JOGOS OLÍMPICOS
Tribuna
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Atletas anônimos e condecorados, cara e coroa de uma mesma medalha

As guerras mundiais ou as sanitárias contra a covid-19, só provam que a história dos atletas dourados e daqueles do cotidiano se repetem e tem seu encontro marcado, por mais adiado que seja

Beatriz Ferreira na cerimônia de premiação em que recebeu a medalha de prata na categoria até 60kg do boxe.
Beatriz Ferreira na cerimônia de premiação em que recebeu a medalha de prata na categoria até 60kg do boxe.VALDRIN XHEMAJ (EFE)
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Algumas frases ditas uma ou mil vezes sempre serão verdadeiras. A Olimpíada de Tóquio provam isso. Repórteres esportivos a frente da cobertura das competições e os próprios atletas, com ou sem pódio, não se cansam de frisar em entrevistas – “o simples fato de estar aqui, nas competições, já vale uma medalha”.

Entre lágrimas, sorrisos e muito suor, esse sentimento seguramente tem algo a ver com o sacrifício de cada um para estar lá. Some-se a isso o adiamento da realização dos jogos, que agora deixa escorrer um sabor de vitória, apesar da covid-19.

A sensação de quase milagre da realização dos jogos de Tóquio 2020 talvez só possa ser comparada aos 15º Jogos Olímpicos de Helsinque (Finlândia), em 1952. Os primeiros depois da Segunda Guerra Mundial com a participação dos países ganhadores e perdedores da guerra. Jogos esses igualmente adiados em 1940.

A China, que lidera o ranking de medalhas em Tóquio, naquela época levava apenas um nadador, que acabou desclassificado. As fotos em preto e branco, entretanto, não escondem a euforia que invadia as arenas de competição.

Se Tóquio revelou tantas faces brasileiras que ficarão para sempre na memória, Helsinque iria mostrar ao mundo o que entendidos insistem ser o maior atleta olímpico de todos os tempos: o ouro no salto triplo do brasileiro Adhemar Ferreira da Silva.

O tempo nestes casos parece ser imortalizado ou suspenso. Se é estranho hoje ver estampado em todos os lugares a legenda Tóquio 2020, em meados do ano 2021, imagine o que aconteceu em Helsinque? Confirmada a realização dos jogos, o país não teve dúvidas. Usaram o mesmo cartaz criado pelo designer de publicidade Ilmari Sysimetsä, em 1938. Apenas atualizaram as datas.

Talvez esse tenha sido o maior chamado de todos os tempos. E ele atraiu personagens que seriam eternizados e ainda uma multidão de quase anônimos. Todos atletas.

Afinal, os que não conseguem medalhas, escrevem seus nomes na história das Olimpíadas, com o mesmo valor e peso.

Tóquio 2020 nos brindou com inúmeras medalhas nas águas, como a da dupla bicampeã na Vela Olímpica, Martine Grael e Kahena Kunze. Em 1952, três velejadores brasileiros só tinham em mente cingir o mar de Helsinque, num veleiro.

A articulação começou com antecedência. Para garantir a classificação para os XV Jogos de Helsinque, o empresário Peter Mangels reuniu dois amigos, Wolfgang Edgard Richter e Francisco Isoldi até então competidores entre si, para abocanhar regatas juntos, no mesmo barco. Era o único jeito de alcançarem a classificação. Dito e feito. Pouco antes do início dos jogos foram até a Suécia para alugar um barco para competição. Afinal, em Helsinque não havia mais nenhum disponível. Resultado: atravessaram o mar que separa a Suécia da Finlândia para chegar ao seu destino maior. A travessia não foi nada fácil. Afinal, conduziam um barco de regata (sem cabine de descanso) e precárias condições pois entrava água no barco. Assim, para levar o barco até os jogos, eles se revezavam em turnos, de alguns dias, entre dormir, tirar água do barco e navegar.

Ou seja, a aventura começava muito antes dos jogos. A competição não seria fácil para ninguém. As águas de Helsinque foram invadidas por 93 tripulações de 29 países participantes. Naquela edição do jogos, a classe Firefly colocaria para sempre o nome de Paul Elvstrøm em letras garrafais no mundo da vela. Esse dinamarquês seria uma inspiração para o brasileiro Peter Mangels por toda a vida. Mais tarde, Elvstrøm se tornou o primeiro atleta a vencer o mesmo esporte quatro vezes consecutivas.

O trio brasileiro, por sua vez, cravou um honroso sétimo lugar na competição, dividida em sete regatas, da classe Dragão, um veleiro de três velas e muita coragem a bordo. Ao todo, nessa categoria, participaram equipes de 17 países.

Os XV Jogos de Helsinque reuniram 4.925 competidores, desses 518 mulheres. Um número muito inferior a Tóquio 2020, que teve 49% de mulheres, num total de 11.687. Ao contrário da esposa do surfista Gabriel Medina, elas também podiam assistir aos jogos. Foi o caso da bela Gesine Buuck que acompanhou as provas do namorado e futuro marido Peter Mangels. Bons ventos ajudaram brasileiros em Helsinque de 1952 assim como em Tóquio 2020. Mas ninguém duvida que os grandes eventos esportivos só se curvam mesmo à vontade dos deuses do Olimpo.

Os XV Jogos só aconteceram em Helsinque porque o Japão declarou, em 1938, que não seria capaz de sediar os de 1940, em Tóquio, devido à Segunda Guerra Sino-Japonesa em curso. Helsinque então foi selecionada para sediar os Jogos Olímpicos de Verão de 1940, cancelados devido à Segunda Guerra Mundial. Tóquio acabou hospedando os jogos em 1964 e Helsinque em 1952.

As guerras mundiais ou as sanitárias contra a covid-19, só provam que a história dos atletas dourados e daqueles do cotidiano se repetem e tem seu encontro marcado, por mais adiado que seja. E como toda boa verdade, às vezes demora a dar as caras, mas sempre vence no campo das batalhas do esporte e da vida. Com ou sem medalhas no peito.

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