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Por que a revelação sobre o estupro em ‘O Último Tango em Paris’ só causou choque agora?

Filme foi lançado há 44 anos, há 10 anos Maria Schneider denunciou o caso

Então por que a revolta de Hollywood só agora? A cultura do estupro explica

Maria Schneider e Marlon Brando em cena.

Aconteceu em 1972, Maria Schneider denunciou abertamente em 2007 e Bernardo Bertolucci confirmou em 2013. No entanto, foi em 2016 que o tratamento recebido pela atriz durante a famosa cena de estupro de O Último Tango em Paris gerou uma enorme polêmica em Hollywood e no resto do mundo. A indústria cinematográfica norte-americana manifestou nas redes sociais seu repúdio pelo comportamento do diretor do filme e do protagonista masculino, Marlon Brando. Ambos acordaram não revelar a Schneider, à época com 19 anos, os limites a que a cena chegaria, que inclui uma sodomia simulada, para que a reação da jovem fosse a mais verdadeira possível. “Queria sua reação como menina, não como atriz", admitiu o cineasta, confirmando o que a atriz já havia contado há quase dez anos: a cena de estupro não foi consentida por Schneider.

Como publicado nesta segunda-feira, o portal espanhol El mundo de Alycia conseguiu na semana passada o vídeo de 2013, por ocasião do Dia Internacional contra a Violência de Gênero. Bertolucci, diretor de 1900 (1976), Beleza Roubada (1996) e Os Sonhadores (2003), admitiu então ter enganado sua atriz. E afirmou ainda que, embora sentia-se "culpado", não se arrependia do que fez, embora Schneider, que morreu em 2011, tenha revelado anos antes de morrer que a cena lhe causou profundos traumas: "Senti-me humilhada e, para ser honesta, um pouco violentada por Marlon e Bertolucci", afirmou, ao jornal britânico Daily Mail.

Uma das primeiras reações de repúdio veio por parte de um homem, o ator Chris Evans. A cantora e atriz Anna Kendrick dialogou neste fim de semana com ele lamentando que o assunto não tenha sido levado a sério até agora.

Jessica Chastain também mostrou sua repulsa com um comentário respondido pela estrela da série World West (HBO), Evan Rachel Wood.

Rachel Wood admitiu há alguns dias à Rolling Stone ter sofrido agressões sexuais na juventude, para pouco depois publicar uma carta no Twitter aumentando seu depoimento.

“Nunca mais assistirei a esse filme e nem a outros filmes de Bertolucci e Brando. Vai além do asqueroso. Sinto raiva”

“Ela disse isso há anos. As pessoas costumavam fazer cara de tédio quando eu levantava o assunto (refiro-me aos homens)”

“Não estava sabendo. Teria sentido a mesma raiva. Deveriam ter ido para a cadeia”

“Não duvido disso. Não era tratada como uma questão relevante. Fico feliz que pelo menos agora seja levada a sério”

Ava DuVernay, diretora de Selma (2013), afirmou sobre a polêmica de O Último Tango em Paris: “Imperdoável. Como diretora mal posso imaginar; como mulher, estou horrorizada, desgostosa e cheia de raiva”.

“A todos os que gostam desse filme: estão vendo uma menina de 19 anos sendo estuprada por um homem de 48. O diretor planejou essa agressão. Fico doente”.

“Eu concordo. É desalentador e irritante. Os dois são doentes se acham que isso estava certo”

Por que a polêmica não aconteceu antes?

Quando Maria Schneider morreu, em 2011, quase todos os obituários lembraram as palavras que havia pronunciado alguns anos antes em sua entrevista ao Daily Mail. Nela, falou sobre como se sentiu violentada e das consequências psicológicas que arrastava desde então. Seu depoimento, portanto, não tinha passado despercebido. Simplesmente não tinha produzido um sentimento de repulsa como aconteceu agora.

O texto do The New York Times recuperou algumas palavras de Bertolucci nas quais justifica a escolha da atriz para o papel definindo-a como “uma Lolita, mas mais perversa”. Em suas declarações de 2013, o diretor admitiu que Brando e ele jogaram com a ignorância e a inocência de Schneider para obter um melhor resultado diante da câmera.

O cineasta já reagiu à polêmica: “É um assunto ridículo. Tudo estava escrito no roteiro menos o caso da manteiga. A violência já estava lá”, diz agora. Em suas declarações de 2013, afirmou: “Queria que Maria sentisse, não representasse, a raiva e a humilhação”.

Cultura do estupro

A polêmica relacionada com 'O Último Tango em Paris' condiz com os padrões da cultura do estupro.

A polêmica relacionada com O Último Tango em Paris condiz com os padrões da cultura do estupro, cujos conceitos incluem: a normalização do impulso agressor, a impunidade e a culpabilização da vítima e a necessidade de gravar a agressão estavam entre eles. Todos parecem se concretizar nesse caso.

O The Washington Post pergunta por que esse assunto não levantou polêmica até agora. O caso de Bill Cosby, acusado de estuprar dezenas de mulheres durante décadas, é para o jornal um exemplo da mudança recente que aconteceu em Hollywood na hora de enfrentar o assédio sexual. As denúncias eram conhecidas há anos, mas só em 2014 se tornou notícia e tema de debate, lembra o jornal. Antes desse assunto, casos como o de Bertolucci, Brando e Schneider não provocavam tal controvérsia.

No final de outubro, Tippi Hedren denunciou mais fortemente do que nunca o tratamento que recebera de Alfred Hitchcock durante a rodagem de Os Pássaros. Ela lembrou uma situação semelhante àquela vivida por Schneider, quando o diretor não a avisou que os ataques das aves seriam mais reais do que poderia esperar. Embora todo mundo tenha comentado sobre a complicada relação entre ambos, foi a atriz que teve de pronunciar o termo assédio sexual.

Também foram muito comentadas as relações entre Lars Von Trier e Björk, Stanley Kubrick e Shelley Duvall ou Kechiche e Léa Seydoux. Diante de um padrão tão evidente, por que aceitamos que as atrizes sejam martirizadas?, perguntou a revista Cinemanía em abril deste ano. A pergunta continua sem resposta.

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