A cruel morte da onça Juma que envergonhou o comitê olímpico

Felina foi exibida acorrentada durante passagem da tocha olímpica em Manaus. Depois fugiu e foi abatida. Morte chocou internautas

Uma das últimas fotos de Juma, uma onça-pintada de cerca de 9 anos, mostra a felina acorrentada e de boca aberta enquanto à sua frente acontece a passagem da tocha olímpica por Manaus (AM). Logo depois, com a cerimônia encerrada, Juma tentou fugir, avançou em um militar e acabou sendo morta a tiros. O acontecimento causou comoção nas redes sociais, foi notícia internacional e acabou motivando um pedido de desculpas dos organizadores dos Jogos Olímpicos. Mas também escancarou o absurdo de uma tradição permitida por lei: o desfile de animais silvestres em eventos militares nessa região.

Mascote do 1º Batalhão de Infantaria da Selva (BIS), Juma, que posou no Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CISG) - um dos pontos turísticos mais famosos de Manaus -, não é a primeira onça a participar de solenidades militares. A prática é comum, dependendo apenas da autorização do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM). No caso de Juma, contudo, o problema é maior, porque o órgão diz por meio de assessoria de imprensa que deu autorização apenas para outro animal - um macho batizado de Simba - participar do evento. Por isso, o IPAAM informou que o Comando Militar da Amazônia (CMA) foi notificado para dar explicações sobre a morte e exposição do animal. Se for punido, pode pagar multa de até 3.000 reais.

Símbolo nacional, a onça-pintada está na lista de espécies ameaçadas do Ibama desde 2003. Maior felino do continente americano, é um animal territorialista, precisando de até 150m² para viver em liberdade na floresta. Originalmente distribuída por todas as regiões brasileiras, hoje tem na Amazônia sua principal área de resistência. Segundo relatório do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), há hoje cerca de 10.000 onças na floresta amazônica, enquanto no Pantanal há 1.000 e na Mata Atlântica, Cerrado e Catinga juntos há apenas 250.

Segundo o Coronel Luiz Gustavo Evelyn, do CMA, a história de Juma é parecida com as de outras cerca de 10 onças que vivem com Exército. “Elas chegam resgatadas de cativeiros, depois de terem sofrido maus tratos, e são atendidas pela nossa equipe de veterinários que faz parte do mesmo complexo militar”, conta. Ao todo, mais de 200 bichos são atendidos no Exército, alguns conseguem ser reinseridos na floresta, outros não. Era o caso da Juma. Em reportagem ao UOL, o superintendente do Ibama no Amazonas, Mario Reis, disse que apesar do trabalho de recuperação feito pelo Exército ser muito importante, “quanto menos exposição de animais silvestres, melhor”.

Se é consenso que o trabalho de atendimento aos animais silvestres é fundamental, a exibição das onças foi amplamente criticada nas redes sociais. O principal questionamento era: "Afinal, o que uma onça está fazendo no meio de uma solenidade dessas?". E não é a primeira vez que a exposição de animais silvestres resgatados causa problemas para o CMA. O site Amazônia Real lembra que em 2015 ativistas criticaram a instituição depois que um militar divulgou a foto de uma onça-pintada tomando banho em uma praia. Na ocasião, o instituto de proteção notificou os militares por ter levado um animal do gênero a um local público.

Para o Coronel Evelyn, a participação do animal no evento “não tem nada a ver com a tentativa de fuga e ataque” posterior. “Ela estava acostumada com esse tipo de evento. Quando tentou fugir, a equipe de veterinários que acompanhou ela durante todo o tempo disparou tranquilizantes, mas como ela não se acalmou, não sobrou alternativa”, diz. Nas redes sociais, militares que conviviam com a onça publicaram fotos com o animal, expressando pesar e dizendo terem perdido uma “guerreira”.

Em entrevista ao site A Crítica, especialistas do Instituto Mamirauá, voltado para inovação e preservação ambiental, dizem que é preciso reavaliar a ideia de que onças podem desfilar com pessoas. “Por mais que sejam dóceis, são animais selvagens e não é possível ter controle total sobre eles”, comenta Emiliano Ramalho. Além disso, outra colaboradora do Instituto diz que dependendo do anestésico usado, o estresse do felino pode retardar ou até anular o efeito da droga. “O ideal é manter distância sempre. Depois do animal anestesiado é necessário conferir e mexer nele”, diz Louise Maranhão.

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