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Petrobras: o melhor e o pior do Brasil

Empresa é cobiçada pela experiência da produção de 2,2 milhões de barris diários

Denúncias de corrupção extrapolam para a campanha política

Polícia recolhe barris deixados em frente ao Congresso em setembro.
Polícia recolhe barris deixados em frente ao Congresso em setembro. AGÊNCIA BRASIL

A história contemporânea brasileira registrará no futuro que a campanha eleitoral de 2014 teve um alvo preciso de ataques: a Petrobras. A maior estatal brasileira e da América Latina está no olho de um furacão, e nele deve continuar por algum tempo, com as denúncias de corrupção da empresa para beneficiar partidos brasileiros. Entre eles, o PT e o PMDB, aliado do Governo.

À medida que a campanha avançava, as denúncias do ex-diretor da companhia, Paulo Roberto Costa, e do doleiro que atuava com ele, Alberto Yousef, se multiplicaram. A mais recente, divulgada pela revista semanal Veja, cuja linha editorial é anti-PT, insinua que a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula da Silva seriam conhecedores de todo o esquema de desvios, a partir de relatos, que ainda estão em segredo de Justiça, do doleiro corrupto. O assunto é controverso, e já foi desmentido pelo próprio advogado de Yousef. A presidenta reagiu em seguida. “A Veja passou de todos os limites”, reagiu a presidenta em seu programa eleitoral desta sexta. “É terrorismo eleitoral”, completou. Não se sabe o impacto que as insinuações terão a esta altura da campanha. Certamente, será um farto prato para o último debate desta sexta à noite, na Rede Globo.

O rival Aécio Neves teve, com a Petrobras, um alvo preciso para atacar o PT desde o início do processo eleitoral. Neves criticou a má gestão da companhia e a necessidade de tirá-la da ingerência do partido em todas as oportunidades que teve. Dilma já admitiu publicamente, há alguns dias, que houve desvios e que os recursos subtraídos seriam ressarcidos quando toda a extensão do escândalo for confirmada. Há um problema sério na empresa, e seja quem for o presidente eleito, precisará dar uma resposta à sociedade brasileira e aos investidores globais que possuem ações da Petrobras, para estancar a sangria.

A estatal, fundada nos anos 50, tem revelado o pior do Brasil neste período, com a mescla do público e privado, e a corrupção desmedida. A empresa, porém, reúne também o melhor do Brasil. A companhia, que emprega 86.000 pessoas, tem sistemas de extração, produção, refinarias, oleodutos e rede de abastecimento no país inteiro. A Petrobras está sentada sobre um tesouro negro que faz diferença. Trata-se de uma reserva de 16,5 bilhões de barris de petróleo. O que fazer com as receitas desse petróleo também tem sido assunto para debate eleitoral. Mais ou menos ingerência do Estado? Fornecedores nacionais ou estrangeiros? Royalties para educação e saúde?

Alheia ao momento eleitoral, a empresa vive um momento importante, devido ao know how para explorar águas profundas. É do fundo do mar, sob a chamada camada do pré-sal que a empresa vem extraindo cerca de 25% da sua produção diária de mais de 2 milhões de barris de petróleo. Todos os anos, especialistas do mundo desembarcam no Rio de Janeiro para conhecer a eficácia da sua tecnologia. “A empresa é muito maior do que todas essas denúncias”, defende Stephen Segen, professor de estruturas oceânica da Instituto Alberto Luiz Coimbra, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Alheia ao momento eleitoral, a empresa vive um momento importante, devido ao know how para explorar águas profundas

Segen recebe todos os anos alunos noruegueses, chineses, franceses e iranianos que se matriculam em seu curso para aprender mais sobre a tecnologia da empresa brasileira. “Um diretor que se envolveu em atos ilícitos não pode afundar uma empresa como a Petrobras”, afirma o professor. Afundá-la, não. Mas sua caixa de Pandora faz estragos grandes na imagem e na valorização da petroleira. As ações da companhia oscilam ao sabor de cada novo fato que vem à tona, ainda que não estejam confirmadas todas as denúncias.

Somada à baixa do mercado internacional, a empresa vem perdendo valor de mercado. Do final de dezembro de 2010 até o final de setembro deste ano a companhia teve perda de 58%, segundo levantamento do jornal O Estado de São Paulo. Valia 228,2 bilhões e caiu para 96 bilhões. Nas últimas semanas até recuperou parte dos ganhos, mas nada retumbante. O ajuste era esperado, ainda que não nessa magnitude, diz o expert Jean Paul Prates. De fato, os problemas de gestão, que incluem o represamento do reajuste da gasolina para nao afetar a inflação, prejudicaram a empresa. Mas, ela foi vítima também de um excesso de otimismo com o seu desempenho entre 2009 e 2010, garante Prates.

Ao fim e ao cabo, diz ele, a Petrobras é a cara do Brasil. “Ela apanha, falam mal, mas sempre tem investimento.”

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