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“Aprovação das reformas aprofundaria o abismo entre o Congresso e a sociedade”

Para Boulos, "eixo de mobilização pode se deslocar para Brasília" caso o Congresso aprove mudanças

Guilherme Boulos discursa durante ato, em abril.
Guilherme Boulos discursa durante ato, em abril. Facebook

A greve geral convocada na última sexta-feira desatou uma guerra de narrativas. Enquanto o Governo de Michel Temer avalia, ao menos publicamente, que a paralisação fracassou, o campo oposicionista aposta, também publicamente, que a mobilização foi um sucesso. Esta é a conclusão de Guilherme Boulos (São Paulo, 1982), que lidera o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), um dos movimentos sociais que encabeçaram a paralisação nacional. “Foi um recado de que a sociedade não vai aceitar as reformas [trabalhista e da previdência]”, afirma Boulos em uma entrevista ao EL PAÍS por telefone.

Ainda não há um novo calendário de novos atos ou greves gerais, segundo Boulos. O momento, explica, é o de esperar para "ver se o Parlamento vai entender ou não o recado das ruas". Mas ele assegura que, caso as reformas sejam aprovadas "a toque de caixa", novas greves gerais e mobilizações ocorrerão. "A aprovação agravaria, e muito, o conflito social no Brasil. E aprofundaria o abismo que já existe entre o Congresso e a sociedade". Para ele, "a pressão pode assumir proporções massivas e radicalizadas. O eixo de mobilização pode se deslocar para Brasília".

A paralisação da última sexta-feira começou com ruas desertas e terminou com repressão policial e depredação de bancos e restaurantes por parte de adeptos da prática black bloc. Três integrantes do MTST – o pedreiro Luciano Antônio Firmino, de 41 anos, o motorista Ricardo Santos, de 35, e o frentista Juraci Santos, de 57 – foram detidos, acusados de incitação ao crime, tentativa de incêndio de pneus e explosão de rojões. A prisão em flagrante foi convertida em prisão preventiva no último sábado pela juíza Marcela Filus Coelho, que cita como motivo para mantê-los preso a "audácia e periculosidade dos agentes", além da "personalidade desajustada ao convívio da sociedade". Boulos garante que eles são "presos políticos", argumentando que não existem provas ou indícios contra os acusados, mas sim o relato de que eles teriam agredido policiais militares. Os advogados do movimento estão entrando com pedidos de habeas corpus.

Ainda sobre a greve geral da última sexta-feira, a principal liderança do MTST acredita que a paralisação foi a maior dos últimos 30 anos, ao conseguir interromper “escolas, transportes, bancos, avenidas”, entre outros serviços. A última paralisação nacional havia sido realizada em 1996, durante o Governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Assim, após um longo intervalo, Boulos aposta que a greve pode voltar a ser um instrumento de pressão, sobretudo em um contexto em que as novas regras trabalhistas preveem que a negociação entre trabalhadores e empregadores prevalecerá sob a legislação.  

Apesar de que as principais capitais do país de fato se esvaziaram na última sexta – ruas sem trânsito no horário de pico, lojas fechadas, terminais de ônibus e estações de metrô desertas... –, a greve foi considerada por muitos de seus opositores como uma reação dos sindicatos ao fim do imposto sindical. O próprio Governo Temer minimizou a paralisação, reduzindo-a a "pequenos grupos que bloquearam rodovias e avenidas". Assegurou, além disso, que seguirá com seu objetivo de "modernizar a legislação nacional". Ele descartou debater com sindicatos ou outros grupos da sociedade civil, advertindo que "a arena adequada para essa discussão é o Congresso Nacional". Em mensagem para o dia 1º de Maio, o mandatário afirmou que a nova legislação trará "inúmeras vantagens", como a criação de "mais empregos" e "mais harmonia nas relações de trabalho".

As mudanças trabalhistas foram aprovadas aprovada na Câmara na última quarta-feira, 26 de abril, e foi enviada ao Senado, onde enfrenta um opositor de peso: o senador Renan Calheiros, líder do PMDB na Casa. Já a reforma da previdência sofre resistências dentro da própria base governista. Está previsto que a Comissão da Casa vote o relatório final nesta quarta-feira, 3 de maio. No plenário, onde o projeto necessita de no mínimo dois terços dos deputados, a votação deverá ocorrer ainda neste mês, mas o cronograma poderá ser alterado dependendo das pressões da base.

Manifestações da direita

A esquerda havia perdido o monopólio das ruas, que foram ocupadas nos últimos três anos por atos, convocados por movimentos como MBL e o Vem pra Rua, que pediam o impeachment de Dilma Rousseff. Com a greve geral, os grupos de esquerda recuperam certo protagonismo e capacidade de mobilização. "Os setores da direita que organizaram manifestações perderam qualquer moral e credibilidade. Eles venderam que o impeachment acabaria com a corrupção e a crise econômica. Mas um ano depois estamos afundados na corrupção e na crise", afirma Boulos, que lembra que o atual Governo tem oito ministros investigados pelo Supremo e que o próprio presidente Temer foi acusado, em delação de um executivo da Odebrecht, de negociar 40 milhões de dólares de propina para o PMDB. Para ele, nem todos os que foram para a rua contra o PT eram de direita, mas sim "tinham um sentimento legítimo contra a corrupção", opina. "A última manifestação que convocaram foi um fiasco".

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