Alerta da ciência dá lugar a batalha política para encerrar a era dos combustíveis fósseis

Decisões importantes terão que ser tomadas nos próximos meses para aumentar os compromissos de redução das emissões que provocam a mudança climática

Um bombeiro luta contra o fogo na região de Kryoneri, ao norte de Atenas, na quinta-feira passada.
Um bombeiro luta contra o fogo na região de Kryoneri, ao norte de Atenas, na quinta-feira passada.KOSTAS TSIRONIS (EFE)
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O novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) apresentado na segunda-feira representa um demolidor alerta sobre os impactos que já estão alterando o planeta de forma irreversível. Agora chega a vez da batalha política, pois responder ao “código vermelho” dos cientistas exige uma transformação radical da nossa sociedade, a qual não será nada fácil devido às enormes implicações econômicas e sociais que acarreta. Como resume Christiana Figueres, ex-secretária-executiva da Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, “este relatório é mais um aviso de que precisamos acelerar os esforços mundiais para abandonar os combustíveis fósseis”. Já existem compromissos importantes para fazer frente a esse colossal desafio, mas nos próximos meses haverá decisões cruciais a serem tomadas em escala europeia e mundial.

Como mostra o estudo do grupo de trabalho I do sexto relatório de avaliação do IPCC divulgado na segunda-feira, quanto mais o planeta se aquecer, piores serão as consequências. E muitas das esperanças de evitar os piores cenários traçados pelos cientistas passam pela Cúpula Mundial do Clima de Glasgow (COP26), marcada para novembro. “A COP26 será a hora da verdade”, afirma Figueres, que defende a validade do Acordo de Paris, do qual foi uma das artífices em 2015. “Tudo o que necessitamos para evitar os impactos exponenciais da mudança climática é factível. Mas depende de as soluções avançarem exponencialmente mais rápido que os impactos, e que nos ponhamos no caminho de reduzir pela metade as emissões globais até 2030”, afirma a costa-riquenha.

O objetivo final do Acordo de Paris é que a temperatura média do planeta não suba além de 2° C com relação aos níveis pré-industriais, de preferência limitando esse aumento a 1,5° C. O trabalho científico do IPCC determina que em todos os cenários analisados a barreira de 1,5 grau será superada nos próximos 20 anos, mas continua havendo um caso em que a temperatura voltaria a baixar e chegaria ao final do século nesse nível. Esta é a alternativa mais otimista, se forem feitas reduções rápidas e expressivas das emissões de gases do efeito estufa.

O cenário mais pessimista é aquele em que estes gases continuariam sendo emitidos ao ritmo atual, o que elevaria a temperatura em 4,4° C e multiplicaria a intensidade e frequência dos fenômenos extremos. Fora do relatório, a realidade, como aponta Wendel Trio, diretor da ONG Climate Action Network (CAN) Europe, é que com os atuais compromissos de redução apresentados pelos governos nacionais o planeta se encaminha para um aumento de quase 2,5 °C na sua temperatura média. “É insuficiente para reduzir o risco de eventos extremos como os incêndios da Grécia ou as inundações da Alemanha e Bélgica neste verão europeu. Os países devem compreender que precisam fazer mais”, insiste o diretor desta rede de organizações ambientalistas, cobrando que China e EUA, os principais emissores do planeta, assim como a União Europeia, aumentem seus compromissos para a cúpula de Glasgow.

De forma específica na Europa, em julho a Comissão Europeia apresentou o pacote Fit for 55 (“em boa forma para 55”, em inglês), que visa a aumentar a ambição climática. Esta proposta inclui ampliar o compromisso de redução das emissões de efeito estufa para 55% até 2030, entre outras medidas, como que a partir de 2035 não seja mais permitida a venda de carros e caminhonetes novos que emitam dióxido de carbono, o que na prática significa vetar os motores de gasolina, diesel, gás e híbridos cinco anos antes do que estabelece a nova lei espanhola, por exemplo. Para o diretor da CAN Europe, “esses 55% de redução até 2030 são compatíveis com a meta de não superar os 2° C, mas é preciso ir além para nos situarmos na trajetória de 1,5° C”. Segundo ele, dentro da União Europeia há países como a Polônia e a Bulgária que são reticentes a aumentar os compromissos, mas ao mesmo tempo considera que o estudo do IPCC dá argumentos contundentes a outros sócios europeus e ao próprio Parlamento Europeu para pedir mais ambição.

Carros elétricos e energias renováveis

“Para o setor automotivo, o carro elétrico é uma alternativa que não muda tanto as coisas, assim como as energias renováveis para as empresas elétricas. Mas há outros setores para os quais será mais difícil, como o da agricultura, aviação e indústrias como a siderúrgica”, comenta Trio. “Por isso é preciso avançar muito mais rápido na conversão daqueles setores em que for mais simples, para assim deixar tempo para os outros mais difíceis.”

O estudo do IPCC afirma que, do ponto de vista da ciência – das leis da física – continua sendo possível limitar o aquecimento a 1,5 °C. Mas agora é preciso ver se isso também é compatível com as leis economia e da cidadania. Politicamente, algumas medidas contundentes também podem ter um custo eleitoral. Como aponta Pedro Linares, professor da Escola Técnica Superior de Engenharia ICAI e diretor do centro de estudos Economics for Energy, “é bom que as pessoas reajam a um relatório como este, mas é preciso ter consciência de que resolver isto é muito complicado”. “Ele determinou coisas que podem ser solucionadas com uma mudança tecnológica, o que de alguma forma não deve acarretar mudanças radicais. Mas quando você precisa continuar reduzindo as emissões chega um momento que o tecnológico não basta”, comenta o especialista. “Inclusive supondo que fosse possível eletrificar todos os carros e edifícios, continua faltando a agricultura, os resíduos e a indústria”, salienta Linares. “Ou você começa a reduzir o consumo, ou não há maneira.”

Para o diretor do centro de estudos Economics for Energy, o relatório de 2018 do IPCC já analisava de forma específica a meta de 1,5° C e deixava claro que era necessário conseguir a neutralidade climática em 2040-2050, o que significa que as únicas emissões que continuariam sendo geradas a partir de então seriam as que pudessem ser absorvidas por sistemas naturais. “Isso é uma mudança bárbara, mas quando você vê que a Europa e os EUA, que são os mais avançados, se comprometem com a neutralidade em 2050, quando esse ano deveria ser para todos, então você já vê que não se chega”. Contudo, Linares considera que “não devemos nos resignar”. “Talvez alguma nova tecnologia nos permita ganhar um pouco de tempo”, observa.

Mudanças no sistema de produção e transporte

Andreu Escrivà, cientista ambiental e autor do livro Y ahora yo qué hago, sobre a mudança climática, concorda que uma das principais batalhas políticas da COP26 será sobre aumentar os compromissos dos países no marco do Acordo de Paris, mas considera que há muitas outras frentes abertas em diferentes escalas. “Estamos falando de mudar o sistema de produção, de transporte e de, basicamente, como funciona o mundo. Isto assusta muito, mas é preciso pensar que o mundo mudou muitas vezes. Este que hoje conhecemos não tem nada a ver com o da pré-globalização nem com o do pré-guerras. Sabemos o que é preciso: abandonar os combustíveis fósseis. E aqui é onde vem o problema, pois os combustíveis fósseis representam para nossa sociedade muito mais que os postos de gasolina.”

Segundo Escrivà, o que o estudo do IPCC diz não é tão novidade, mas sim a contundência com que diz, pouco habitual na esfera científica. “Este relatório é um balde de água fria de realismo, mas é que tem gente que ainda pensa que já basta separar o plástico em casa”. Como destaca, “é preciso consumir de outra forma, deslocar-se de outra forma, viver de outra forma. Acredito que estamos deixando muito nas mãos do mercado, que é muito lento para as mudanças das quais necessitamos. As grandes empresas petrolíferas poluidoras são as que mais estão demorando a se adaptar e estão atrasando a legislação ambiental. Necessitamos normativas que apoiem estas mudanças. Necessitamos mudanças muito rápidas, muito diretas”, salienta.

Héctor Tejero, ativista climático e um dos autores do livro sobre a crise climática ¿Qué hacer en caso de incendio?, considera realmente difícil o cenário de elevação limitada a 1,5 grau Celsius. “Levando-se em conta o panorama econômico e político, é muito difícil que comecemos a reduzir emissões no ano que vem”, afirma o deputado regional do partido Mais Madri. Porém, também acredita que devem ser descartados os cenários mais catastrofistas, nos quais continua ocorrendo um elevado consumo de combustíveis fósseis. “Atualmente nos dirigimos ao cenário intermediário, mas isso supõe superar os dois graus”, comenta Tejero, para quem, independentemente de números concretos, é preciso conseguir que a temperatura do planeta suba o mínimo possível. O que ele tem muito claro é que o relatório do IPCC representa também um toque de alerta para projetos como a ampliação dos aeroportos de Barcelona e Madri: “O relatório está dizendo que temos que acelerar a transição; pensar que o desenvolvimento econômico está em construir aeroportos é totalmente contrário a isto”.

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