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Copa do Mundo 2014

A Copa no Rio

Não vou negar que acompanhar as 64 partidas no Rio de Janeiro ajudou a fazer com que esta Copa me parecesse a melhor de todas

Robben briga pela bola contra Mascherano em uma partida da Copa. Ampliar foto
Robben briga pela bola contra Mascherano em uma partida da Copa. afp

Não vou negar que acompanhar as 64 partidas no Rio de Janeiro ajudou a fazer com que esta Copa me parecesse a melhor de todas. Por aqui “o Pão de Açúcar basta para admirar toda a baía”. Mas ter redescoberto o Girondo ou ter em frente ao hotel uma praia com o comprimento exato para correr todas as manhãs não significa que gostei de tudo nesta Copa.

Não gostei, por exemplo, de ver a Itália causando problemas para si própria, na dúvida entre sair ou ficar, incapaz de decidir entre a vontade de jogar de Pirlo e o canto da sereia do catenaccio; não gostei da entrada desnecessária de Matuidi que fraturou a perna de Onazi nem da mordida de Suárez em Chiellini; mas gostei menos ainda da falta de critérios que evitem a desproporção de punir uma delas com um cartão amarelo e a outra com quatro meses de inatividade, com o risco de ser mais severo o castigo do simbólico do que o de uma fratura exposta.

Gostei que a maioria das equipes tentou ganhar na bola e não com a renúncia dela

Não gostei de ver o Brasil sofrer nem sentir como se afogava em suas emoções, nem sequer ser capaz de obrigar a Alemanha a fazer o menor esforço para ganhar dele; não gostei, mas não fiquei surpreso, com o hit da Copa (a música sobre Maradona e Pelé, cantada pelos argentinos), resumo desta incapacidade de uma parte da sociedade argentina de gozar do próprio mérito sem precisar recorrer ao sofrimento alheio

Gostei da Bike Rio, o aplicativo para desbloquear as bicicletas alaranjadas pelo telefone (em todo o Rio o que é público é da cor laranja, combinando com a gravata de Van Gaal usada pelos torcedores holandeses em Ipanema), fundamental para evitar o tráfego da Avenida Atlântica. Gostei da banana frita com sorvete de creme e o Guaraná bem gelado. Gostei da arbitragem em geral e do fim de alguns preconceitos enraizados, como o de entender que não se perde nada se o árbitro decide interromper a partida para que os jogadores se hidratem quando faz 40 graus.

Gostei do uso do spray para marcar a distância nas faltas, a forma com que cada árbitro impôs um estilo (linha simples, linha dupla, linha sobre as chuteiras dos jogadores) e todos os possíveis novos usos que se pode dar ao spray: dispersar protestos, defender-se contra invasões de campo, festejar títulos, pular carnaval, barbear-se.

Gostei que a maioria das equipes tentaram ganhar na bola e não com a renúncia da bola; gostei do goal line technology e que tenha sido testado por Benzema (ninguém sem a sutileza de Benzema poderia ter marcado um gol tão milimétrico, que justificasse o investimento tecnológico e seu uso pela primeira vez em uma Copa). Gostei de Pogba, Shaqiri, Cuadrado, Díaz, Ruiz, Blind, Vlaar, Alexis, Feghouli, Howard, Navas, Neuer debaixo das traves e Neuer em posição de arrancada, quando a bola estava ainda muito longe do gol.

Não gostei de ver o Brasil sofrer nem sentir como se afogava em suas emoções

Gostei da maneira como James Rodríguez aproveitou o tempo em que a bola estava no alto para girar o corpo e calcular a saída de Godín antes de matá-la com o peito e marcar o gol mais bonito da Copa. Gostei do voleio de primeira de Cahill, as coreografias da Colômbia depois dos gols de James e que os americanos terminaram chamando de James o grande Lebron.

Gostei da forma como Robben preparava desde o primeiro domínio de bola cada uma de suas arrancadas letais e como Mascherano, este Nostradamus da marcação, soube antes do que Robben exatamente o que Robben acabava de pensar no instante.

Gostei da Alemanha com centroavante e sem centroavante, Lahm como volante e Lahm de lateral; o coração da Argentina para equilibrar e competir com a estrutura alemã.

Gostei da linha de cinco de Pinto; a Costa Rica e seu quase milagre; os laterais da Colômbia de Pékerman; a marcação alta do Chile; as encaradas otimistas de Di María; a Avenida das Palmeiras Imperiais do jardim botânico, o mar imitando na areia a calçada de Copacabana e a possibilidade de tomar, por somente três reais, “um café que perfuma todo o bairro da cidade durante 10 minutos”. Sentirei saudades da Copa.

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