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J. M. Coetzee: “Entre meus censores havia colegas da universidade”

O Nobel de Literatura, que publica um novo romance, fala de seu compromisso ético e social

O escritor J.M Coetzee, em uma imagem de janeiro de 2003.
O escritor J.M Coetzee, em uma imagem de janeiro de 2003. Fairfax Media via Getty Images

John Maxwell Coetzee, prêmio Nobel de Literatura em 2003, é um dos grandes escritores vivos e um dos mais esquivos. Nasceu na Cidade de Cabo (África do Sul) há 76 anos e vive na Austrália. Desde que estreou em 1974 com o romance Dusklands, não deixou de publicar ficção e ensaio, mas não gosta de entrevistas e se nega a falar de sua própria obra. Na próxima quinta-feira, ele dará uma conferência no Museu Reina Sofía de Madri sobre seu compromisso com “diversos motivos éticos universais”. Por esse motivo, Coetzee concordou em responder por email algumas perguntas do EL PAÍS.

Pergunta. Quando o senhor teve consciência da necessidade de defender os direitos dos animais? Viu algo? Leu algo?

Resposta. Tenho minhas dúvidas quanto ao conceito de “direitos dos animais”. O direito mais importante é o direito à vida. Dado que é extremamente improvável que alguma vez se conceda aos animais esse direito, prefiro defender a ideia de que os seres humanos deveriam sentir que têm certos deveres em relação aos animais.

P. Que deveres?

R. Os direitos pertencem à esfera da lei; os deveres, à esfera da ética. Quando você não cumpre seus deveres, sente-se envergonhado. Ou seja, o sentimento de vergonha é um bom indicativo de que você não os cumpriu. Eu me envergonharia de mim mesmo se infligisse dor a um animal deliberadamente. No entanto, o assunto é muito mais complicado. Primeiro porque há gente que, honestamente, não sente essa vergonha. Segundo, porque eu mesmo não a sinto se mato, por exemplo, um mosquito. Não tenho ilusões de que seja fácil construir um código ético apoiado nos deveres.

P. Há pessoas que consideram as touradas uma parte da cultura. O senhor tem argumentos contra esse álibi cultural?

R. Se a luta entre o homem e o touro fosse mais equilibrada, eu teria mais respeito pelas touradas. No entanto, está tão manipulada que o touro não pode ganhar nunca. Por isso, acredito que as touradas não passam de uma forma ritualizada de matança.

P. Quando fala das touradas em seu romance Elizabeth Costello, o senhor as relaciona com o primitivo e o masculino. Acredita que há relação entre o machismo e os maus-tratos de animais?

R. Várias mulheres casadas me confessaram que em suas casas se consumiria menos carne se seus maridos não a exigissem em cada refeição.

P. Na quinta-feira, o senhor estará na Espanha falando em um foro sobre os animais. No mês passado, foi à Palestina. Como sul-africano, diria que os palestinos sofrem uma espécie de apartheid?

R. Durante uma conferência que dei em Ramallah, na Cisjordânia, em 26 de maio, fiz a seguinte declaração: nunca acreditei que leve a nenhuma parte usar a palavra apartheid para descrever o sistema criado na Palestina pelo regime israelense. É o mesmo que ocorre quando se usa a palavra genocídio para definir o que aconteceu na Turquia [com os armênios] há 100 anos: isso rebaixa a análise e nos desvia para uma disputa semântica inflamada. O apartheid foi um sistema de segregação forçada baseada na raça e na etnia, praticada por um grupo excludente e autoproclamado para consolidar uma conquista colonial e, em particular, para manter e estender seu domínio sobre uma terra e seus recursos naturais. Em Jerusalém e na Cisjordânia, para falar só de Jerusalém e Cisjordânia, o que temos é um sistema de segregação forçada baseada na religião e na etnia, praticada por um grupo excludente e autoproclamado para consolidar uma conquista colonial e, em particular, para manter e estender de fato seu domínio sobre uma terra e seus recursos naturais. Tire suas próprias conclusões.

P. O senhor escreveu um livro inteiro contra a censura, no qual dizia que ela é um sinal de debilidade e não de fortaleza. O que pensou quando leu os informe dos censores sul-africanos sobre seus próprios romances?

R. Não conheci a identidade dos censores que julgaram meus livros até que, nos anos noventa, foram abertos ao público os arquivos do Governo do apartheid. Foi aí que descobri que entre esses censores havia colegas meus da Universidade da Cidade do Cabo. Em outras palavras, que eu tinha convivido diariamente com pessoas que, em segredo – pelo menos, em segredo para mim −, estavam julgando se me deixavam ser publicado e lido em meu próprio país. Assombrou-me que, além disso, parecesse aceitável para eles manter relações cordiais com escritores – incluído eu − a quem estavam julgando em segredo.

P. O senhor tem escrito muito sobre outros escritores. Quem gostaria que ganhasse o Prêmio Nobel?

R. Acredito que Javier Marías deve ser um forte candidato.

Em agosto, novo livro

Há três anos J. M. Coetzee publicou seu último romance, A Infância de Jesus, uma espécie de distopia em que um homem e um menino, sem nome e sem idade, chegam a um país desconhecido. Aquela busca de uma nova vida já tem uma continuação – The Schooldays of Jesus −, que, conta o próprio Coetzee, será publicada em agosto na Holanda e em setembro no Reino Unido. A Penguin Random House, que editou todos os livros de Coetzee em espanhol, lançará a tradução espanhola entre fevereiro e março de 2017.

Nesse país ao que chegaram seus protagonistas só se fala espanhol. Embora refratário a analisar sua obra, Coetzee explica que escolheu essa língua porque seus personagens “dão como certo que no novo mundo também se falará inglês”. Por quê? Porque “há certa arrogância em algumas pessoas que falam inglês, que acreditam que seu idioma merece ser o dominante no mundo”. O escritor não responde quando indagado sobre se Elizabeth Costello, a romancista vulcânica e vegetariana que protagoniza seu livro homônimo, é seu alter ego. Mas, quer fale dos animais, da Palestina ou de seus próprios leitores, Coetzee poderia assinar suas palavras: “Sou uma anciã. Já não tenho tempo para dizer coisas que não penso”.

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