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Antonio Candido, um professor de portas abertas

'Formação da Literatura Brasileira', de 1959, é uma pedra fundamental na ideia de país

O crítico literário em sua casa, em São Paulo
O crítico literário em sua casa, em São Paulo Folhapress

Antes do crítico literário, do intelectual, do acadêmico e do, talvez, último dos grandes pensadores brasileiros, havia o professor. No sentindo mais amplo que a palavra pode ter. Antonio Candido, que morreu na madrugada desta sexta-feira, aos 98 anos, depois de passar uma semana internado por causa de uma crise gástrica, manteve a porta de sua casa aberta para todo e qualquer aluno – também no sentido mais amplo que há para a palavra – até o fim de sua vida. Resguardado nos últimos 20 anos, resistente a dar entrevistas, nunca deixou de receber em sua sala alguém que, ligando para seu telefone fixo (que ele sempre atendia prontamente), apresentava-se como estudante e propunha um encontro para conversar sobre literatura, cultura, Brasil.

É imprescindível dizer que Candido, ao lado de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Jr. e Celso Furtado, foi um dos cinco mais importantes “formadores” do Brasil. Ao lado das obras-primas deles – Casa Grande & Senzala, Raízes do Brasil, Formação do Brasil Contemporâneo e Formação Econômica do Brasil, respectivamente –, seu Formação da Literatura Brasileira: Movimentos Decisivos, publicado em 1959, é uma pedra fundamental na criação da ideia e entendimento do país. Contudo, apresentar qualquer faceta de Candido, desvinculada da figura de professor – um professor de uma simplicidade extrema, que pega o aluno pela mão e o conduz com tranquilidade e sem afetação –, não faz sentido algum. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso o chamou de "professor perfeito". Outro colega de USP, o ex-prefeito Fernando Haddad, disse que "ninguém merece mais" esse título do que ele.

Talvez a impossibilidade de desvinculá-lo dessa figura – algo que aparece em praticamente todos os relatos e homenagens prestadas a ele – deva-se a sua certeza de que, sem distinções entre erudita e popular, entre baixa e alta, a literatura deveria ser um direito inalienável do homem. Não à toa, um de seus textos mais conhecidos, “O Direito à Literatura”, inclui a arte no rol dos direitos humanos. “A literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. Deste modo, ela é fator indispensável de humanização”, escreveu em 1988.

Candido nasceu no Rio de Janeiro, em 24 de julho de 1918, viveu boa parte da infância entre o interior mineiro e paulista, nas cidades de Santa Rita de Cássia e Poços de Caldas, ambas em Minas Gerais, e São João da Boa Vista, em São Paulo. Em 1939, já na capital paulista, entrou nas faculdades de Direito e Filosofia na USP. Abandonou a primeira, terminou a segunda. Poucos anos depois já era professor da universidade, mas como lembrou Lilia Moritz Schwarcz, em artigo na Folha de S. Paulo, lecionou primeiro como assistente em Sociologia, fato que seria determinante para “sua produção como crítico literário e no seu empenho em não tratar a literatura como fenômeno isolado”, escreveu Schwarcz.

Na literatura, como crítico e ensaísta, atuou no tempo presente, escrevendo sobre as obras de Clarice Lispector, João Cabral de Mello Neto, Carlos Drummond de Andrade, mas também jogou seu olhar para trás, para Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Manuel Antônio de Almeida. Foi, assim, determinante para a ideia que se tem hoje da produção literária brasileira. “Ele era generoso e atuava no seu tempo, escrevia sobre os maiores e sobre os menores escritores também”, disse em conversa ao EL PAÍS o artista plástico e ensaísta Nuno Ramos.

Em 1996, por ocasião da morte do contista paulistano sempre esquecido João Antônio, escreveu o texto Na Noite Enxovalhada em que fala da obra do escritor e resume suas preocupações sociais. “João Antônio faz para as esferas malditas da sociedade urbana o que Guimarães Rosa fez para o mundo do sertão, isto é, elabora uma linguagem que parece brotar espontaneamente do meio em que é usada, mas na verdade se torna língua geral dos homens”, escreveu Candido sobre o autor que fez das camadas mais baixas da sociedade seu tema principal. E talvez haja aí a explicação do por que a literatura ser vista por ele como um direito. “Uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade de 'dar voz', de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos”, observou no mesmo texto.

No campo da sociologia, Candido dedicou-se à figura do caipira que nasceu no interior dos Estados do Sudeste. Falou de hábitos alimentares, da organização social em bairros, da presença de uma cultura que, por vezes, tentou-se esquecer ou camuflar com a ideia de progresso. Com um olhar sempre para os de baixo, para os que estão “ao rés do chão”, para evocar o título de outro texto, o professor e crítico sempre sustentou de forma clara suas posições políticas. Em 1980, participou da fundação do PT, nunca se furtou a fazer críticas, mas manteve suas posições. “Confesso que por toda a minha vida, mesmo nos momentos mais agudos, nunca fui capaz de perder a preocupação com os fatores sociais e políticos”, disse em entrevista de 1975, relembrada pela Folha de S. Paulo.

Antonio Candido fala sobre a cultura caipira em documentário

De fala mansa, calma, sempre em um tom quase de sussurro, com uma dicção que dizia letra por letra, palavra por palavra, Candido fez uma de suas últimas aparições públicas, em que falou abertamente para um público grande, durante uma edição da Festa Literária de Paraty, em 2011. Seis anos antes, em 2005, ficou viúvo de Gilda de Mello e Souza, com quem se casou em 1943. Agora, suas cinzas, a seu pedido, serão misturadas com as dela e ficarão em um jardim. Nesta sexta-feira, seu velório, que começou às 9h, vai até às 17h, em um hospital de São Paulo. No sábado, seu corpo será cremado em uma cerimônia para familiares.

Com Gilda, teve três filhas, a escritora Ana Luísa Escorel e as historiadoras Laura de Mello e Souza e Marina de Mello e Souza, que o definiu nesta sexta-feira com um “humanista acima de tudo”. “Nesse momento em que a gente vive não só no país, como no mundo, uma situação de extremo retrocesso e de valores e bens que são muito diferentes do humanismo, é importante lembrar que teve gente que dedicou a carreira e o trabalho para construir uma sociedade melhor”, disse Marina. Até praticamente ontem, apesar de não participar mais de eventos públicos, Candido, estava disposto a receber em sua casa todos os interessados em falar e "construir algo melhor", como diz sua filha; a partir desta sexta, o Brasil fica com a lembrança desse professor sempre de portas abertas.

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