analistas de Bankinter.

As divisas dos mercados emergentes tiveram forte queda durante a noite da quinta-feira, com o peso argentino sofrendo sua maior perda de valor em um diao desde a devastadora crise financeira do país em 2002. O motivo disso foi o aviso que fez o banco central argentino advertindo de que não atuaria contra a queda da moeda. Isto provocou que as companhias espanholas com uma exposição relevante na Argentina como BBVA, Telefônica, Endesa, Gás Natural ou Dia, entre outras, sofra grandes quedas pelo impacto negativo que terá a perda de valor da divisa no negócio que têm no país.

No caso do banco que preside Francisco González, o castigo veio também por outro frente: Turquia, onde o BBVA controla o 25% do Garanti e cuja moeda, a lira turca, também perdeu posições frente às divisas de referência. De fato, foi a segunda moeda que mais caiu depois do peso, o que não é uma boa notícia para o grupo espanhol, que obtém o 15% do total de sua margem de interesses da região.

A este respeito, o peso e a lira não foram as únicas danificadas pelo incremento da tensão no mercado cambial. Assim, outras moedas emergentes como o dólar australiano bateram as mínimas. Neste caso, o câmbio mais baixo frente ao norte-americano em três anos e meio. E isso porque o dólar também sofreu impacto com as dúvidas que surgem em torno da recuperação mundial a raiz da China, que não acaba de dar boas notícias —nesta quinta-feira foram as manufaturas. Neste palco de nervosismo, as “verdinhas” tiveram também fortes perdas lastreadas por ser a moeda do comércio. Assim, registrou sua maior queda diária dos últimos quatro meses em comparação a uma cesta de divisas de referência. Em frente a esta evolução, o iene, o franco suíço e o euro, que tem se aproximado dos 1,37 dólares, viram-se beneficiadas por sua condição de “porto seguro” e se mantiveram fortes.

Considerando que Espanha está no euro e sua dívida se fixa na divisa europeia, os bônus do Estado espanhol não se livraram da contaminação das divisas no mercado soberano de renda fixa. Por conta da maior cautela dos investidores, as vendas sobre os títulos do Tesouro aumentaram o diferencial do bônus a 10 anos com seu equivalente alemão até os 210 pontos básicos,  seis mais que o fechamento a véspera e seu maior nível desde o 2 de janeiro.

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