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‘Alien: Covenant’: Se dê ao respeito, senhor Ridley Scott

Ao contrário do 'Alien' original, aqui há muita conversa e pouca ação, escreve nosso crítico Carlos Boyero

Alien Covenant
Da esquerda para a direita, Amy Seimetz, Benjamin Rigby e Carmen Ejogo, em 'Alien: Covenant'.

Asseguram que quando o talento é verdadeiro, não se extingue, pode sofrer crises passageiras, mas a qualquer momento recupera seu esplendor. Não há dúvida de que Ridley Scott possui talento, mas é lamentável que começou sua obra de forma genial (não é o mesmo que talento) e que, depois de realizar sucessivamente três obras-primas, essa genialidade desapareceu. Esta teoria é comprovável. Vejam ou revisem uma maravilha estética com fundo enigmático e perturbador chamada Os Duelistas, o cinema ainda mais poético que noire como Blade Runner, ou a obra-prima, tensa e arrepiante, chamada Alien, o Oitavo Passageiro, e reconhecerão que não estou exagerando. Este senhor estaria nos altares da história do cinema se tivesse fechado seu legado com esses três filmes extraordinários. Depois fez coisas com muito mérito, corretas no geral, chamativas e ocas, exercícios marcados pelo querer e não poder, mas o estado de graça concedido por deuses caprichosos e sábios desapareceu há 35 anos.

Que entre a multidão de projetos que pode escolher este magnata do cinema tenha decidido por sua antiga, fascinante e predatória criatura em Alien: Covenant, é, para começar, algo inexplicável. Confiando no sucesso comercial de uma criatura mitológica que permanecerá para sempre na memória do agradecido público e que foi revisitado em vão por muitos diretores, na certeza de que o monstro está legitimado para retornar ao que seu criador tornou inimitável? Prequela, sequela, remake, spin off, reboot (não sei o que significam esses termos tão modernos, mas tenho amigos informados que traduzem adequadamente essas formulações anglo-saxônicas): homenagear a si mesmo fazendo algo tão patético quanto uma cópia de si mesmo.

Ou seja: por quê, para que retomar o oitavo passageiro? Para uma história que nem sequer é ruim, filmada com tanta eficiência como ausência de alma, misturando a ideologia do desagradável Prometheus (deus, o criador, o controle e a culpa sobre suas criaturas, besteiras enfáticas) com o enredo em que a inesquecível tenente Ripley se propunha a permanecer viva e derrotar o alienígena implacável que não conhece a piedade, que além de exterminar os humanos quer se reproduzir, e por isso a observa na escuridão, naquela mulher dura, responsável e elegante que fica de camiseta e calcinha quando acha que seu retorno à Terra, junto com seu gato, não terá mais complicações após ter sofrido a aniquilação de sua equipe e a presença do inferno.

Sempre pensei, embora às vezes acho que responde exclusivamente aos meus delírios eróticos, que o monstro, além de exterminar os intrusos, quer transar com essa esplêndida senhora, que essa ansiedade libertina é um incentivo em sua sobrevivência até o momento letal.

Ao contrário do Alien original, aqui há muita conversa e pouca ação. Michael Fassbender, esse senhor tão desejado pelas mulheres, como confessa em uma de suas admiráveis colunas Luz Sánchez-Mellado (quanta identificação, raiva, inveja e melancolia sinto depois da minha experiência durante quarenta anos falando, como ela, das pessoas e das coisas), é tão bom ator que dá para acreditar que é um robô bipolar, bom ou malvado. E esta noite volto ao Alien primitivo. E com certeza durmo assustado, apesar das pílulas para dormir.

ALIEN: COVENANT

Direção: Ridley Scott.

Intérpretes: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup.

Gênero: ficção científica. EUA, 2017.

Duração: 122 minutos.

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