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Livros, curso de teclado: Os planos de um ex-executivo da Odebrecht para os anos de prisão

Acostumados a planejar os rumos de uma das maiores empresas do país, os delatores agora planejam o ócio da prisão domiciliar

A semana que passou foi marcada pela homologação dos depoimentos dos 77 delatores da Odebrecht. Na sequência, a nomeação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, para a relatoria da Lava Jato. Enquanto a opinião pública espera pelos próximos passos da Operação, os ex-executivos da companhia aguardam o início do cumprimento de suas penas.

REUTERS

Muitos desses delatores pertenciam ao alto escalão da Odebrecht. Viajavam, viviam maratonas de reuniões, jantares caros, agenda com nomes de destaque do mercado empresarial e da política brasileira e internacional. Estavam acostumados com uma rotina agitada. Mas depois de passar anos a planejar os rumos de uma das maiores empresas do país, eles agora se dedicam a planejar o ócio.

A reportagem do EL PAÍS esteve com um dos 77 executivos nesta semana, que será chamado aqui de senhor O. Da sala da casa onde vive, senhor O. afirmou que não está ansioso ou nervoso. Ao longo de uma hora e meia de conversa, não tomou nenhum café. Não bocejou, mas também não parecia agitado. Não aparentava ter dormido pouco ou mal. De fato, parecia sereno e ciente das privações que o esperam.  Na prisão domiciliar, regime que ele cumprirá pelos próximos anos, há três formas de privação: regime fechado, quando o apenado não pode sair em momento algum de casa; semiaberto, quando pode sair de segunda à sexta-feira em horário comercial; e aberto, podendo sair de casa durante toda a semana, mas tendo que voltar para casa no final de semana. Os delatores da Odebrecht poderão passar por essas três penas, cada um por um tempo diferente. Embora não se comparem às penas em prisões comuns, o impacto na mudança de vida angustia. "O que eu mais vou sentir vai ser ficar esses anos todos sem fim de semana", admitiu senhor O. "Eu gosto de ser gente", disse.

Pagar a sentença é um alívio, em todo caso, depois de um processo complexo que durou meses. Ao longo do segundo semestre do ano passado, 77 ex-executivos da Odebrecht produziram horas de depoimentos para contar o que sabiam e, assim, tentar colaborar com as investigações da Operação Lava Jato. Em troca, as chamadas delações premiadas devem atenuar as penas pelos crimes como corrupção e lavagem de dinheiro que muitos deles respondem.

Agora, resta planejar o que fazer com o tempo livre. Há notícias de que um deles está instalando um isolamento acústico em um dos cômodos da casa para fazer aulas de bateria sem incomodar os vizinhos. Outros pretendem aprender línguas, desde mandarim, passando pelo alemão e aprimorando o inglês. Fazer aulas de teclado, culinária ou mesmo se arvorar por um curso universitário à distância também está no horizonte de outros.

Senhor O. cogitar ter aulas de história. "Penso em, uma vez por semana, discutir um tema, como, por exemplo, Getúlio Vargas", diz o ex-executivo. Ele está fazendo um estoque de livros para ajudar a preencher o tempo livre. "Comprei vários, mas li um monte no final do ano. Vou ter que comprar mais", disse o ex-executivo. "Se eu ficar parado, enlouqueço".

Diante da privação da liberdade de sair de casa por um longo período, mudar para a casa de praia ou de campo está nos planos de alguns. Prédios ou casas em condomínio estão sendo cobiçados por outros. Isso porque as penas permitem algumas horas diárias de banho de sol, o que poderia ser feito na área comum dos prédios ou das casas em condomínios fechados. Para monitorá-los, a Justiça aplicará tornozeleiras eletrônicas.

A conversa de EL PAÍS com senhor O. aconteceu antes da nomeação do ministro Edson Fachin como relator da Lava Jato. Mas enquanto o Brasil acompanhava ansiosamente a mudança de relator, para o senhor O. já não fazia diferença quem seria o substituto do ministro Teori Zavascki na condução dos processos da Lava Jato no Supremo. “A peça fundamental para mim agora é quem será o juiz de execução”, diz. Ninguém ainda sabe qual ou quais juízes exercerão essa função que é de, por exemplo, conceder exceções ao longo das penas, como poder participar de uma festa de família.

Senhor O. conta que nunca imaginou que estaria nessa posição. Revela que só começou a ficar preocupado no dia 22 de fevereiro do ano passado, quando a secretária do setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, Maria Lucia Tavares, foi detida durante a Operação Acarajé, a 23ª fase da Lava Jato. "Naquele dia eu falei: 'vai dar merda'", conta. Maria Lucia fazia a planilha que documentava os repasses da empreiteira para políticos dentro do setor, que recebeu a alcunha de “Departamento de propinas” quando foi descoberto. Foi Maria Lucia quem acabou abrindo a caixa de Pandora da companhia.

Não foi à toa que os executivos tremeram nessa hora. As revelações feitas por Maria Lucia foram uma flecha no coração da Odebrecht, e ajudaram a sepultar o discurso que a companhia até então sustentava de nunca ter pago propina a políticos. Depois disso, o presidente Marcelo Odebrecht, que estava preso preventivamente desde junho de 2015, foi condenado a 19 anos de prisão.

Naquele momento, a Odebrecht, que resistia firmemente à estratégia de colaborar com as investigações, viu-se obrigada a se dobrar à Justiça. Os executivos, que até então negavam a ferro e fogo a autoria dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa, recuaram e passaram a negociar suas delações.

Agora, quase um ano depois, o maior volume de delações foi enfim homologado. Caberá à Procuradoria-Geral da República analisar os depoimentos e determinar o que será ou não investigado. Novos desdobramentos virão atingindo políticos de todos os partidos. A essa altura, o senhor O. e os demais delatores da Odebrecht já estarão cumprindo suas penas.

Fe de errores

Em um primeiro momento, foi publicado que Maria Lúcia Tavares era secretária de Marcelo Odebrecht. O erro foi corrigido.

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