A vizinha e o sutiã em tempos de coronavírus

A jornalista do EL PAÍS, de 77 anos, divide sua experiência de estar isolada em casa em meio à quarentena na Espanha. “Somos os que resistem, os solidários, os que ajudamos, os que nos preocupamos com os mais próximos, os que esperamos ajuda”

Mulher aplaude neste domingo, em sua casa, em Madri, como agradecimento ao empenho dos funcionários da saúde pública na crise do coronavírus.
Mulher aplaude neste domingo, em sua casa, em Madri, como agradecimento ao empenho dos funcionários da saúde pública na crise do coronavírus.Fernando Alvarado / EFE

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Toda mulher não-efébica [adolescente] conhece o alívio de tirar o sutiã, mesmo que seja a dentadas, sozinha em casa. Todo ser humano que viu A Janela Indiscreta, a esta altura certamente pela TV, conhece a inquietação causada por uma sombra escura contra a luz de uma janela do edifício em frente.

Juntemos as duas coisas e sai minha rápida e, no entanto, muito emotiva crônica (sempre disse que voltaria para casa em caso de guerra: nunca esperei que fosse deste tipo), que inicia este caminho do ler e nos sentirmos, que percorreremos juntos enquanto durar a emergência, e se não houver baixa da signatária acima.

Quando o primeiro aplauso aos funcionários da saúde, no sábado, se transformou em ovação à saúde pública, a sombra da janela em frente se materializou. Era uma jovem vizinha. É. Ela é. Gritou, no final dos aplausos, “Vizinhos da frente!”. E assim começamos: a aplaudir-nos, os vivos das redondezas, como se nos abraçássemos, uns gritando incentivos para os outros, como se nos conhecêssemos.

E acontece que nos conhecemos. Somos os que resistem, os solidários, os que ajudamos, os que nos preocupamos com os mais próximos, os que esperamos ajuda (obrigada, Edu, meu querido vizinho do quinto andar). Somos os que vemos, nas ruas vazias, as casas cheias.

Desta janela recém-aberta eu lhes digo. Coloco o sutiã logo depois de tomar banho e só o tiro quando vou dormir. Por minha vizinha. Por todos nós. Pela vida.