Coluna
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Levantando o tapete da sala de visitas

Basta circular por São Paulo ou pelo Rio para perceber que os negros estão ausentes

A história da presença africana em território brasileiro remonta à primeira metade do século XVI, quando os portugueses introduziram mão-de-obra escrava nas usinas de açúcar do nordeste do país. Em 1850, quase trezentos anos depois, pressionado pela Inglaterra, o tráfico internacional foi proibido, embora continuasse a haver uma intensa comercialização interna de cativos, principalmente do nordeste, de economia decadente, para o sudeste, de nascente cultura cafeeira. Apesar de leis paliativas, como a do Ventre Livre, de 1871, que dava liberdade aos filhos dos escravos nascidos a partir daquela data, e a dos Sexagenários, de 1885, que garantia liberdade aos idosos, somente em 1888 foi promulgada a Lei Áurea, pondo fim ao ignominioso regime. No entanto, a abolição da escravatura, uma decisão tomada muito mais em virtude de razões econômicas que morais, pouco modificou a situação do negro na sociedade.

Nós muito nos orgulhamos da influência africana na cultura brasileira. A música popular, talvez nosso patrimônio mais reconhecível no exterior, conta com nítidas raízes negras, seja no samba ou na bossa nova, mas também em manifestações regionais, como o maracatu, o jongo, o afoxé. No mesmo campo, houve a introdução de novos instrumentos, como o agogô, o atabaque, o berimbau, entre outros. A capoeira, espécie de arte marcial, misto de dança e luta, está hoje presente em inúmeras academias espalhadas pelo mundo. Na culinária, além de comidas consideradas típicas, como o vatapá, o caruru e o acarajé, nos foi legada a feijoada, o mais festejado prato nacional. Afora as ricas contribuições ao vocabulário (palavras lindas como bunda, caçula, bagunça, dengo), à África devemos ainda algumas de nossas expressões religiosas, como o candomblé e a umbanda.

Estima-se que até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e trazidos à força para o Brasil – outros 400 mil morreram durante a travessia do Atlântico. Segundo dados do IBGE, 8% da população é formada por negros – acredita-se mesmo que até 86% dos brasileiros tenham algum grau de ascendência africana. No entanto, esses números – e a imensa contribuição na formação da cultura brasileira – não se traduzem em visibilidade social. Basta circular pelos principais pontos de São Paulo ou do Rio de Janeiro para perceber que os negros estão ausentes das mesas dos restaurantes, dos prédios particulares ou públicos, dos carros novos – ou melhor, sua presença ocorre como um “elemento invisível”, garçons, zeladores, ascensoristas, motoristas... Até recentemente, estavam apartados das universidades, panorama que vem mudando, de forma tímida, por conta das cotas raciais, que reservam vagas para alunos que se autodeclaram negros. Mesmo em lugares como as Forças Armadas, as vagas no oficialato são ocupadas, em sua grande maioria, por brancos. Os negros estão relegados aos trabalhos mais humildes, às escolas de pior qualidade, aos conjuntos habitacionais populares da periferia ou às favelas, nossa nova senzala.

E as estatísticas corroboram essa vergonhosa realidade. Segundo dados do IBGE, referentes a 2010, a taxa de analfabetismo entre a população negra é mais que o dobro da apresentada pela população branca (14% contra 6%). Entre os jovens de 18 a 24 anos, 47% dos estudantes brancos cursam universidade, uma proporção quase três vezes maior do que em relação aos estudantes negros. E a dificuldade de acesso à educação se reflete no mercado de trabalho, onde as pessoas ocupadas, de cor branca, têm, em média, 8,4 anos de estudos e recebem 3,8 salários mínimos mensais, contra 6,2 anos de estudo da população negra e dois salários mínimos mensais. E não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução. Isso é uma demonstração cabal da segregação racial que existe no Brasil. E, enquanto persistir essa chaga, não podemos nos arrogar o título de sociedade democrática.

Luiz Ruffato é escritor