Luciano Coutinho / Presidente do BNDES

“O Brasil pode crescer 3% este ano com o fim das incertezas no mercado”

Luciano Coutinho preside o BNDES, uma das maiores entidades de desenvolvimento do mundo

Luciano Coutinho, presidente do Banco de Desenvolvimento do Brasil
Luciano Coutinho, presidente do Banco de Desenvolvimento do BrasilÁLVARO GARCÍA

Luciano Galvão Coutinho (Pernambuco, 1948) é considerado um dos brasileiros mais influentes em seu país e pertence ao grupo dos executivos financeiros de maior peso na América Latina. Desde 2007, ele preside o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), uma das maiores entidades de desenvolvimento do mundo, com um ativo de 760,7 bilhões de reais. O BNDES é a principal entidade que investe em longo prazo no Brasil, com investimentos para mais de 20 anos em infraestrutura (aeroportos, portos, rodovias e ferrovias) e nos estádios de futebol da Copa. Os bancos privados mal participam desse negócio, porque a instabilidade da inflação e das taxas de juros (não existe mercado de títulos de longo prazo) tornam esses investimentos muito arriscados.

Do alto do BNDES, Coutinho tem uma visão privilegiada da economia brasileira e da América Latina. Esse economista mantém há dez anos uma relação estável com a Espanha. Aproveitou sua viagem ao Fórum de Davos para fazer uma escala em Madri, onde deu uma conferência na Casa das Américas sobre as oportunidades de investimento no Brasil. “Há amigos e clientes que eu queria visitar, e no ano passado não pude vir”, conta.

Pergunta. Como o senhor vê a economia espanhola?

Resposta. Acho que está saindo muito devagarinho de uma crise muito séria, a pior em 60 anos. Não pôde desvalorizar sua moeda, e por isso está saindo com sangue, suor e lágrimas.

P. Na Europa se diz com frequência que o Brasil corre o risco de sofrer a explosão de uma bolha após anos de crescimento...

R. O PIB de 2012 foi de 1%, e o de 2013 ainda não se sabe, mas creio que estará próximo de 2,5%. É preciso levar em conta que 2012 foi um ano de baixo crescimento porque a Europa esteve à beira do desastre total com a ruptura do euro, e isso afetou o Brasil. Também houve uma quebra de safra agrícola por causa das mudanças climáticas, e a economia cresceu pouco. O desafio é controlar a taxa de câmbio do real e a inflação. No fim de 2014 a situação será muito melhor: o real pode cair a até 2,45 frente ao dólar (há um ano estava a 2), e, se o Governo atingir o objetivo, a inflação não deverá subir. Deveria estar entre 4,5% e 6%. Agora está em 5,9%.

P. O BNDES e o Governo continuarão realizando grandes investimentos?

R. Foram feitos leilões de grandes infraestruturas de logística: cinco estradas; dois aeroportos, usinas de energias renováveis, etc.

P. Até que ponto o BNDES aumentará os empréstimos?

R. Não queremos crescer, mas moderar nossa expansão e que o mercado financeiro privado participe desses projetos. O sistema financeiro privado teve uma forte expansão de 2006 a 2010 e sofreu uma alta inadimplência. Como reação, as entidades financeiras contraíram o crédito, mas isso está superado. Os bancos privados vão expandir e dividir o financiamento com o BNDES.

P. Qual parcela deveriam ter os bancos públicos e os privados?

R. Nos últimos anos, o BNDES junto com a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil, que também são públicos, concederam 53% dos créditos, mas essa quota deve voltar a ser de 45%, como nos anos de normalidade. O crescimento do setor privado vai se reativar de forma gradual.

P. O setor não poderia enfrentar inadimplência, caso se expanda agora e a economia se contraia?

R. O fato é que a taxa de inadimplência é baixa e se mantém sob controle nos bancos públicos. Por exemplo, a do BNDES é a mais baixa, e a do resto das instituições públicas também é baixa.

P. Com o sistema atual, os bancos privados ficam com o negócio do crédito para consumo e as famílias, onde há mais risco, o que é perigoso...

R. Eu não acho, os bancos privados se dedicam às médias e grandes empresas, mas não às micro e pequenas, que dependem de financiamento público, com algumas exceções.

P. Quando será solucionada a deficiência da economia brasileira, que carece de financiamento e de títulos de longo prazo?

R. Em até cinco anos espero que o mercado se financie por si mesmo para esse tipo de investimentos e que não sobrecarregue nossos bancos. Depois do ajuste da expansão do dólar e com baixas taxas de juros, será possível que os bancos privados e os mercados compartilhem o financiamento das grandes hidrelétricas, das novas ferrovias, que tem prazo de 25 anos.

P. Qual parcela o BNDES deveria ter em um mercado normalizado?

R. Em 2011 representávamos 35% do financiamento e em 2015 deveríamos baixar essa quota para 23%. Paralelamente, o mercado privado deveria crescer até 25%.

P. Quais setores terão mais sucesso em 2014?

R. Será chave o sucesso das concessões de infraestrutura: aeroportos, portos, ferrovias, o que provocará um crescimento forte em logística. Também o setor de energia crescerá muito. Além disso, toda a indústria relacionada aos equipamentos necessários para o fornecimento de petróleo e gás. E não podemos esquecer do setor agrícola em sua vertente exportadora para a Ásia. Por fim, acho que os fornecedores para o mercado interno de consumo no Brasil, os produtores de manufaturas e automóveis também crescerão em 2014.

P. Como se comportará a economia brasileira este ano?

R. Eu sou otimista nessa questão. O consenso do mercado indica que podemos fechar o ano com um aumento do PIB de 2%. Entretanto, acho que o aumento do investimento em infraestruturas será um elemento dinamizador e que as expectativas serão superadas.

P. Então, até onde se atreveria a dizer que poderá chegar o PIB?

R. Acho que poderemos chegar a 2,5% ou até 3% de crescimento, porque já não há tantas incertezas nos mercados, nem no europeu nem no dos EUA. E isso apesar de ser um ano eleitoral, o que alguns consideram que seja um fator que influi negativamente no crescimento. Também não está previsto que se repitam problemas climatológicos, como os que ocorreram no Brasil em outros exercícios.

P. Esse crescimento pode ser conseguido com a inflação controlada?

R. Sim, a inflação estará sempre na faixa entre 4,5% e 6%, mas acho que mais na parte baixa da meta.

P. O BNDES financiou boa parte das infraestruturas da Copa do Mundo que começa em junho. Como vão as obras? Os estádios estarão prontos?

R. Sim, já estão praticamente acabados.

P. Entretanto, houve polêmicas por problemas no acabamento, estádios com goteiras, guindastes que caíram causando grandes estragos...

R. Houve um acidente na construção que já está bastante solucionado. Foi lamentável, mas são circunstâncias normais quando se realizam essas obras tão importantes. Mas os estádios estão novos e praticamente prontos.

P. O senhor acredita que serão recuperados os investimentos milionários que sua instituição realizou neles?

R. O Brasil é um país onde a indústria do futebol é muito importante, e eu vejo que, além disso, os estádios estão cercados de equipamentos de mobilidade urbana, de acessos, bares, hotéis, que são um legado para o futuro.

P. Acredita, então,que depois da competição continuarão tendo um aproveitamento social?

R. Sim, claro. Alguns desses estádios serão reduzidos. Foram feitos maiores para cumprir as normas da Fifa, mas depois vão ser reduzidos para se tornarem mais funcionais, para que possam abrigar campeonatos locais, nacionais, etc. Todas as cidades têm estádios no Brasil, mas boa parte deles é velha e precária, de baixa qualidade.

P. Um dos empreendimentos sobre os quais mais se falou, pelo grande investimento que exigiu e a duvidosa rentabilidade futura, é o estádio de Manaus, que absorveu 360 milhões de reais. Também nesse caso o senhor acha que o investimento será rentável?

R. Bom, esse é um dos casos em que não se trata apenas de um estádio de futebol, mas de um espaço multiuso, que também serve para outros esportes, espetáculos, bares e outras atividades. Os maiores vão continuar destinados ao futebol, mas têm administração privada e estão desenhados com uma concepção muito diferente daquela com que foram criados os antigos campos de futebol.

P. Se a presidenta Dilma ganhar novamente as próximas eleições e lhe pedir para continuar no cargo, o senhor aceitaria?

R. Bom [ele faz uma pausa para pensar]... Essa é uma pergunta que eu não vou responder. O meu cargo é de confiança da presidenta, e eu terei que devolver essa confiança colocando meu cargo à disposição dela. Não posso falar em hipóteses.

P. Qual a sua opinião sobre a atividade do Banco Santander no Brasil, já que se trata de um dos principais operadores do seu sistema financeiro?

R. É um banco importante, sei que o Santander global precisou passar por um período de reestruturação e recapitalização, e que o fez de maneira exitosa. O investimento no Brasil foi bastante rentável para o grupo. Mantém uma colaboração estreita como agente das linhas do BNDES, e temos um diálogo muito frutífero e frequente com a direção do Santander Brasil. A percepção é boa sobre a sua contribuição ao Brasil. Espero que o Santander seja um dos bancos que nos ajudem a realizar grandes investimentos no Brasil.

P. Por que há tão poucos bancos estrangeiros entre os grandes bancos do Brasil? É, como dizem alguns, um mercado quase fechado à concorrência externa?

R. Não, o sistema financeiro sempre esteve aberto. Alguns aproveitaram as oportunidades e entraram, como o Santander, que chegou com a privatização. Também o HSBC, voltou o Citi... E, nos bancos de investimento, há mais exemplos.

P. Sim, mas não nos bancos comerciais, que é o que interessa às grandes instituições internacionais...

R. Nos bancos comerciais os brasileiros sempre tiveram um papel muito importante: Bradesco, Itaú... Houve consolidação, mas não existe uma política de discriminação, o problema é que é um mercado competitivo, e é difícil entrar, porque já está consolidado.

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