Argentina
Tribuna
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Até a mentira, sempre

Depois de ver o presidente comemorar uma derrota eleitoral como se fosse uma vitória, a Argentina se instala na pós-verdade: quem pode dizer o que é verdade e o que não é? Isto poderia ser pós-peronismo?

Peronistas argentinos se reúnem na Plaza de Mayo para manifestar seu apoio ao presidente Alberto Fernandez no Dia da Militância Política em Buenos Aires, Argentina, 17 de novembro de 2021.
Peronistas argentinos se reúnem na Plaza de Mayo para manifestar seu apoio ao presidente Alberto Fernandez no Dia da Militância Política em Buenos Aires, Argentina, 17 de novembro de 2021.STRINGER (Reuters)

Na noite da pior eleição histórica do peronismo, o presidente Alberto Fernández saiu para festejar uma vitória imaginária. O peronismo acabava de perder a maioria automática que possuía no Senado desde 1983, ficando atrás do Juntos pela Mudança (partido do ex-presidente Mauricio Macri) por nove pontos em nível nacional. A mesma eleição legislativa o mostrava derrotado por goleada nas principais províncias: Córdoba, Santa Fé, Mendoza, Entre Ríos, Corrientes e até mesmo em Santa Cruz, feudo kirchnerista havia décadas, onde o sobrenome Kirchner aportou em um humilhante terceiro lugar. No entanto, Alberto Fernández optou por ser fiel ao seu estilo de Governo: permaneceu intocado pela realidade.

Alberto fez um chamado para comemorarem o triunfo “como se deve” e encher a Praça de Mayo; Leandro Santoro, que perdeu por 23 pontos para María Eugenia Vidal na cidade de Buenos Aires, falou com entusiasmo do que tinha sido para ele uma “eleição extraordinária”; Axel Kicillof se mostrou ainda mais radiante do que quando ganha de verdade (em 2019, quando foi eleito governador da província, fez um discurso amargo e furioso). Todos se abraçaram e se beijaram efusivamente; também a pandemia acabou. Com um Alberto digno da Concha de Prata de Melhor Ator no Festival de Cinema de San Sebastián.

Celebrar a vitória, quando você sabe que perdeu, deve dar uma vertigem emocionante. Por outro lado, quem se importa com a morna e insípida aritmética eleitoral? Que um mais um é igual a dois, ou que 41,97% é um número maior que 33%?

Ao contrário da derrota sofrida pelo Governo nas primárias de setembro, que produziu renúncias histéricas de ministros do Gabinete Nacional e áudios vazados em que uma deputada cristã se referia ao presidente depreciativamente como um “okupa” (posseiro) na Casa Rosada, desta vez o partido governista se mostrou mais coeso. Ricamente coreografada pelo estrategista catalão Antoni Gutiérrez-Rubí, a cuidadosa encenação da vitória em plena derrota acabou dizendo muito mais sobre o Governo do que uma simples jogada de manipulação da percepção midiática. Nem sempre se pode observar como é simples para os políticos simular uma sensação autêntica. Assume-se que eles mentem, mas nem sempre é fácil avaliar o grau explícito de cálculo, planejamento e atuação na mentira. Como será a sensação de festejar do mesmo jeito se você ganhar e se não, se tiver levado uma surra? A campanha do Governo consistiu em cartazes que diziam “sim” e 67% das pessoas disseram “não”. E se realmente desse na mesma? A casta política é o terreno da amoralidade? E se a mentira maquiavélica não for um instrumento de uso in extremis, mas sua política mais consistente? A verdade e a mentira seriam uma mesma coisa para o kirchnerismo.

A Argentina é um país para cobrar entrada, como disse Jorge Turco Asís, mas naquela noite houve algo mais. Vivemos na pós-verdade, quem pode dizer o que é verdade e o que não é?, indaga o metaverso de Antoni. Perón dizia que “a única verdade é a realidade”: se isso é a pós-verdade, será este o pós-peronismo? Até agora, o relato kirchnerista era uma emanação da garganta de Cristina Kirchner: uma voz que precisa do ritmo de uma canção laudatória, e esse parece ser o sentido da política para o kirchnerismo. E nessa gesta Cristina Kirchner sempre tem que ser a vencedora, e é por isso que sua ausência foi a prova indisfarçável da derrota. Além do mais, porque uma derrota equivale a uma avalanche de ações judiciais ativada em aluvião contra ela. Desculpou-se, assim que começou a contagem, tuitando que seu médico lhe pediu repouso. Ela se torna invisível nos fracassos, mesmo que os vistam de seda.

Cristina não se prestou à farsa que se seguiu à tragédia, segundo o apotegma de Karl Marx de que tanto gosta. Parece ser a única pessoa atenta à realidade da debacle peronista. Em 2019, seu experimento eleitoral (que consistia em pôr na presidência alguém que a defendesse) alcançou 48%; dois anos depois, essa mesma força –o peronismo unido– obteve 33%. O 33% sempre foi seu tesouro e seu teto: esse terço da população que lhe pertence e a acompanha aonde quer que for, suas flores silvestres brotando da lama mais pobre dos subúrbios de Buenos Aires, onde Cristina é rainha. Agora, o peronismo unido vai se reduzindo a esses 33% que ela trazia como dote, enquanto a contribuição de seus sócios se esfumaça. Alberto dilapida diariamente seu capital político, e ela a duras penas consegue manter seus distritos viciados. Na base do “Plano Platita”, a distribuição de dinheiro vivo, bicicletas e geladeiras nos bairros populares em troca de votos. O clientelismo não se oculta: é a essência da política do kirchnerismo.

Como fazer populismo sem popularidade? Só resta o discurso bombástico, desgastado, e as medidas antigas, repetidas, que não funcionaram antes e tampouco agora, mas conservam o fulgor nostálgico de outra era. O kirchnerismo só é capaz de administrar símbolos: sua arte é reconstruir e modificar o passado. O kirchnerismo é seu próprio museu de medidas, arapucas e artimanhas estatais em permanente desvalorização.

A noite da derrota-triunfo foi interessante porque permitiu ao Governo atuar sua própria desconexão com os dados do presente, enquanto os jovens lhe dão as costas e seu caudal político desmorona. “Coube a nós perder ganhando, eles podem ter ganhado perdendo”, esculpiu, para maior confusão, Victoria Tolosa Paz, que perdeu por um ponto na Província. Distraído, o assessor catalão não atinou com a famosa frase de Borges: a derrota tem uma dignidade que a ruidosa vitória não merece.

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