O novo México

O ano de 2013 não foi bom para os mercados emergentes, mas o México aparece como líder da boa América Latina

Durante a maior parte do último decênio, México e Brasil foram um exemplo de contrastes. O Brasil decola era uma manchete típica nas capas de revista do mundo anglo-saxão, com a imagem da estátua do Cristo Redentor, no Rio, literalmente voando. A visão jornalística equivalente para o México era A guerra do lado: por que a violência da droga no México é também um problema norte-americano. Mas nos dois últimos anos os papéis se inverteram. Os gigantescos protestos sociais em São Paulo e a queda do multibilionário Eike Batista prejudicaram a imagem glamourosa do Brasil. Enquanto isso, uma série de projetos do novo e carismático presidente do México, Enrique Peña Nieto, conseguiu convencer muitos estrangeiros de que o México é o novo país do futuro na América Latina.

Não só o tamanho da economia do México – em termos de PIB per capita – voltou a ultrapassar o Brasil, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI); nos últimos cinco anos, quem investiu no mercado acionário mexicano teve quase o triplo de dividendos do que quem colocou seu dinheiro em papéis brasileiros. Estão sendo criados empregos tão rapidamente no novo México – mais de 2 milhões desde 2010 – que o problema da migração ilegal para os Estados Unidos já quase é história.

Nem sempre foi assim. Nos anos oitenta e noventa, o México era tão famoso por suas crises financeiras como por suas guerras do narcotráfico. Mas esse tempo já passou. Embora o crescimento mexicano tenha deixado algo a desejar em 2013, o FMI espera uma rápida recuperação entre 2014 e 2018.

O catalisador da mudança econômica no México foi político. Em 2000, depois de mais de 70 anos de tamanho domínio de poder que Mario Vargas Llosa o chamou “a ditadura perfeita”, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) foi derrotado em eleições livres. Entretanto, duas Administrações do Partido Ação Nacional (PAN) não foram capazes de realizar as mudanças de fundo das quais o país precisava. Após 12 anos na oposição, um PRI renovado surgiu no ano passado: em 2012, o país escolheu como presidente o jovem e carismático Enrique Peña Nieto, ex-governador do Estado do México.

Uma liderança estratégica como o de Peña Nieto está tão ausente em nossas democracias que é difícil compreendê-la quando se chega ao Distrito Federal mexicano. No dia seguinte à sua posse como presidente, Peña Nieto assinou o Pacto pelo México, um acordo que estipulava mudanças essenciais em comum acordo com os partidos de oposição, tanto o PAN como o Partido da Revolução Democrática, o PRD. Foi uma decisão audaz, que evocou os Pactos de la Moncloa, os quais, em 1977, lançaram as bases para que a isolada Espanha franquista se transformasse em uma democracia europeia moderna.

Assim foi que chegaram as mudanças radicais promovidas pela nova Administração de Los Pinos, a residência presidencial. Em fevereiro foi detida a líder do sindicato de professores, Elba Esther Gordillo, por suposta corrupção. A maioria dos mexicanos pensava que Gordillo – conhecida por seu apreço pela haute couture francesa e pelas mansões californianas – era intocável. A reforma educacional promulgada em setembro foi outra vitória do Governo, pois permite a criação de instituições independentes para formar novos professores, em lugar do monopólio que o sindicato detinha. Também introduz novos fatores para avaliar os alunos e recompensar os professores, além de ampliar muito o investimento em infraestrutura educacional.

A nova Administração mexicana também aprovou uma reforma das telecomunicações que parecia impossível, criando mais competição no setor para reduzir os custos para os usuários. Elevar os impostos para os ricos não é uma ideia muito popular entre os empresários mexicanos; entretanto, parece justo que, com a dívida pública em apenas 38% do PIB, o Estado invista mais e melhor em educação e infraestrutura, ao mesmo tempo em que estabelece um sistema tributário mais progressivo. Graças ao Pacto pelo México, os orçamentos para 2014 foram aprovados com facilidade. E, em vez de comprometer a independência do Banco do México – tal como ocorre na Argentina ou Venezuela –, o Governo segue suas recomendações ao pé da letra. No novo México, não se acredita em uma alquimia de baixas taxas de juros que possa substituir a necessidade de realizar reformas autênticas.

O projeto mais importante é a liberalização da indústria energética, atrasada durante muito tempo pelo monopólio da gigante Pemex. É uma grande ironia da história que o mesmo partido que nacionalizou os hidrocarbonetos nos anos trinta apresente agora uma reforma cujo principal objetivo é atrair investimentos e especialistas estrangeiros. Mas esse novo PRI sabe que sem ajuda externa é impossível desenvolver os recursos petrolíferos em alto-mar e em xisto que o país possui. Após décadas de debate, muitos pensavam que essa reforma também seria impossível. E, mesmo assim, o Governo a transformou em lei no último dia 12 de dezembro. A nova tecnologia não chega de um dia para outro, mas, graças ao Tratado de Livre Comércio na América do Norte – as vozes críticas dos anos noventa se calaram há muito tempo –, um gás muito mais barato poderá ser enviado dos Estados Unidos para o México a partir deste ano. Se a indústria mexicana já competia com a China em custos trabalhistas, agora, com energia mais barata, os novos empregos poderão ajudar uma crescente classe média, com a qual o México não estava acostumado.

O Governo observou também como a injusta distribuição de renda e a baixa produtividade são problemas estruturais. Mas o presidente Peña Nieto e sua equipe não se contentaram em apenas atacar os sintomas do subdesenvolvimento. Se os males sociais como a violência e o narcotráfico se devem à falta de oportunidades, as reformas econômicas progressistas e profundas ajudarão a reduzi-los. Quase todos os índices de violência caíram no México no último ano.

O ano de 2013 não foi bom para os mercados emergentes, mas o México aparece como líder da boa América Latina. O último ano é a prova de que é possível aplicar com sucesso mudanças profundas e justas na região, dentro de um programa estratégico e de longo prazo, para fomentar um desenvolvimento que não simule ser amplo e equitativo, mas que realmente seja.

Pierpaolo Barbieri é pesquisador da cátedra Ernest May Fellow, da Escola Kennedy de Governo, da Universidade Harvard.

Niall Ferguson ocupa a cátedra Laurence A. Tisch de História, em Harvard.

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