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COLUNA i

Até tu, papa Francisco?

Os sacerdotes homossexuais não representam nenhum escândalo, e eles estão sujeitos, como qualquer outro, a respeitar o compromisso com o celibato. Nada mais

O papa Francisco, no Vaticano, no dia 28 de novembro
O papa Francisco, no Vaticano, no dia 28 de novembro EFE

Tanto a Igreja Católica como as confissões evangélicas mantêm um medo atávico da sexualidade, do qual não conseguem se livrar. Até o papa Francisco, que com sua famosa frase aos jornalistas, “Quem sou eu para condenar a um homossexual?”, parecia ter aberto uma porta de esperança e compreensão da Igreja para com os diferentes, agora recuou.

Queixa-se agora Francisco de que a Igreja parece “inundada pela moda da homossexualidade”. E se espanta de que tantos sacerdotes e religiosos “se declarem homossexuais”, e pede que “sejam tomadas medidas para que não escandalizem”.

Não seria difícil responder ao papa Francisco, que nos havia admirado com sua liberdade de espírito e seu desprendimento do poder, que a Igreja deveria se preocupar mais com o pecado e o escândalo dos sacerdotes pedófilos, que abusam da sua condição para seduzir e violentar menores. Os sacerdotes homossexuais não representam nenhum escândalo, e eles estão sujeitos, assim como os heterossexuais, a respeitar o compromisso com o celibato que aceitaram voluntariamente. Nada mais.

Seria mais normal que, a esta altura, a Igreja Católica acabasse abolindo o celibato obrigatório como condição para exercer o sacerdócio. Não se trata de nenhum dogma de fé, e menos ainda de algum ensinamento dos evangelhos. A obrigação do clero secular de professar o celibato nasceu tarde na Igreja, na qual durante séculos não só sacerdotes, mas também bispos e até papas, eram casados e tinham família, começando por são Pedro, cuja sogra Jesus curou.

Todas as confissões cristãs se inspiram nos evangelhos. E é curioso que em nenhum deles exista uma só palavra, recomendação ou condenação da sexualidade nem da homossexualidade. Não se encontra uma só palavra sobre o tema na boca de Jesus, que certamente também era casado. Tão pouco medo tinha da sexualidade que foi acusado de ser “amigo de prostitutas”, sobre as quais chegou a dizer que teriam um lugar preferencial no paraíso.

Nem o exercício da sexualidade nem a homossexualidade são tratados nos evangelhos. Era algo que não preocupava o profeta de Nazaré. Suas prioridades foram sempre, pelo contrário, os marginalizados, os desprezado e os que sofriam os açoites da injustiça social.

Por que então esse medo dos religiosos quanto ao exercício da sexualidade, a força motriz não só dos humanos como também de toda a natureza, já que do seu exercício depende a sobrevivência das espécies?

Talvez esse medo da sexualidade, que a Igreja sempre viu como ameaça e pecado, alheia aos evangelhos, se deva a que a vida tem sido vista mais sob o ângulo da dor e da renúncia que da felicidade e do prazer. A Igreja associou tantas vezes o prazer ao pecado e a dor à virtude.

Renunciar ao exercício da sexualidade é para as Igrejas algo mais digno e agradável a Deus que seu exercício. Durante muito tempo, a Igreja exigia aos casais católicos que no exercício da sexualidade, destinada à procriação, se abstivessem ao máximo de desfrutá-la. Copulava-se só para gerar, durante os dias de fertilidade da mulher, para dar filhos a Deus. O prazer deveria ser eliminado ao máximo.

Entretanto, recordo que no Concílio Vaticano II, convocado pelo papa João XXIII, que foi considerado como o da revolução da Igreja, teve lugar uma grande discussão sobre a finalidade da sexualidade humana. Aqueles 3.000 bispos de todo o mundo, reunidos em Roma, vindos dos cinco continentes, pela primeira vez em 20 séculos de história da Igreja defenderam que a sexualidade não era só um meio destinado à procriação, mas também “um instrumento de diálogo” entre os seres humanos. Foi uma revolução copernicana.

Passaram-se mais de 50 anos daquele Concílio que devolveu à sexualidade sua dignidade e sua condição de nova linguagem da comunicação humana. É triste que ainda hoje, com a nova revolução dos gêneros e o maior conhecimento sobre as diversas formas humanas de viver e exercer sua sexualidade, sem distinções racistas ou farisaicas, a Igreja continue com esses medos.

Medo não só da homossexualidade, como se se tratasse de uma peste da qual defender os cristãos, e sim da própria sexualidade como tal. Algo tão perigoso (na Igreja, chegou a falar-se em algo “sujo”) que hoje quer proibir que se fale dela às crianças e jovens nas escolas.

Na verdade, por trás desse medo da sexualidade esconde-se algo mais profundo e perigoso, que é a convicção de tantos religiosos de que esta vida é só uma passagem para a eternidade. Que, aqui, quanto mais se sofra e mais se castre o prazer e a felicidade, mais Deus abençoará.

Alguém estranha que esteja crescendo o número de agnósticos e ateus no Brasil e no mundo? E que a religião, que deveria ser libertadora de medos e tabus, oferta de felicidade e encontro espiritual e corporal, esteja se tornando um perigo de alienação e discriminação?

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