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Com caixas-pretas, autoridades investigarão falhas em avião da Chapecoense

Regras da ANAC proibiram voo da Lamia de sair de Guarulhos direto para a Colômbia

Acidente chapecoense aviao
Trabalhador do resgate em meio aos destroços. REUTERS

As causas do acidente com o avião da Chapecoense que matou 71 pessoas na Colômbia ainda estão sendo investigadas. Na tarde desta terça-feira, as caixas-pretas da aeronave foram localizadas pela equipe de buscas. Sabe-se que o avião perdeu contato com o radar após 4h40 de voo, já próximo ao aeroporto internacional da cidade de Medellín, quando estava a 15.550 pés, a uma velocidade em queda, segundo a rota registrada no site Flightradar, um sistema que monitora aeronaves. De acordo com as autoridades colombianas, a aeronave se comunicou com a torre de comando se "declarando em emergência com falhas elétricas" momentos antes. A mesma aeronave, segundo o mesmo site, havia feito um outro voo horas antes, em um trajeto de 40 minutos entre Cochabamba, também na Bolívia, e Santa Cruz de la Sierra.

Rodrigo Spader, presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, pondera que um acidente aéreo é decorrente de diversos fatores. "Poderia haver fadiga dos pilotos, uma falha do avião, uma somatória de fatores", explica ele. Spader chama a atenção que a rota percorrida pelo voo esteja muito próxima da autonomia deste tipo de aeronave. Segundo a consultoria alemã para dados de acidentes aéreos JACDEC, a distância entre os aeroportos de Santa Cruz de la Sierra e Olaya Herrera, em Medellín, é de 2.975 quilômetros, e até o aeroporto internacional de Medellín é de 2.965 quilômetros. O alcance oficial máximo de uma aeronave Avro RJ85, como a da Lamia, é de 2.965 quilômetros, ou seja, bastante justo para essa viagem. Para distâncias maiores, a aeronave precisaria necessariamente reabastecer.

Segundo o JACDEC, com base nos dados do Flightradar, a situação do tráfego aéreo era complexa no momento do pouso da aeronave da Lamia. Algumas aeronaves entraram num padrão de espera próximo ao aeroporto internacional e ao menos três esperavam sua vez na frente do avião que transportava os jogadores da Chapecoense. Um deles, da ViVaColombia, havia cancelado seu voo para San Andres e retornava ao aeroporto, o que pode indicar alguma emergência, o que o colocaria na frente de outros voos já na espera.

Críticas da ANAC à Lamia

A aeronave da companhia Lamia deveria sair, inicialmente, do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Mas, após uma proibição da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), por motivos burocráticos e não técnicos, o avião teve de partir de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

Segundo a Anac, o pedido da Lamia para pouso no aeroporto de Guarulhos foi feito na última sexta-feira, 25. No domingo, dia 27, a Anac informou à companhia que o voo não seria autorizado porque o acordo de serviços aéreos entre Brasil e Bolívia não prevê operações como a solicitada. Segundo relato do prefeito de Chapecó, Luciano Buligon, o piloto da aeronave, com quem ele e o time já haviam voado anteriormente, ligou para ele às 9h da segunda-feira, informando do problema. "Ele ligou dizendo que a Anac não havia liberado o voo em Guarulhos", contou ele, na TV Globo. Por isso, o grupo decidiu sair do Brasil em um voo comercial da Boliviana de Aviación para Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, onde embarcou, finalmente, no voo da Lamia, para Medellín.

Ao EL PAÍS, a agência afirmou que a Lamia enviou entre outubro e novembro deste ano seis pedidos de voo para a Anac. Dos seis pedidos, apenas dois foram autorizados. "Os motivos das negativas envolvem a falta de autorização da Organização de Aviação Civil Internacional (ICAO) para voos comerciais para a empresa, infraestrutura aeroportuária inadequada para a operação [solicitada] e rota que fere a sétima liberdade do ar", ressaltou em nota. A sétima liberdade do ar, um conjunto de regras internacionais, é o direito de transportar passageiros, carga e correio entre o "o território de outro Estado contratante e o território de terceiro Estado, sem que haja qualquer ligação com o Estado sede do transportador". Seria esse o caso do voo dos atletas do Chapecoense: uma empresa aérea boliviana que pretendia transportar passageiros do Brasil para a Colômbia, sem que houvesse um acordo específico para isso. 

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