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Neymar gosta de farra

Brasileiro revoluciona o jogo com fintas e assistências, ao mesmo tempo em que provoca os adversários

Neymar, diante de Scott Brown, no Celtic Park. Ampliar foto
Neymar, diante de Scott Brown, no Celtic Park. EFE

Alba se fez desentendido até que o árbitro, e também o banco do Barça, o avisassem da substituição. Piqué também aderiu à zoeira e, antes de entrar no túnel dos vestiários, se aproximou do árbitro para um aperto de mãos, na esperança de roubar mais alguns segundos do cronômetro. Neymar, por sua vez, não fez a mínima questão de dissimular; baixou as meias, tirou as caneleiras, guardou um tempo para lançar um último olhar desafiador a Lustig – com quem andara às turras durante a vitória diante do Celtic, pela Champions League – e nem fez menção de acelerar o passo até chegar à lateral e espalmar as mãos de Arda. Divertiu-se com o carinhoso empurrão que Luis Suárez lhe deu pelas costas, com a possibilidade de ser expulso – o homem do apito se justificava aos jogadores do Celtic com a mão no relógio, indicando que faria os acréscimos necessários – e, sobretudo, com os persistentes gritos recriminatórios da torcida, que pegou ojeriza do atacante. “Para mim é uma torcida exemplar”, esquivou-se Luis Enrique depois do jogo, ao mesmo tempo em que defendia o seu jogador.

“Neymar é um pouco brincalhão… E que não mude!”, diz uma fonte do vestiário azul-grená, onde todos se mostram despreocupados com o alvoroço que o cerca e despreocupados com o fato de todos os meses ser reaberto algum processo judicial envolvendo sua contratação. Antes do duelo de Glasgow, por exemplo, o Ministério Público espanhol e a empresa brasileira DIS, que detinha 40% dos seus direitos federativos no Santos FC, pediram à Justiça que condene o jogador a dois anos de prisão, além de seu afastamento por bloquear o mercado.

Mas o 11 convive eternamente com a polêmica, porque logo vem um técnico criticar seu penteado, torcedores o vilipendiam por seu comportamento, ou mesmo um ex-jogador como Michael Laudrup o recrimina por pisar na bola, “porque provoca”. Algo que Luis Enrique nega, mas que seu antecessor, Tata Martino, admitia: “Tem um estilo de jogo que convida à violência”. O dirigentes do Barça, porém, se mostram contundentes. “Não queremos que mude, porque ele é assim, e assim obtém seu melhor futebol. Não provoca ninguém, o que ele quer é ganhar”, afirma um deles. E Rakitic amplia: “Está muito relaxado, muito tranquilo. São coisas que vão se repetindo e parece até chato se os adversários não lhe tocam. O grupo está 100% com Ney.” Está, entre outras coisas, porque ele é o maior garçom da Champions League – sete assistências, à frente das quatro de Dembélé (Dortmund), Salvio (Benfica) e Cristiano Ronaldo (Real Madrid) –, além de outras quatro assistências no Campeonato Espanhol.

Neymar e Lustig, na partida no Celtic Park. ampliar foto
Neymar e Lustig, na partida no Celtic Park. REUTERS

Mas Neymar não só faz passes como também, driblador por definição que é, entusiasma com seu ziguezague. “Há pouquíssimos jogadores com essa capacidade de drible, com essa habilidade para partir. Já reparou na mudança de ritmo? Não há quem o apanhe”, conta Piqué. “Mas, se você olhar as pernas dele, são um poema de tanto hematoma”, acrescenta uma fonte no vestiário. Não por acaso, é o maior alvo de faltas no Campeonato Espanhol (47, à frente das 42 sofridas por Petros e as 34 de Vitolo). O treinador Muricy Ramalho o aconselhou a sair do Brasil porque, se não, iria ter as pernas quebradas – “driblava mais, e por isso lhe davam mais pontapés” –, e Neymar aceitou o desafio de triunfar diretamente no Barça, sem escala prévia em outro clube europeu, algo que só outro brasileiro conseguiu: Evaristo de Macedo, na década de 1950.

Mas, rebelde como é, gosta dos desafios e da farra. “Se você lhe dá um chute num treino, ele vem atrás de você para lhe meter uma caneta. É muito competitivo”, revela Sergi Roberto. Por isso, não causou estranheza que tivesse vários esbarrões com Lustig, cavando para si próprio um cartão amarelo e uma suspensão no último jogo da fase de grupos, contra o Borussia Moenchengladbach – o Barça já assegurou o primeiro lugar. Bem diferente é a possibilidade de levar um amarelo contra a Real Sociedad, no domingo, porque está a um cartão de completar o ciclo, e por isso perderia o confronto contra o Real Madrid. Sendo assim, é possível que Luis Enrique o poupe. Os rivais sabem que quando o procuram o acham. E seus colegas também – na forma de assistências e jogadas surpreendentes.

Ninguém dribla como o 11

Com Neymar em campo, o Barça é mais completo: obriga o lateral a ficar mais aberto, o que permite que o jogo saia mais pelas pontas e que por aí apareça Messi. Grudado à linha de cal é onde melhor o brasileiro se expressa, onde tenta e consegue dribles como ninguém. Bem na Champions (22 em 47 tentativas), líder nessa estatística, seguido por Lemar (Monaco) e Messi (16 ambos); bem também no Espanhol (53 de 93), acima do valencianista Cancelo (35 dribles) e dos atleticanos Filipe Luis (32) e Carrasco (30).

Ainda nesta semana, durante um evento comercial, Messi declarava que a organização tática, básica para ganhar jogos e títulos, é mais importante que qualquer personalismo. “Não é assim”, afirmou, sobre a suposta messidependência barcelonista. “Por acaso estou no Barcelona, que é a melhor equipe do mundo e não depende de um só jogador.”

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