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ANÁLISE

Ondas gravitacionais, outro passo de gigante

Não há nada que não venha de uma forma nova de olhar para o cosmos e suas criaturas

Teoria das ondas gravitacionais de Albert Einstein é confirmada
O memorial Albert Einstein, em Washington. REUTERS

Os maiores avanços muitas vezes acontecem quando observamos as coisas mais cotidianas. Por que alguns planetas giram ao redor do céu? Primeiro cai um a pedra ou uma pena? E por que a lua não cai? Nas mãos de Copérnico, Galileu e Newton, essas três perguntas que poderiam ter sido feitas por uma criança iniciaram uma revolução que mudou o mundo. O mundo das ideias, sim, mas também o das coisas, porque não há nada em nosso ambiente atual ou na nossa vida prática que não venha, afinal, dessa nova maneira de olhar o universo e suas criaturas, incluindo os bípedes. A detecção de ondas gravitacionais anunciada nesta quinta-feira é o último grande passo da física, a resposta definitiva para as perguntas mais simples de uma criança e, portanto, e por tudo o que sabemos, o provável germe de uma cascata de aplicações práticas que agora não podemos nem mesmo vislumbrar.

O que aconteceria se o sol desaparecesse de repente? A teoria gravitacional de Newton, a primeira grande síntese da ciência moderna, prevê que a Terra deixaria sua órbita instantaneamente, como se tivessem cortado a corda que a prendia ao Sol, para realizar uma fuga indecorosa para a escuridão do espaço. Para Newton, a gravidade é uma força instantânea, que se propaga a uma velocidade infinita. Para Einstein, no entanto, não havia nenhuma velocidade infinita – a da luz era o máximo – e, em sua teoria gravitacional, se o sol desaparecesse, a Terra continuaria girando ao redor de onde ele não está mais. Só durante oito minutos, mas não menos do que durante oito minutos.

Porque, na teoria gravitacional de Einstein (relatividade geral), a força da gravidade não é instantânea, mas é transmitida em forma de ondas que se propagam à velocidade da luz: as ondas gravitacionais. Quando o sol desaparece, o efeito gravitacional de sua ausência viaja como o efeito luminoso de sua ausência, como as ondas ao cair uma pedra na lagoa, mas à velocidade da luz, e a Terra demora oito minutos para ficar sabendo. É uma das questões mais antigas e profundas da física, e a observação das ondas gravitacionais confirma uma previsão fundamental da relatividade geral, a teoria em que está baseada a cosmologia moderna.

A pergunta inevitável que a maioria do público vai fazer é: para que servem as ondas de gravidade? É a versão cósmica do “o que tenho a ver com isso?”, se quiserem, mas também uma questão perfeitamente justa e necessária. Uma resposta possível: quando Watson e Crick descobriram a dupla hélice do DNA em 1953, não fizeram isso para revolucionar a investigação biomédica, mas isso é exatamente o que está acontecendo agora. Talvez, honestamente, não tenhamos ideia para que servem essas ondas gravitacionais, mas temos boas razões, históricas e filosóficas, para suspeitar que uma descoberta que afeta uma pergunta tão simples só pode trazer uma enxurrada de aplicações que não imaginamos agora. Faça de novo a pergunta daqui a cem anos.

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