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Atos de ‘resistência’ a Donald Trump tomam as ruas da Califórnia no 1º de Maio

Milhares de pessoas participaram das manifestações, que homenagearam a contribuição dos imigrantes à economia norte-americana

Manifestação do Primeiro de Maio no centro de San Francisco.
Manifestação do Primeiro de Maio no centro de San Francisco. EFE
São Francisco / Los Angeles

Restaurantes e bares fechados. Obras paradas, escritórios sem serviço de limpeza e com cozinhas funcionando a capacidade mínima. A Califórnia, o Estado com mais imigrantes nos Estados Unidos e que se declarou em aberta rebeldia contra as políticas do presidente Donald Trump, viveu uma jornada de 1º de Maio em um ambiente de tensão política com poucos precedentes recentes. As manifestações do Dia dos Trabalhadores foram gigantescas e acabaram se transformando numa maciça homenagem à contribuição dos imigrantes à economia norte-americana.

Em San Francisco, milhares de latinos saíram às ruas num dia que muitas empresas concederam como feriado, especialmente as de tecnologia. Desde as 11h (hora local), a rua Market, principal artéria da cidade, estava paralisada, bloqueada e sem tráfego de veículos. Por um dia, os trilhos ficaram sem os pitorescos bondes. Os imigrantes tomaram as ruas numa ação que passaram meses preparando e com uma meta clara: demonstrar seu mal-estar com Trump. Não estavam sozinhos. Grupos de esquerda, coletivos solidários e desencantados em geral se somaram para salientar sua esperança em uma outra América.

Yadira Sánchez (Cidade do México, 1990) chegou aos Estados Unidos aos quatro anos. Ela é parte da coalizão de jovens imigrantes e quer que a tensão das ações policiais seja abrandada: “Estamos dando uma mensagem de basta às deportações. Este país impõe políticas a todo mundo, fora de suas fronteiras, que são as que depois provocam os movimentos migratórios”.

A manifestação de Los Angeles, sobre a rodovia 110.
A manifestação de Los Angeles, sobre a rodovia 110. AP

Durante a concentração inicial, na praça Justin Herman, foram lidas as palavras de ordem: “Nós, o povo, somos os que fazemos a América grande, e não aquele que está na Casa Branca”. Também houve uma celebração coletiva, um momento de júbilo para muitos que trabalham em serviços – empregos que algum dia serão assumidos por robôs, mas que por enquanto sobram para as camadas mais baixas da sociedade. “Em 2018, San Francisco será a primeira cidade a pagar 15 dólares [47,65 reais] por hora em todo o país”, disse a supervisora local. Como gesto de solidariedade, todos os órgãos públicos municipais de Portola Valley, Mission e Bernal Heights fecharam suas portas durante a jornada.

Às 11h30 começou a passeata, com jovens em grupos, danças e música festiva, famílias e alguns coletivos indígenas que desfilaram com seus trajes tradicionais. Aniela Valtierra (El Paso, México, 1985) é a porta-voz de uma das iniciativas empreendedoras mais reconhecidas em San Francisco, chamada A Cozinha. Trata-se de uma start-up que reúne mulheres imigrantes, lhes dá formação e ensina a transformar os seus conhecimentos culinários em um ofício. Não há evento gastronômico em que uma das suas representantes não esteja presente com seus pratos latinos. Valtierra estava acompanhada de 20 colegas: “A maioria de nós somos latinas, mas também há algumas companheiras da Índia. Estamos mais unidas que nunca, especialmente as que vêm do México e da Venezuela”.

A palavra “resist” na Prefeitura de Los Angeles.
A palavra “resist” na Prefeitura de Los Angeles. REUTERS

Ao longo das quase três horas de percurso, lento e sem sobressaltos, foram ditas palavras de ordem pedindo mudança: “Mais educação e menos deportação”, “Fora Trump e Pence”.

Os manifestantes passaram diante da sede do Twitter, serviço usado para registrar os protestos tanto ao vivo como em mensagens, apesar das dificuldades. As redes de telefonia celular ficaram inoperantes por causa da saturação de solicitações. Às vezes, o próprio Vale do Silício é incapaz de manter suas criaturas vivas. Celulares procurando cobertura, telefones sem bateria e mensagens que queriam contar ao mundo que a capital da tecnologia estava paralisada porque os imigrantes, em sua maioria latinos, reivindicam seu espaço.

Em Los Angeles, milhares de pessoas abarrotaram o centro em duas marchas saindo do parque MacArthur, numa zona com forte presença latina, até a Prefeitura. A manifestação ocupou vários quilômetros da rua Wilshire. Na sede do Governo municipal lhes esperava um cartaz que dizia: “Resist”. O apoio institucional a esta passeata, a terceira grande da era Trump, incluiu um discurso do prefeito, Eric Garcetti. Diante da multidão, majoritariamente latina, Garcetti voltou a prometer: “Enquanto eu for prefeito desta cidade, a polícia não atuará como uma força de deportação”.

A marcha foi organizada por uma coalizão de mais de 100 organizações que normalmente não atuam juntas, de sindicatos a organizações de defesa dos imigrantes, organizações religiosas e movimentos afro-americanos. O presidente Trump foi o inimigo comum de todos os que discursaram no ato.

Um pequeno grupo se manifestou numa esquina em apoio ao presidente republicano. Estava cercado de policiais, detrás dos quais cerca de 200 pessoas insultavam os trumpistas – alguns dos quais munidos de capacetes e com o rosto tampado.

A manifestação afinal representou toda Los Angeles. Estavam lá desde Nicholas Jenkins, de 18 anos, um branco de Santa Mónica que faltou à aula e se dispunha a manter “o entusiasmo e as ideias” da campanha do socialista Bernie Sanders, até Alejandra Serrano, de 41 anos, imigrante mexicana sem documentos que vive há duas décadas na maior cidade da Califórnia. Abriu mão de um dia de trabalho para ir à manifestação com sua prima Ignacia e seu sobrinho Pablo, de dois anos. Nos Estados Unidos, ela teve cinco filhos, que cuida como dona de casa, além de trabalhar num restaurante em tempo parcial e de fazer tacos por encomenda para festas.

Serrano é uma entre milhões de imigrantes que tiveram sua vida revirada pela eleição de Trump. A família dela já não faz mais festas, “já não rimos tanto”. “Já não dormimos bem. Não estamos felizes e seguros como há apenas um ano.” Após 21 anos em Los Angeles, se vê fazendo planos com seus filhos se por acaso um dia for detida e deportada. “Digo à minha filha de 18 anos que precisará se encarregar dos seus irmãos. O pequeno, de quatro anos, terá de vir comigo. Então os pequenos começam a chorar.” Neste 1º de Maio, Serrano saiu às ruas “para apoiar todos os latinos e todos os imigrantes de todos os países”.

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