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O último Dalai Lama?

O líder budista sugere não ter sucessor e acabar com uma instituição que a China quer controlar

O Dalai Lama Tenzin Gyatso, em 21 de setembro na Índia.
O Dalai Lama Tenzin Gyatso, em 21 de setembro na Índia.

Um Vaticano sem Papa? Uma República Islâmica do Irã sem um aiatolá líder supremo? Esse é o futuro que o guia espiritual do budismo tibetano, o dalai lama Tenzin Gyatso, parece apontar para uma religião professada por entre 10 e 20 milhões de pessoas no Tibete e no exterior. O 14º Dalai Lama declarou que sua morte poderia não ser reencarnada e não ter um sucessor, o que colocaria fim a uma tradição de quase cinco séculos. Suas declarações geraram muito pouca simpatia em Pequim, que reclama o direito de nomear o 15º Dalai Lama.

Em uma recente entrevista ao semanário alemão Welt am Sonntag, o líder religioso, de 79 anos, afirmou que "a instituição do Dalai Lama se tornou algo importante por seu poder político, mas isso não existe mais". Desde o século XVI, o Dalai Lama era não apenas o líder espiritual do budismo tibetano, como também seu chefe político. Essa tradição terminou em 2011, quando o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1989 -"por sua luta em prol da libertação do Tibete, defendendo soluções pacíficas baseadas na tolerância e no respeito mútuo"- renunciou formalmente a qualquer poder terreno.

Segundo o Dalai Lama, não reencarnar "acabará de forma voluntária com uma tradição de quase cinco séculos". Como líder espiritual tibetano, Tenzin Gyatso é considerado uma encarnação de Buda, a máxima perfeição espiritual. O restante dos seres vivos está condenado a passar por uma roda de vidas sucessivas, com maior ou menor sorte, de acordo com seu comportamento anterior, até alcançar o estado de perfeição suprema, na qual se deixam para trás todas as necessidades e desejos. O Dalai Lama, que alcançou esse estado de iluminação, pode optar por não reencarnar mais ou, pelo contrário, continuar o ciclo para ajudar o resto dos seres vivos a alcançar o conhecimento.

O líder religioso acredita que, em qualquer caso, o budismo tibetano não se ressentirá pela falta de um Dalai Lama. "O budismo tibetano não depende de só um indivíduo. Temos uma organização muito boa, com monges e acadêmicos muito capazes", afirma.

Não é a primeira vez que o líder espiritual indica algo assim. No passado, já sugeriu propostas como a de permitir que os tibetanos decidam seu próximo líder religioso. Ou que seja ele mesmo, em vida, que designe um sucessor. Uma ruptura, em todo caso, com o procedimento tradicional, que pode levar anos. Segundo a tradição, após a morte do Dalai Lama, seus melhores discípulos começam um processo de busca. Mediante visões, sonhos e pressentimentos identificam os possíveis candidatos, crianças que tenham nascido na data da morte do líder espiritual. Aquele que for aprovado em uma série de testes, que incluem reconhecer objetos que pertenceram a seu predecessor, é proclamado o novo Dalai Lama e começa um duro processo de preparação acadêmica e religiosa. No caso de Tenzin Gyatso, seguiu-se exatamente esse procedimento. Após a morte do 13º Dalai Lama, seus seguidores localizaram o menino por meio de visões em 1937. O pequeno Tenzin, de dois anos, nascido em uma família humilde da região tibetana de Amdo, identificou corretamente os objetos do Dalai Lama, como sua taça de beber ou seu rosário, e foi proclamado seu sucessor. Em 1959, após o fracasso do protesto tibetano contra as tropas chinesas, fugiu disfarçado de mendigo para Dharamsala, em território indiano, onde mora desde então.

Segundo o professor Jean-Pierre Cabestan, da Universidade Batista de Hong Kong, com suas declarações o Dalai Lama "pode querer pôr fim à maneira tradicional de eleger o líder espiritual tibetano. No fim das contas, a instituição do Dalai Lama não é algo tão antigo e pode ser substituída por qualquer outra, no que tange ao budismo tibetano. Ele pode querer preparar a transferência de poder político a um líder secular e representativo. De fato, já começou este processo quando renunciou a seus poderes políticos e os transferiu a um primeiro-ministro eleito em Dharamsala”.

Uma opção assim é impensável para Pequim, para quem o líder religioso é um "lobo vestido em pele de cordeiro" que fomenta o separatismo tibetano. O Dalai Lama, por sua vez, afirma que só busca mais autonomia para seu povo e mais respeito às suas tradições culturais. Muitos tibetanos se lamentam do que consideram ser uma repressão a sua linguagem e a seus costumes por parte de Pequim.

"O budismo tibetano não depende de um indivíduo. Há uma organização, com monges muito capazes", afirma o ganhador do Nobel

O Governo central desautorizou acentuadamente as declarações do Dalai Lama e deixou claro que, após sua morte, vai se encarregar de nomear um sucessor. "O título de Dalai Lama é outorgado pelo Governo central", afirmou a porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores, Hua Chunying. A China "seguirá as tradições históricas e os procedimentos religiosos" para designar o 15º Dalai Lama. Não se trata de nada novo. Segundo explica Cabestan por email de Taiwan, "Pequim quer ter voz na seleção do novo Dalai Lama, para participar do processo de decidir quem será o novo chefe espiritual", desde os tempos do imperador Qianlong (1711-1799), da dinastia Qing.

O etnólogo Qin Yong Zhang, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, escreveu na semana passada no jornal estatal Global Times que "o budismo tibetano não pertence ao Dalai Lama, e ele não pode pôr fim a uma tradição de 500 anos com uma palavra". Em sua opinião, desde o século XVIII, "o direito de regular, supervisionar e ter a última palavra" na escolha do Dalai Lama coube ao poder central chinês.

O Governo, oficialmente ateu, já interveio em outros casos. No caso da Igreja católica, não reconhece a autoridade do Vaticano, com quem não mantém relações, e se encarrega ele mesmo de nomear os bispos do braço que estabeleceu para o catolicismo, a Igreja católica patriótica. No caso do budismo tibetano também já fez suas próprias nomeações. Em 1995, o Dalai Lama designou o menino Gendun Chökyi Nyima como a reencarnação do Panchen Lama. As autoridades chinesas fizeram o pequeno e sua família desaparecerem, e não se soube mais deles. Em seu lugar, Pequim nomeou outro garoto, Gyaltsen Norbu, que passa a maior parte de seu tempo na capital chinesa e não é reconhecido por muitos tibetanos como autoridade espiritual.

Não está claro também qual seria a recepção no exterior de um Dalai Lama nomeado por Pequim. O atual goza de um forte prestígio no estrangeiro e tem atuado durante décadas como embaixador da causa tibetana. Não apenas se reúne com líderes mundiais, como conquistou para a sua causa personalidades do mundo do entretenimento como Richard Gere e Gwyneth Paltrow.

"Pequim quer ter voz na escolha do novo Dalai Lama", explica o professor Cabestan, de Hong Kong

No Tibete, ou nas regiões de população tibetana em outras províncias chinesas, muitos moradores o consideraram um representante do céu na terra, apesar de o simples fato de se ter um retrato dele poder representar duras represálias. Como no caso do Panchen Lama, é difícil pensar que alguém nomeado por Pequim fosse receber o reconhecimento dos seguidores do budismo. Uma situação assim apenas contribuiria para agravar ainda mais o sentimento de injustiça da população tibetana na China. "Se viesse um Dalai Lama débil, seria uma desgraça para a instituição", declarou o próprio líder espiritual na entrevista.