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Devagarzinho, ‘Despacito’ coloca música latina novamente no topo nos EUA

‘Despacito’ se firma como número um e estabelece outro marco na presença latina no mercado musical norte-americano

Luis Fonsi se apresenta em Carson (Califórnia) no dia 13 de maio.
Luis Fonsi se apresenta em Carson (Califórnia) no dia 13 de maio. GTRESONLINE

Entre um antigo som mexicano tradicional de Veracruz, uma canção do verão espanhol remixada por cubano-americanos e um reggeaton de Porto Rico viralizado por um anglo-saxão existe uma conexão: são as três únicas músicas em espanhol a alcançar o números um na lista Billboard nos EUA. La Bamba, interpretada por Los Lobos em 1987; Macarena, o milagre de Los del Río, em 1996; e desde quatro semanas atrás Despacito, de Luis Fonsi e Daddy Yankee, com Justin Bieber.

Cada uma estabeleceu um marco na evolução da presença hispânica nos Estados Unidos. Quando La Bamba passou uma semana em primeiro lugar na lista, a população latina se aproximava de 19 milhões de pessoas (8% do país) e seu ritmo de crescimento e sua juventude começavam a atrair a indústria do entretenimento. Macarena ocupou o primeiro lugar por 14 semanas em plena combustão demográfica hispânica (28,5 milhões, 10,8% do total) e às vésperas do boom do pop latino com Ricky Martin, Jennifer López, Marc Anthony e Shakira. Despacito chegou ao topo com os hispânicos como primeira minoria na população norte-americana (17%), em uma fase de empoderamento avivada pela xenofobia do presidente Donald Trump e com projeção de superar os anglo-saxões em meados do século como primeiro grupo étnico dos EUA.

A HORA DO REEGEATON MANSO

Despacito consagrou a fusão do reggeaton com o pop, que está há tempos em preparo com colaborações entre estrelas latinas estabelecidas e cantores de reggeaton no auge como Bailando (2013), que uniu Enrique Iglesias e os cubanos Gente de Zona, ou Chantaje (2016), de Shakira com o colombiano Maluma. Agora se juntaram o cantor de baladas Luis Fonsi e Daddy Yankee, que havia alcançado o top 50 da Billboard com músicas como Rompe (2006) e Gasolina (2005). O reggeaton, ritmo latino que surgiu nos anos 1990 como música de bairro, tem desbravado suas letras e adotando melodias mais líricas, não tão sincopadas. Reggeaton amansado, duplas artísticas com contraste de estilos e vídeos com qualidade cinematográfica são a atual fórmula de sucesso da música latina.

La Bamba era na íntegra em espanhol. Macarena incorporou uma voz feminina em inglês ao ser adaptada para os EUA. Despacito nasceu em espanhol, escalou rapidamente nas paradas e após tornar-se bilíngue com Bieber disparou para o alto, da posição número 44 ao número um na Billboard e do terceiro ao primeiro lugar na lista global do Spotify. “Mas com um detalhe que nos abre uma nova janela. Ele [Bieber] se soma aos latinos, Fonsi e Daddy Yankee, sem apagá-los e cantando em seu idioma”, afirma a especialista em estudos latinos Frances Negrón-Muntaner. Bieber se assustou ao ver a canção conquistar a pista de dança de uma casa noturna em Bogotá e propôs a Fonsi a colaboração, na qual o astro canadense começa em inglês e depois canta em um espanhol bem ensaiado.

O locutor de rádio Enrique Santos, a quem Obama deu uma entrevista uma semana antes das eleições para buscar o voto latino para Hillary Clinton, relembra como nos anos 1990 levantava o vidro do carro ao parar em um cruzamento “porque tinha um pouco de vergonha que me vissem escutando salsa ou uma bachata em espanhol”. Hoje acredita que Despacito é outra prova “de que temos gosto musical muito bom e somos os melhores do baile”, e ressalta a propulsão extra que essa canção teve por fazer parte da era da viralização digital. “Se Macarena tivesse sido lançada nas redes sua força teria se multiplicado por cem”, afirma.

“Em nossa caso demorou alguns meses para pegar a fúria”, diz Johnny Caride, o dj que remixou a canção de Los del Río em Miami com seu trio de produtores Bayside Boys depois de ouvir a original em uma discoteca em que tocava e ver “como todo mundo pulou da cadeira”. Quando colocou pela primeira vez sua versão americana na rádio em que apresentava um programa de música, relembra, “as linhas telefônicas ficaram loucas e uma semana mais tarde já tínhamos enviado por correio mil compactos para outras emissoras”. Caride acredita que naquela época a música hispânica era ainda “algo regional” e que os artistas do boom latino e outros depois, como Enrique Iglesias, Romeo Santos e Pitbull, “criaram a grande agitação conectando o mercado latino ao norte-americano”.

Negrón-Muntaner aponta o fenômeno do Despacito nos EUA como uma linha de continuidade que remonta “ao menos ao tango do princípio do século XX e inclui, entre outros, o mambo, o rock, o boogaloo, a salsa, a música disco, o pop e o hip-hop, que não teria acontecido da mesma maneira sem a presença porto-riquenha no Bronx de Nova York”. “É impossível falar da história e da cultura norte-americanas sem os latinos”, conclui. Parece que o título do sucesso de Luis Fonsi resume em uma palavra todo o processo paulatino de imbricação de uma minoria cultural em um tecido de um império: Despacito, que significa devergazinho. Ou, se preferir, pode se dizer como Daddy Yankee no refrão: "Pasito a pasito / suave suavecito / nos vamos pegando, poquito a poquito".

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