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Protecionismo de Trump ameaça vendas latino-americanas para os EUA

As exportações para os Estados Unidos contribuem com 8% do PIB da América Latina

Donald Trump, durante uma reunião na Casa Branca em 14 de fevereiro. AP

As declarações de Donald Trump em favor da imposição de sobretaxas às importações pairam como uma ameaça sobre a economia latino-americana. Em 2015, a região vendeu 400 bilhões de dólares (quase 8% de seu PIB) em matérias-primas e produtos para seu grande vizinho do Norte, com quem também manteve superávit comercial. O efeito das medidas anunciadas pelo presidente suscita temores dos países mais próximos e mais dependentes do intercâmbio comercial com os EUA, como acontece com o México diante da imposição de sobretaxas a automóveis, mas também inquietam economias mais afastadas e menos exportadoras aos Estados Unidos; é o caso da Argentina, que já sofreu o veto à venda de limões. Outros países, por sua vez, podem se gabar de uma exposição menor ao arrebatamento neoprotecionista do novo Governo norte-americano, que também colocou em questão os acordos de livre comércio.

As medidas aos setores e produtos afetariam dessa maneira as economias da América Latina:

Brasil

Os EUA são o segundo parceiro comercial do Brasil depois da China, destino de 23,1 bilhões de dólares de exportações, ou 12,5% do total geral exportado pelo país em 2016, segundo estatística do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDiC). No sentido inverso, os americanos venderam ao mercado brasileiro 23,8 bilhões de dólares. No ano passado, foram vendidos 1,4 bilhão de dólares em petróleo bruto, 3,1 bilhões em materiais aeronáuticos e 2,7 bilhões em derivados de metal. 

Os americanos já foram o primeiro parceiro do Brasil, mas foram superados pela China em 2014. Desde então, a economia brasileira veio encolhendo a um ritmo preocupante (entra agora no terceiro ano da recessão mais grave em 30 anos) enquanto os EUA se tornam, agora, um cliente imprevisível nas mãos de Donald Trump. O volume e os produtos exportados permanecem relativamente estáveis, embora influenciados pela variação de preço das commodities no mercado internacional. Mas, a dúvida é como será o futuro com Trump, quando os dólares desse intercâmbio significam mais do que antes para o PIB brasileiro.

Isso não quer dizer que a indústria esteja necessariamente preocupada: para uns, porque é provável que a Casa Branca não chegue a desconfiar de seu parceiro comercial número 12; para outros, porque acreditam ser possível vender à China tudo o que os EUA não quiserem. Mudar mais uma tradicional boa relação comercial está, também desta vez, nas mãos da Casa Branca.

México

Se há um país que deve temer a guinada protecionista anunciada por Donald Trump, esse país é o México. Mais de 25% de seu PIB depende diretamente da venda de produtos ao país do norte e o grosso se concentra em um dos setores que estão na mira do novo presidente da maior potência mundial: a fabricação de equipamentos eletrônicos e outros tipos de máquinas (quase 40% do total) e de veículos (25%). A parte mais resiliente de suas vendas aos EUA, porém, seria de matérias-primas, fundamentalmente petróleo (9%) e ouro (1%).

No entanto, o México guarda várias balas no pente se o Governo Trump optar finalmente por impor uma sobretaxa de 20% sobre os produtos manufaturados mexicanos, como sugeriu nas últimas semanas. A Organização Mundial do Comércio (OMC) impediria na hora uma imposição dessa monta. Inclusive com o esfacelamento do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, na sigla em inglês), a sobretaxa máxima que os EUA poderiam impor sobre a média dos produtos mexicanos —variando em função de cada categoria— seria de 3,5%. Além disso, os grandiosos investimentos de grandes empresas norte-americanas em seu território e a elevada integração do México nas cadeias de valor de seu vizinho do norte jogam claramente em seu favor.

A Nicarágua é, junto com o México, o mais vulnerável à guinada anunciada na política comercial norte-americana

O impacto das medidas protecionistas norte-americanas, de qualquer forma, não seria uniforme em solo mexicano. Os Estados mais impactados seriam os do Norte: Chihuahua, Baja California, Tamaulipas e Coahuila, todos eles muito dependentes da venda de produtos aos EUA. Do lado contrário, Quintana Roo, Baja California Sur, Colima e Ciudad de México mal veriam seu PIB ser diretamente afetado. No entanto, sofreriam indiretamente os efeitos da desaceleração econômica do conjunto do país.

Guatemala

Apesar de quase quatro em cada dez quetzales obtidos pela exportação procederem dos EUA, a dependência do país em termos de PIB (pouco mais de 6%) é inferior à de El Salvador, Honduras, Nicarágua e, sem dúvida, México. O grosso de suas vendas à maior potência mundial se concentra em produtos alimentícios —bananas (16%), café (7,7%) e melões (4,2%)—, mas matérias-primas como metais preciosos de todo tipo (8,3%), ouro (8,4%), petróleo (5,1%) e açúcar (3,1%) têm ampla presença na cesta exportadora guatemalteca em relação à maior potência mundial. Também os têxteis de todo tipo, que somam quase 20% do total. Os vínculos comerciais entre os dois países são regidos, há 11 anos, pelo tratado de livre comércio CAFTA.

Honduras

Com praticamente a quarta parte de seu PIB (23%) dependente das vendas a Washington, Tegucigalpa tem razões para temer a guinada na política comercial norte-americana. A melhor notícia até agora é, talvez, que ninguém no Governo Trump defendeu publicamente a renegociação do tratado que simplifica a chegada de produtos hondurenhos aos EUA. Para além desse fator, surgem as dúvidas: a metade de suas vendas aos EUA são têxteis— suscetíveis de serem afetadas por um crescimento das restrições comerciais— e qualquer medida protecionista sobre o México, como a ruptura ou renegociação do NAFTA, lhe passaria a fatura por via indireta: quase 6% de suas exportações acabam no principal líder regional.

El Salvador

Os Estados Unidos representam 45% das vendas externas salvadorenhas, mas estas representam apenas 10% de seu PIB, uma cifra muito inferior que a de seus pares regionais. No entanto, os riscos para o país centro-americano têm mais a ver com a distribuição setorial das exportações para a maior potência mundial: mais de 60% são têxteis, um nicho suscetível de ver-se afetado pelas restrições às importações prometidas por Donald Trump. No entanto, a pouca atenção que o novo presidente dos EUA dedicou ao resto do mundo —suas diatribes tiveram México e China como objetivos prioritários— joga a seu favor. Até agora, o Governo Trump não prometeu nenhuma mudança no CAFTA, o tratado comercial que permite a El Salvador e outros países da região vender seus produtos nos EUA.

Nicarágua

O país centro-americano é, junto com o México, o mais vulnerável à guinada anunciada na política comercial norte-americana. Apesar de sua complexa situação política, sua economia está há dois anos crescendo a taxas de 5%, motivo de inveja para praticamente qualquer país da região. Mas a chegada de Trump à Casa Branca representa um risco para o Governo de Manágua: seu PIB depende em mais de 25% das vendas de produtos aos Estados Unidos. Dentro do capítulo exportador destaca-se o setor têxtil —que representa praticamente a metade de suas exportações ao país norte-americano—, seguido pela carne bovina (8,8%), o café (7,8%) e o ouro (7%). Dessas categorias de produtos, a mais afetada por um crescimento do protecionismo norte-americano seria a manufatura têxtil, na qual as sobretaxas têm maior impacto.

O efeito das medidas de Trump  suscita temores dos países mais próximos e mais dependentes do intercâmbio comercial com os EUA

Costa Rica

Com uma dependência das exportações aos EUA superior a 8% de seu PIB, a Costa Rica seria, depois de México, Nicarágua e seus vizinhos do triângulo do Norte da América Central (Guatemala, Honduras e El Salvador), o país mais afetado pelo protecionismo norte-americano. O grosso das exportações corresponde, no entanto, a alimentos como frutas tropicais (19%), bananas (17%) e café (6,8%), uma categoria menos afetada que as manufaturas pelas medidas protecionistas que se vislumbram com a chegada de Trump à presidência dos EUA. A Costa Rica é membro do CAFTA, o tratado de livre comércio entre EUA e os países centroamericanos ao qual, até o momento, Trump não se referiu nem em sua campanha nem em seus primeiros dias de presidência.

Panamá

O país centro-americano é uma avis rara regional. Muito intensivo no setor de serviços, a venda de produtos para os EUA contribui com menos de um ponto percentual de seu PIB. Dentro desse pequeno nicho, destacam-se os produtos do mar (pescado fresco e crustáceos), que representam praticamente a metade das vendas para a maior potência mundial. O restante são, em sua maioria, matérias-primas como ouro ou açúcar bruto, o que o torna um dos países da Iberoamérica que menos sofreria em caso de um fechamento comercial norte-americano. Os EUA são apenas o quarto importador de produtos do istmo, muito distante de países como Equador, Guatemala e Coreia do Sul.

Cuba

O país caribenho é uma das economias mais fechadas do planeta: suas exportações representam apenas pouco mais de 7% do PIB. Além disso, o embargo (ou bloqueio, como é chamado na ilha) imposto por Washington na década de 1960 — a primeira exportação com destino aos EUA em quase 60 anos foi feita há três semanas — imuniza Cuba frente ao novo paradigma comercial norte-americano. O único impacto poderia vir por via indireta: seu maior parceiro comercial é a China, um dos principais inimigos do Governo Trump.

Porto de Xangai, na China, maior parceiro comercial do Brasil. Segundo maior é os EUA. REUTERS

República Dominicana

O país caribenho é um dos Estados latino-americanos que tem as exportações mais diversificadas aos EUA por grupos de produtos. Os instrumentos óticos e médicos representam 18% das vendas à maior potência mundial, seguidos do tabaco (11%), equipamentos de proteção contra oscilações de voltagem (8,6%), camisetas (5,6%), calçados de couro (5,2%) e joalheria (4,9%). As vendas aos EUA representam menos de 7% do PIB, o que o coloca no grupo de países de dependência média. As relações comerciais entre ambos países são regidas pelo tratado de livre comércio com a América Central: o CAFTA.

Venezuela

No caso da Venezuela, as exportações representam 4% do PIB de sua sofrida economia. O petróleo, com 85% em 2014 (uma cifra que foi de 89% em 2010), é o principal e quase único intercâmbio com os EUA, mas as oscilações no preço do petróleo bruto têm afetado a receita. Em 2009 foram recebidos 26,5 bilhões de dólares nesse item, a cifra subiu para 40 bilhões em 2011 e caiu para 28,2 bilhões em 2014. Muito atrás, o segundo item mais exportado são os produtos químicos (496 milhões de dólares em 2014). A Venezuela importa eletrônicos (principalmente equipamentos de telefonia) .

Colômbia

Como na vizinha Venezuela, o petróleo bruto desempenha um papel importante na relação com os EUA: em 2014, representava 52% das exportações, pouco antes de o preço do ouro negro despencar. No ano passado, o país deixou de receber entre 15 e 20 bilhões de pesos por esse motivo.

O outro ouro, o metal precioso, é a segunda matéria-prima na cesta de exportações e correspondeu 7,5% das vendas em 2014. O crescimento da mineração ilegal, dominada pelo narcotráfico e por grupos herdeiros dos paramilitares, redirecionou o negócio da droga para o metal. Segundo o último Relatório Mundial da ONU sobre as Drogas, os cartéis colombianos ganham de 941 milhões a 1,4 bilhões de euros por ano com as exportações de cocaína e heroína. Isso é apenas metade de sua receita com o ouro ilegal: entre 1,7 bilhão e 2,4 bilhões de euros.

Equador

O país andino que mais depende das exportações com os EUA é o Equador. Ao vizinho do norte foram destinados 41% de tudo que exportou em 2014. O petróleo corresponde a 67% do intercâmbio, mas a pauta inclui ainda crustáceos (7,7%) e bananas (quase 4%). O ouro, que também sai em grandes quantidades do país sul-americano, gera uma receita de 808 milhões de dólares.

Peru

A decisão de Trump também afetou outro país sul-americano, junto ao Chile, que integra o Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TTP). As relações do Peru com seu segundo maior cliente depois da China vão ficar mais complicadas. Em 2014, sua conta com os EUA chegou a 6,3 bilhões de dólares, ou 16,15% de suas vendas ao exterior em 2014, que movimentaram 39 bilhões de dólares. Um quarto das exportações peruanas aos EUA é constituído de petróleo e derivados.

Bolívia

Diferentemente de outras nações andinas, a Bolívia não depende tanto das exportações ao grande parceiro norte-americano (3% do PIB) e é um dos países que mais cresceram nos últimos anos, desde a chegada de Evo Morales ao poder. O ouro corresponde a 66% do intercâmbio, a que se somam os produtos de joalheria, prata e resíduos de metais preciosos, além de estanho bruto, quase 10% do total de exportações.

Chile

Dos 77 bilhões de dólares exportados pelo Chile em 2014, 9,3 bilhões, ou 12,12%, foram para os EUA – segundo maior comprador de exportações chilenas depois da China. Uma eventual redução das vendas não passará despercebida no país sul-americano: em 2014, 24% das vendas a Washington foram de cobre refinado, principal fonte de divisas para o Chile, além de pescados (15%) e uvas (15%).

As relações comerciais com os EUA são regidas por um Tratado de Livre Comércio (TLC) vigente desde 1º de janeiro de 2004. Mas o chanceler chileno, Heraldo Muñoz, já advertiu em novembro passado, assim que se confirmou a vitória de Trump, que é competência do republicano “abolir unilateralmente acordos de livre comércio, inclusive o do Chile”.

Embora Trump não tenha se referido ao TLC com o Chile, já deu um passo concreto na deterioração das relações comerciais com o país quando cumpriu sua promessa de retirar os EUA do TTP, um acordo com onze países da bacia do Pacífico promovido por Barack Obama, de que também faz parte o Peru.

Argentina

O Governo argentino insiste que seu país está bastante protegido de uma possível onda protecionista de Trump. Depois de 13 anos de kirchnerismo, que fazia forte oposição aos EUA, a relação comercial entre ambos os países se reduziu muito. As exportações aos EUA não são tão essenciais para a Argentina como para o México. Ainda assim, alguns produtores estão preocupados. Logo que chegou ao poder, Trump bloqueou a importação de limões argentinos autorizada por Obama. É só um gesto, e não é crucial, porque os limões argentinos ficaram 15 anos sem poder entrar nos EUA, mas representa um aviso do que pode vir.

As exportações da Argentina para os EUA correspondem a apenas 0,6% do PIB do país austral, em comparação com os 25% do México. Ainda assim, os EUA não deixam de ser um mercado importante. São o terceiro maior destino das exportações argentinas, depois de Brasil e China (para onde vai boa parte da soja, a estrela da cesta de exportações). Mas a Argentina não representa uma ameaça comercial para Trump, porque o país austral importa mais do que exporta para a grande potência: as exportações aos EUA representam 6% do total, enquanto as importações chegam a 14%.

Em 2014 a Argentina exportou o equivalente 69 bilhões de dólares, mas só 4,1 bilhões aos EUA. Boa parte dessas exportações, metade, é petróleo que será refinado naquele país e acabará voltando à Argentina (23% das importações), que tem uns graves problemas de abastecimento energético apesar do grande potencial de produção de petróleo e gás.

Uruguai

Uma realidade bem diferente enfrenta o Uruguai. Suas exportações somaram 9,2 bilhões de dólares em 2014, mas só 466 milhões corresponderam a vendas destinadas aos EUA (5% do total), apesar de ser seu terceiro maior cliente depois de Brasil e China. Mais de 50% dos envios corresponderam a carne bovina ou derivados.

Paraguai

O impacto de um possível maior protecionismo em Washington também será pouco perceptível no Paraguai. Os EUA não figuram entre os cinco maiores clientes (uma lista liderada por Brasil, Rússia e Chile). O total de exportações aos EUA, 209 milhões de dólares, representa apenas 2,7% dos 7,7 bilhões de dólares da receita do Paraguai com suas vendas ao exterior em 2014. O açúcar bruto corresponde a 28% das exportações paraguaias aos EUA, a soja corresponde a 22% e outras oleaginosas, a 3%.

Com informação de José Manuel Abad Liñán (Madri), Ignacio Fariza (Cidade do México), Tom C. Avendaño (São Paulo), Javier Lafuente e Ana Marcos (Bogotá), Carlos E. Cué e Federico Rivas Molina (Buenos Aires). Gráficos de David Alameda.

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