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Casos de febre amarela aumentam em Minas Gerais e geram apreensão

Segundo Governo, já são 152 ocorrências suspeitas no Estado, com 22 óbitos prováveis pela doença

Mulher prepara vacina da febre amarela em Caratinga, Minas Gerais.
Mulher prepara vacina da febre amarela em Caratinga, Minas Gerais. AFP

Erradicada do meio urbano brasileiro desde 1942 e sem números significativos de casos em áreas rurais desde 2009, a febre amarela voltou a trazer preocupações para as autoridades sanitárias do Brasil. Um surto da doença no interior de Minas Gerais pode ter relação com 47 mortes desde o início deste ano, sendo que 22 delas já são consideradas como "prováveis" (quando já houve um exame positivo para o vírus, mas investigações mais aprofundadas ainda estão sendo feitas antes da confirmação). Além disso, segundo dados divulgados na tarde desta segunda-feira, os serviços de saúde no Estado já notificaram 152 casos suspeitos da doença (37 deles prováveis) em 24 municípios – 14% a mais do que o registrado há três dias. O aumento contínuo de casos desde o início do ano fez com que o Estado declarasse, no último dia 12, situação de emergência em saúde pública, uma decisão que possibilita compras e contratações de pessoas sem licitação.

Se essas ocorrências tiverem como causa confirmada a doença, elas elevarão, e muito, o número de registros de febre amarela no país nos últimos anos. Entre julho de 2014 e dezembro de 2016, o Ministério da Saúde confirmou a ocorrência de 15 casos, a maior parte deles em Goiás (9). Estes dois anos e meio são considerados pelo órgão como o período de "reemergência do vírus na região extra-amazônica", segundo um boletim. Antes, os últimos anos com maior registro de casos confirmados haviam sido 2009 (47, sendo 28 em São Paulo) e 2008 (44; 12 no Distrito Federal). Desde 2009, Minas Gerais não registrava uma única ocorrência humana de contágio dentro do Estado. "Devido ao número de casos e de municípios envolvidos, podemos afirmar que este é o maior surto da doença ocorrido em Minas Gerais até o momento", afirmou ao EL PAÍS o subsecretário de Vigilância e Proteção à Saúde do Governo, Rodrigo Said. Ele ressalta que os números devem aumentar no decorrer da semana, pois muitos sistemas ainda estão fazendo a notificação oficial.

O surto de febre amarela em Minas é no meio rural e não urbano. A doença é habitual em macacos, que a transmitem ao serem picados pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes, que residem na mata. Esses mosquitos se contaminam ao picar macacos doentes e, assim, se tornam os vetores da doença, podendo transmiti-la para outros macacos e para humanos. A picada deles, entretanto, acontece apenas em áreas rurais. "As primeiras notificações da doença nos mostram que são casos de pessoas que residem muito perto de áreas de mata", explica Said.

Apesar de estar em uma área considerada de preocupação para a doença, desde um surto ocorrido no final de 2002 que deixou 23 mortos, Minas Gerais ainda tem uma cobertura vacinal contra a febre amarela baixa, o que contribuiu para que a doença se espalhasse, destaca o subsecretário. Segundo ele, já foram enviadas 667.000 doses de vacina para a região do surto, outras 450.000 devem chegar até a próxima quarta-feira e mais um milhão foram pedidas para o Ministério da Saúde. "Temos uma grande preocupação em evitar a chegada da doença na área urbana", explica.

A chegada da doença em meio urbano, onde ela não circula há mais de 70 anos, poderia ser catastrófica. Nestes ambientes, o transmissor da doença é o popular Aedes aegypti, responsável pela transmissão da zika (que causou uma epidemia de microcefalia), chikungunya e dengue, doenças com surtos frequentes no país, o que mostra que a proliferação deste mosquito está bastante descontrolada. Para que a transmissão urbana da febre amarela ocorra, é preciso que uma pessoa infectada na área rural circule pelo meio urbano e seja picada por um Aedes. O mosquito, então, passaria a contaminar todos que não estejam vacinados ou que não tenham contraído a doença antes, o que já serve como imunização natural.

"Isso é uma grande preocupação, especialmente porque as áreas urbanas estão infestadas de Aedes aegypti, que também é transmissor da febre amarela", afirma Marcia Chame, bióloga da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Coordenadora do Programa Institucional Biodiversidade e Saúde Silvestre da instituição, ela afirma que a não proliferação da febre amarela em meios urbanos brasileiros até agora é uma espécie de enigma para os pesquisadores. "Por que isso ainda não aconteceu? A gente também não sabe, não tem explicação. Pode acontecer a qualquer momento, a preocupação é enorme. A gente está vivendo zika, chikungunya e dengue com um hospedeiro que tem potencial para transmitir febre amarela", ressalta ela.  

Degradação ambiental

Não se sabe exatamente o que pode ter causado o atual surto em Minas Gerais, nem o aumento de casos extra-amazônicos da doença no país nos últimos anos. O infectologista Celso Granato, do Fleury, afirma que existe um ciclo natural da febre amarela entre os macacos, que varia conforme o clima e a época. "O período de chuva facilita a procriação do mosquito e quando aumenta muito a população de macacos tende a haver mais surtos, já que eles são extremamente sensíveis à febre amarela", explica. O surto em Minas foi precedido pelo aumento de morte de primatas contaminados pela doença tanto em áreas mineiras como no Espírito Santo. "A ocorrência de aumento de febre amarela na floresta é esperado. O que não é esperado é que ela passe para a população humana", ressalta Granato. Para ele, o aumento de casos entre os humanos têm, provavelmente, relação com a diminuição da cobertura vacinal. 

"A degradação acaba levando ao sumiço de espécies que estão dentro de uma mata. As que conseguem sobreviver são, geralmente, as que tem uma capacidade maior de viver em ambientes degradados"

A pesquisadora da Fiocruz ressalta que outro fator importante a ser considerado é a questão ambiental. "Fora da Amazônia, o que a gente observa é que esses surtos estão sempre relacionados a lugares de fragmentos de matas muito pequenos. A gente vem trabalhando com uma modelagem matemática pesada e relacionando esses surtos com 7.200 parâmetros ambientais, mas ainda não conseguimos chegar a uma resposta [para as causas do aumento]. A dinâmica da doença é complexa. Mas sabemos que em outras doenças transmitidas com vetores há relação da degradação ambiental com o aparecimento dessas doenças", afirma ela. "A degradação acaba levando ao sumiço de espécies que estão dentro de uma mata. As que conseguem sobreviver são, geralmente, as que tem uma capacidade maior de viver em ambientes degradados e, normalmente, elas são boas transmissoras de doença", explica. "Acaba sendo um cenário comum: a perda da biodiversidade levando a uma simplificação do ambiente, com poucas espécies. Os mosquitos, encontrando um número menor de indivíduos [macacos], vão buscar sangue humano."

A área onde ocorre o surto atual é próxima do local onde houve o maior desastre ambiental do país: o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, que completou um ano em novembro passado. O rejeito da barragem chegou até Linhares, litoral do Espírito Santo. A pesquisadora afirma, entretanto, que não é possível correlacionar os dois episódios, já que não existem estudos sobre o tema. "O desastre de Mariana é mais um fator de degradação que deve ser considerado na análise, mas ninguém pode dizer que é o único", ressaltou ela. Em nota, a Fundação Renova, criada para cuidar dos danos da tragédia pela Samarco, gestora da barragem, afirmou que "irá mobilizar especialistas para promover um painel de debates em torno do assunto". "Trata-se de uma fronteira de conhecimento e a Renova acredita que o avanço científico deve ser buscado, de forma compartilhada, em prol da coletividade, independentemente de uma possível relação entre os episódios atuais e o rompimento da barragem", destacou.

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