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Bachelet volta

A presidenta do Chile tem amplo consenso para impulsionar as reformas constitucionais

No que já se converteu em um são costume — e exemplo para alguns países da região—, o Chile celebrou no último domingo impecáveis eleições presidenciais caracterizadas pela ausência de incidentes, transparência total na contagem e um extraordinário fair play entre as duas candidatas a ocupar o palácio da Moeda. Os elogios entre a vencedora Michelle Bachelet, a derrotada Evelyn Matthei e o ainda chefe do Estado Sebastián Piñera, a rapidez na contagem e na aceitação dos resultados e a mensagem unânime de que agora o caminho será trabalhar pelo bem do país, refletem em uma das chaves do sucesso chileno desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990): projeto de Estado e respeito institucional.

A socialista Bachelet, a cabeça de uma ampla coalizão que vai desde os comunistas — pela primeira vez nesta fórmula já provada — ao centro-direita, voltará à presidência do Chile respaldada por 62% dos votos (embora seja importante falar sobre uma abstenção que beirou 60%, facilitada, em boa medida, pela novidade do voto voluntário). Esta filha de militar assassinado pelo regime pinochetista e torturada vestirá a faixa tricolor presidencial que cedeu por mandato constitucional em 2010 quando tinha 83% de popularidade.

A partir de 11 de março de 2014, Bachelet terá a missão de levar a cabo uma importante reforma constitucional. Com Pinochet morto e a alternância política consolidada depois do mandato de Piñera, a presidenta poderá propor modificações a um texto desenhado na ditadura que contém condições que travam as mais altas instituições do Estado: a Presidência, com mandatos de quatro anos não renováveis, e o Congresso, com o chamado sistema binominal, que consagra uma injusta partilha de cadeiras. Além disso, a presidenta anunciou a reforma do sistema fiscal —o sucesso econômico convive com um sistema injusto de partilha de riqueza — e a modificação do sistema educativo, uma das grandes tarefas pendentes do país e motor das mobilizações em massa nas ruas e que marcaram o gerenciamento do presidente que está deixando o mandato.

Com suas dificuldades, o Chile é hoje um modelo de democracia assentada e de sucesso econômico na América Latina. Bachelet quer convertê-lo, também, em um país mais justo. E os chilenos estão com ela.