Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Morre Anita Pallenberg, a ‘rolling stone’ feminina

Mulher livre que foi companheira de Brian Jones e Keith Richards tinha 73 anos

Anita Pallenger morre
Anita Pallenberg, musa dos Rolling Stones, com Keith Richards em uma imagem de dezembro de 1969. Getty Images

Anita Pallenberg, encarnação do espírito iconoclasta dos anos sessenta e musa dos Rolling Stones, morreu terça-feira em Londres. Tinha 73 anos e uma saúde frágil, com sequelas de uma hepatite C e sérios problemas de quadril. Não foram divulgadas as causas exatas de sua morte, anunciada por sua amiga Stella Schnabel.

Permitam-me fazer uma lembrança. Em 1969, estreou na Espanha O Tirano da Aldeia (Michael Kohlhaas - Der Rebell), um filme do cineasta alemão Volker Schlöndorff sobre o lendário insurgente medieval Michael Kohlhaas, do qual participava Anita. Correu o boato de que Keith Richards aparecia como extra, por isso fomos em massa ver o filme (afinal, em pleno franquismo, era inconcebível que os Rolling Stones tocassem na Espanha). Fomos vê-lo várias vezes. E ficamos apaixonados por Anita Pallenberg.

Mas, de fato, foi em terras valencianas, a caminho de Tanger, no Marrocos, que Keith Richards e Anita tiveram um caso. Dali a pouco tempo, ela largou seu namorado oficial, o também rolling stone Brian Jones, que tinha se revelado um abusador. Essa troca de namorado nos fez ver que o universo daquela banda se movia por leis próprias. Não existia o conceito de infidelidade: no mesmo livro, Richards se queixa de que Anita flertou com Mick Jagger durante a filmagem de Performance, algo que ela sempre negou.

Anita foi uma daquelas criaturas hedonistas que tomaram de assalto os anos sessenta. Exibia seu multiculturalismo: nascida em Roma de pais alemães, falava quatro idiomas e passou por diferentes instituições de ensino. Mas se tornou independente após conhecer a dolce vita e o círculo nova-iorquino de Andy Warhol. O que, exatamente, fazia Ana? Trabalhava como modelo, teve pequenos papéis em filmes de Roger Vadim e Marco Ferreri, além de uma breve passagem pela companhia teatral Off Broadway Living Theatre. Vivia intensamente.

Quando ela chegou, os Rolling Stones eram um projeto em construção, que seguia ativamente o caminho dos Beatles e tentava assimilar os ensinamentos de Bob Dylan. Anita ajudou a dar-lhes sofisticação, audácia, aura de perigo: o rumor de que ela praticava magia negra era apenas um dos muitos que circulavam naquela época. Provavelmente, Anita foi a mais selvagem de todos, no que se refere a drogas e sexo. Segundo a opinião da parte mais empresarial do grupo, era um perigo. Depois da famosa detenção de 1977 em Toronto, quando Richards foi acusado de tráfico de drogas, aumentaram as pressões para que o casal se separasse.

I have never met a woman tire like you Anita.

Uma publicação partilhada de Stella Madri 🍓 (@stella__schnabel) o

A situação se complicou em 1979: na casa norte-americana de Richards, apareceu morto com um tiro um jovem de 17 anos com quem Anita tinha um caso. Entraram em ação os famosos “advogados dos Rolling Stones”, que conseguiram que aquilo se considerasse um acidente ou um jogo idiota de roleta-russa.

Richards e Pallenberg tiveram três filhos, Marlon, Angela e Tara, mas esta última morreu de pneumonia em seu berço em 1976. Foram tomadas medidas para que seus filhos fossem criados por pessoas responsáveis e, a partir de 1980, o casal foi se distanciando.

Richards se preocupou em manter Anita, que até o fim teve acesso à residência do guitarrista na Jamaica. Ali, chamou a atenção da polícia local, que decidiu dar-lhe uma lição: foi trancada em uma cela com alguns dos piores sujeitos da região.

Mas, assim como Richards, ela era uma sobrevivente. Passou por um processo de reabilitação e largou as drogas, embora tenha sofrido algumas recaídas. Evitou a tentação de escrever suas memórias e se tornou um símbolo de resiliência, assim com outra musa dos Stones, Marianne Faithfull, com quem participou de um capítulo da série da BBC Absolutely Fabulous.

Em seus últimos anos, convertida ao vegetarianismo, dedicou-se a cultivar sua horta no bairro londrino de Chiswick. Participou de filmes de diretores cultuados, como Abel Ferrara e Harmony Korine. Reconhecida como inspiração por mulheres que podiam ser suas filhas (ou suas netas!), conseguiu até mesmo voltar às passarelas, desfilando orgulhosa com sua bengala. Também gostava de atuar como disc jockey em festas privadas.

MAIS INFORMAÇÕES