COPA 2014 | SELEÇÃO ARGENTINA

A Argentina se chama Messi

A equipe de Sabella não tem controle de bola nem uma defesa confiável, mas conta com o melhor grupo de goleadores do planeta

Messi domina a bola durante jogo com a camisa Argentina.
Messi domina a bola durante jogo com a camisa Argentina.

Toda equipe é consequência de um pacto. A Argentina de 1986 foi resultado de um acordo entre Carlos Salvador Bilardo e Diego Maradona, em virtude do qual o caudilhismo e a organização gravitaram ao redor do meia-atacante do Napoli. A Argentina que se encaminha para a Copa do Brasil depois de ter se classificado em primeiro lugar nas eliminatórias sul-americanas começou a se estruturar a partir de um acordo entre Alejandro Sabella, o treinador, e Lionel Messi, o melhor jogador do mundo.

Ordenar uma seleção em torno do futebolista que domina esse jogo com pulso firme desde 2008 parece uma alternativa lógica, mas na Argentina nem sempre foi assim. Nem Alfio Basile, nem Maradona, nem Sergio Batista fizeram tantas concessões como Sabella, o técnico que afinal se resolveu a fornecer um modelo racional que favorecesse a grande estrela. Até o ano passado, Messi foi observado com desconfiança por um amplo setor da torcida argentina. Mais de uma vez o jogador escutou insultos. Acusavam-no de não ter suficiente “argentinidade”, julgamento generalizado contra o qual não cabiam respostas no terreno dialético. A onda mudou de direção nos últimos meses. Talvez o ponto de inflexão tenha sido o amistoso disputado entre Argentina e Brasil em Nova York, em meados de 2012. Na ocasião, a Argentina se impôs ao Brasil por 4 x 3, e Messi marcou três gols. Não há campanha mais convincente do que um hat trick.

O pessimismo que se sucedeu à caótica passagem da Argentina pela Copa de 2010 deu lugar a um crescente entusiasmo. A expectativa aumenta de tal modo que a torcida albiceleste soma cada dia mais crentes. Creem, basicamente, em dar o bote no Brasil, país idealizado por todos, mas sobretudo pelos argentinos. Na imaginação popular rio-platense, o Brasil é o país exoticamente tropical onde se encontra o paraíso perdido e o adversário por excelência. Essa mesma imaginação deu à luz a nova idolatria a Messi. Por obra do pensamento mágico, que é simplificador, a adoração aparenta o novo mito ao velho, com Maradona, que aos 26 anos levantou a Copa do Mundo no México, em 1986. Messi completará 27 anos no Brasil, e os paralelismos estão traçados como uma maldição que pesa cem quilos sobre o capitão da seleção, obrigado por decreto de superstição a repetir a façanha. Pactos à parte, as comparações se prolongam além dos indivíduos. A equipe de 2014 se reflete inexoravelmente na equipe que a memória evoca na hora da prece: a Argentina de 1986.

A ALBICELESTE, EM CIFRAS

COPAS: 15

- Partidas jogadas: 70

- Ganhas: 37

- Perdidas: 20

- Empatadas: 13

- Goles a favor: 123

- Goles contra: 80

TROFÉUS:

- Copas: 1978 e 1986

- Copa América: 1921, 1925, 1927, 1929, 1936, 1941, 1945, 1946, 1947, 1955, 1957, 1959, 1991 e 1993

Assim como Bilardo, Sabella foi fazendo descobertas, algumas mais evidentes que outras. Em novembro de 2011, por exemplo, no jogo das eliminatórias em Barranquilla, contra a Colômbia, o rival mais potente que enfrentou na competição oficial, a Argentina foi salva da derrota por Sergio Agüero. Foi perdendo de 1 x 0 para o intervalo e ganhou de 1 x 2 depois da entrada do jogador do City. Desde então, o Kun se instalou na guarda de ferro de Messi, somando-se a uma escalação que parece se constituir da frente para trás, invertendo os hábitos técnicos mais difundidos. É o inevitável, pois nenhuma nação conta com um leque de jogadores mais variado e determinante.

O descarte definitivo de Tévez, apontado como desafeto de Messi, resume o poderio artilheiro dos argentinos tanto quanto o grau de influência do novo líder, pois o homem do Fuerte Apache foi, até pouco tempo atrás, o mais querido (e mais demagogo) dos jogadores que já vestiram o escudo da AFA. Os eleitos são Higuaín e Agüero. Detrás dos dois atacantes, com plena liberdade, opera o próprio Messi. À esquerda, como volante interior, às vezes como extremo puro, Di María inscreveu seu nome a fogo como o elemento mais versátil do plantel. No eixo do meio-campo se situa Mascherano, que, após a exuberância dos seus anos no Liverpool, se mostra pausado e analítico. Mascherano é o ponto de apoio de toda a estrutura, e com a Argentina desempenha o papel de supervisor geral. Nunca rompe o triângulo com os centrais, pois nenhum central tem suficiente categoria. A partir da estabilidade de Mascherano são geridas todas as manobras, defensivas e ofensivas.

Fernando Gago foi o último imprescindível a surgir nas análises de Sabella. A conclusão foi fácil de extrair, pois nenhum outro volante se entendeu melhor com Messi nos últimos anos. O volante do Boca é, junto com Mascherano e Di María, o terceiro homem da linha média titular. Além de Banega e Biglia, não há muito mais de onde escolher. A Argentina já não conta com a população de meio-campistas de ofício e categoria que teve em outra época. O problema se agrava diante da ausência de zagueiros de verdadeiro peso. Até o momento, nem Garay nem Fede Fernández se pareceram com os referenciais que toda seleção campeã costuma ter na sua linha de contenção.

Se em 1986 a Argentina descobriu em Neri Pumpido um goleiro confiável e integrado à dinâmica da equipe, agora sob as traves pairam as incógnitas. Sergio Romero, o arqueiro de Maradona em 2010, continua sendo o favorito de Sabella. Com uma diferença sombria: Romero abandonou a Sampdoria no ano passado porque não jogava, e agora continua sem jogar no Mônaco. Talvez o problema revele o ponto mais inexplicável da gestão do selecionador: Andújar, o segundo goleiro, sofre as desventuras do Catania na última posição da Liga italiana, e Orión, do Boca, quase não tem experiência internacional. A discriminação de Willy Caballero, o magnífico goleiro do Málaga, constitui o mistério não resolvido de Sabella.

A estatística da Argentina nas eliminatórias fala de um rendimento regular: 16 partidas, 5 empates, 1 derrota e 10 vitórias. O que se viu dentro de campo, no entanto, é uma equipe que sofre para controlar as partidas. O esquema básico, o 4-3-1-2, parece o mais razoável, mas os laterais (Zabaleta e Rojo, em geral) se somam tão pouco ao meio-campo que o conjunto tende a se partir. A solução se decanta por inércia: atrás defendem em bloco de sete, e uma vez que a bola passa para o meio-campo rival as possibilidades de que acabe na rede se multiplicam pelo peso dos participantes. Di María, Messi, Higuaín e Agüero, com a incorporação ocasional de Gago para distribuir, reúnem um volume incomparável de inventividade e poder de combinação em espaços curtos.

Dizia Bochini que a Argentina de Maradona não se encontrou até chegar ao México. A Argentina de Messi tampouco se encontrou ainda, mas bastou ela sair à sua procura para exibir seu evidente potencial de vencedora.

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