Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Rejeição de Trump ao tratado do Pacífico não será grave para a América Latina, diz FMI

Organismo qualifica situação econômica da Venezuela de “crise humanitária”

Christine Lagarde, diretora gerente do FMI
Christine Lagarde, diretora gerente do FMI EFE

O presidente Donald Trump não demorou a recorrer à sua autoridade executiva para colocar sua agenda em marcha, com uma ordem para retirar os Estados Unidos da Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês). O FMI considera a ação como um “freio importante à integração global”. No entanto, e apesar da importância do acordo para os países da América Latina, o organismo minimizou o impacto que essa rejeição terá para as economias da região.

Alejandro Werner, diretor do departamento que monitora a evolução econômica do mercado latino-americano, diz que o TPP representaria uma “modernização” dos acordos de livre comércio já assinados pelos países da região com os seus sócios comerciais do outro lado do Pacífico. Este novo marco, portanto, daria impulso ao crescimento potencial de longo prazo para a América Latina.

No entanto, com a retirada dos EUA do acordo, o risco é que todo o pacto comercial se desmorone. “Esse impacto positivo”, diz Werner, “obviamente não ocorrerá.” O FMI deixa claro, porém, que o efeito desse desfecho será “irrelevante” no curto prazo. Por isso, não afetaria as projeções apresentadas na semana passada para o conjunto da região.

O organismo dirigido por Christine Lagarde prevê um crescimento de 1,2% este ano para a América Latina, frente a uma contração de 0,7% em 2016. O único país onde o efeito da incerteza gerada por Trump se materializa é o México, que deve reduzir o ritmo da expansão de 2,2% do ano passado para 1,7% este ano. A cifra é também seis décimos menor que a prevista em outubro.

Uma das prioridades do novo presidente dos EUA é renegociar o NAFTA (acordo comercial entre EUA, México e Canadá), processo que acaba de começar com a assinatura de outra ordem executiva. O FMI procura conceder o benefício da dúvida à nova administração em Washington, indicando esperar que a tensão “diminua à medida que forem estabelecidos os parâmetros e as linhas de negociação do NAFTA”.

Depreciações

Com relação ao efeito da mudança de direção política dos EUA sobre as divisas latino-americanas, o FMI prevê que algumas economias poderiam sofrer novas depreciações adicionais frente ao dólar, devido à combinação entre o impulso fiscal e a alta dos juros. É o que diz a teoria, e também o mercado. Mas Werner afirma que a região “está bem preparada para operar com taxas de câmbio flexíveis”.

Em geral, o organismo prevê que a expansão econômica na América Latina será mais fraca que o esperado este ano, inclusive por causa do atraso na recuperação da Argentina e do Brasil. A economia brasileira, a maior da região, começa a se estabilizar com um tímido crescimento de 0,2% — a previsão anterior era de 0,5%. Já a Argentina deve crescer 2,2%, praticamente a metade do que projeta a Casa Rosada.

O FMI atribui essa diferença ao fato de não dispor de um modelo estatístico confiável para a Argentina. Mas, ao mesmo tempo, indica que a economia do país enfrenta um processo de transformação estrutural muito importante e que a recuperação do investimento tende a ser mais lenta do que se estima. Nisso também influem a situação do Brasil e a evolução das condições financeiras internacionais.

O ponto crítico é a Venezuela, que, nas palavras de Werner, vive uma “crise humanitária”. A contração do PIB foi de 12% em 2016 e deve ser de 6% este ano. Não porque as coisas estejam melhorando, e sim porque a queda do consumo não é tão precipitada. “A situação continuará muito dura para o cidadão”, conclui Werner, lembrando que o país teria fechado o ano com uma inflação de 700%.

Os males são conhecidos. As distorções econômicas são “enormes”, segundo os técnicos do FMI, além das restrições impostas por Caracas às importações de bens. Por outro lado, a aparente melhora estatística nas projeções de 2017 ocorre porque a renda do petróleo já não teria a mesma queda dos anos anteriores.

MAIS INFORMAÇÕES