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Política de privacidade da Apple começa a prejudicar suas concorrentes

CEO da empresa, Tim Cook, elogia a arquitetura de segurança de seus iPhones e que os usuários possam escolher não ser rastreados, medida que custaria 10 bilhões de dólares ao Facebook, Snapchat, Twitter e YouTube

Loja da Apple.
Loja da Apple.Unplash
Manuel G. Pascual

“Na Apple acreditamos que a privacidade é um direito humano fundamental”, disse o CEO da empresa, Tim Cook, neste ano na conferência de desenvolvedores que organizam anualmente. A empresa de tecnologia se orgulha de sua política de segurança e proteção dos dados dos usuários, que se contrapõe ao esforço dos outros de centrarem-se em “transformar os clientes no produto”. Cook mencionou diretamente a Alphabet, matriz da Google, há dois dias em um evento organizado pelo The New York Times, onde disse que os que pretendem sair do entorno de proteção da App Store, a loja de aplicativos da Apple, e baixar aplicativos não filtrados por eles é melhor que usem um celular Android, que já permite essas ações. “Seria como se fôssemos uma marca de carros que sugerisse aos motoristas que não colocassem airbags e cintos de segurança”, acrescentou o executivo.

Os controles aos que a App Store submete os aplicativos lá ofertados é uma das características mais valorizadas da Apple. Mas a empresa tomou neste ano outra medida com efeitos diretos sobre suas concorrentes. O sistema operacional de celular iOS incorporou em sua versão 14.5, lançada em abril, uma novidade importante: quando o usuário entra pela primeira vez em um aplicativo é perguntado se quer que ele possa rastreá-lo na rede. Se responde que não, param de transmitir dados sobre sua atividade nesse e em outros aplicativos, informação que antes era fornecida automaticamente. A medida foi aplaudida por especialistas e ativistas, que a viram como um avanço significativo na defesa da privacidade dos internautas, cuja pegada digital é fiscalizada por inúmeras empresas.

Mas a App Tracking Transparency (como a Apple chamou sua nova funcionalidade) não agradou tanto algumas empresas de tecnologia. Porque muitos aplicativos vivem exatamente de explorar os dados que coletam de seus usuários. O Facebook foi uma das grandes prejudicadas. A empresa jamais negou que a medida afetaria seu negócio: o iOS 14 beneficia somente a Apple em detrimento de pequenas empresas e desenvolvedores, explicam fontes da companhia. Mesmo dizendo que já notaram seu impacto no segundo trimestre e, principalmente, no terceiro, o Facebook (agora Meta) não havia colocado números no prejuízo. Ou pelo menos não da porta para fora.

O Financial Times publicou na semana passada uma estimativa de quanto estão custando os aplicativos não rastreados dos usuários de iPhone. De acordo com estimativas da empresa de publicidade digital Lotame citadas pelo jornal britânico, o Facebook, Snapchat, Twitter e YouTube teriam deixado de lucrar 10 bilhões de dólares (54 bilhões de reais) por culpa da App Tracking Transparency. Segundo a mesma informação, dessa quantidade 8,3 bilhões (45 bilhões de reais) seriam só do Facebook. Perguntada pelo EL PAÍS, a companhia prefere não falar de números .”Acho que leva pelo menos um ano para reconstruir a infraestrutura necessária” para se adaptar à nova conjuntura, disse um consultor tecnológico citado pelo jornal financeiro.

Desde abril, cada vez que um usuário de iPhone entra pela primeira vez em um 'app' vê uma mensagem semelhante a essa.
Desde abril, cada vez que um usuário de iPhone entra pela primeira vez em um 'app' vê uma mensagem semelhante a essa.

O Facebook afirma que não perdeu tempo. Desenvolveu soluções, dizem na empresa, como por exemplo anúncios exibidos no site de um negócio e em sua página da rede social, dependendo de onde calcularem que terá mais impacto. A diretora-geral de operações da Meta, Sheryl Sandberg, disse sobre o iOS 14 que as mudanças introduzidas nos iPhone, um modelo de celular especialmente popular nos Estados Unidos, significam que “a precisão de nossos anúncios dirigidos diminui, o que aumenta o custo aos anunciantes de conseguir resultados com sua publicidade”.

O próprio Mark Zuckerberg, CEO da empresa, fez menções veladas ao iOS 14 em sua apresentação (ou grande produção audiovisual) em que detalhou seu projeto de metaverso. Por exemplo, ao dizer que nos últimos anos foi muito instrutivo competir contra outras empresas de tecnologia. “Lembrem-se, [Zuckerberg] não se sente humilhado pelo problema da desinformação russa, pela propagação de desinformação antivacinas e pelo desafio de como o Instagram afeta a imagem que os adolescentes têm de seus corpos. Não, ele aprendeu com humildade como é difícil lutar contra a Apple e o Google”, escreveu sobre ele Ethan Zuckerman na revista The Atlantic.

Controle de conteúdos, ou o fim da exceção

O histórico da Apple em relação à privacidade não é impoluto. A empresa anunciou em agosto que no final do ano colocaria em andamento um sistema automático que revisaria os conteúdos audiovisuais subidos de iPhones e iPads à procura de material pedófilo. Alinhado com o que o Google já vinha fazendo, que revisa os arquivos colocados no Drive, a intenção da empresa de Cupertino era cruzar o hash (uma espécie de matrícula dos arquivos comprimidos) dos conteúdos enviados à nuvem da empresa (iCloud) com os de uma lista de materiais já identificados pelas autoridades como pedófilos. Quando surge uma combinação, após ser revisada por um funcionário, no caso de considerar que os conteúdos são censuráveis ocorreria a suspensão da conta da Apple do usuário e as autoridades seriam avisadas.

A notícia não caiu bem entre os defensores da privacidade digital. Ainda que os objetivos fossem legítimos (quem pode ser contrário ao combate incansável da difusão de conteúdos pedófilos?), uma vez aberta a porta para se observar o que acontece dentro dos celulares ninguém poderia ter certeza de que essa fiscalização não seria usada no futuro com finalidades mais perversas.

Em meados de agosto, dezenas de organizações escreveram uma carta aberta a Tim Cook para que voltasse atrás. “Mesmo que essas funções sejam destinadas a proteger as crianças e reduzir a propagação de material de abuso sexual infantil, nos preocupa que sejam utilizadas para censurar o discurso protegido, ameaçar a privacidade e a segurança das pessoas em todo o mundo e que, por fim, tenham consequências desastrosas para muitas crianças”, disseram os grupos na carta.

O alvoroço que o anúncio causou foi tamanho que a empresa não demorou em suspender sua decisão. Um mês depois, em setembro, a Apple disse que congelaria a medida até ter um estudo mais pormenorizado do impacto de sua iniciativa.

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