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“A Lava Jato é só a ponta do iceberg”, diz ministro da Justiça

Especialistas afirmam que sem o envolvimento da sociedade não será possível acabar com a corrupção

A trama descoberta pela Operação Lava Jato “é só a ponta do iceberg” da corrupção no Brasil, segundo o ministro da Justiça, Torquato Jardim. “Sabemos somente o que ocorre nas grandes capitais, onde há órgãos de imprensa. Mas o resto do país fica fora das investigações”, afirmou Jardim durante uma mesa redonda sobre a corrupção no âmbito das sessões do Fórum Econômico Mundial para a América Latina, encerrado nesta quinta-feira em São Paulo.

Jardim deu como exemplo da extensão da corrupção na sociedade e nas instituições brasileiras um estudo do Governo sobre 3.500 municípios, no qual se constatou que dois terços deles desviam recursos destinados à merenda escolar, ao material didático e a medicamentos. O ministro também lembrou que nos últimos 10 anos foi aprovado um total de 17 Refis, programa de renegociação com descontos para empresas que não tenham cumprido suas obrigações fiscais. Para Jardim, isso é uma prova do ‘poder imenso dos lobbies” sobre o Poder Legislativo.

Os especialistas que debateram o assunto no fórum de São Paulo mesclaram mensagens otimistas e pessimistas. Por um lado, as investigações judiciais sobre corrupção na América Latina avançaram mais que nunca. Por outro, na sociedade persiste uma arraigada mentalidade condescendente com as práticas corruptas, a ideia de que o político “rouba mas faz”, como expressou a presidenta da Transparência Internacional, Delia Ferreira. “A Justiça estava dormindo e despertou”, disse Ferreira. “Agora é preciso que a sociedade entre na fase da pós-indignação, que não é só sair às ruas, mas dirigir essa energia para criar canais de participação”. Ferreira também afirmou que o setor privado não está livre de responsabilidade, e brincou: “Na Argentina dizemos que a corrupção é como o tango, não se pode dançar sem dois”.

A mexicana Denise Dresser, analista política do Instituto Autônomo Tecnológico, explicou que a solução só será possível se nascer da sociedade, porque a “classe política que se beneficia da corrupção não pode ser a que vai combatê-la”. Dresser, que observou que a corrupção abocanha o equivalente a 9% do PIB do México, pediu mais envolvimento cívico nessa luta e deu um exemplo: “Os familiares do ex-presidente do México Carlos Salinas de Gortari continuam muito presentes em festas sociais e coquetéis. Não se deveria nem dar a mão a essa gente. É necessário endossar uma nova cultura”.

Algumas das ferramentas para combater a corrupção também podem vir da tecnologia, segundo a presidenta da Microsoft Brasil, Paula Bellizia. Agora já existem instrumentos para manter um maior controle sobre as compras públicas, e a aplicação de algoritmos pode até mesmo permitir antecipar fraudes no manejo do dinheiro pelas instituições do Estado.

Uma das constantes dos debates do Fórum Econômico Mundial em São Paulo, o novo cenário para o comércio mundial depois da guinada protecionista da Administração Trump nos Estados Unidos, voltou a ser colocado em questão no último dia com uma mesa redonda moderada pelo diretor adjunto do EL PAÍS, David Alandete. Nela, o ministro da Economia do México, Ildefonso Guajardo, tentou manter uma mensagem otimista diante da atitude de Donald Trump. O Tratado Norte-Americano de Livre Comércio não vai desaparecer, explicou Guajardo, já que no pior dos casos “continuarão México e Canadá, países que continuam acreditando” nas vantagens do intercâmbio comercial sem barreiras. Contudo, o responsável pela economia do Governo mexicano considera possível aproximar posições com os Estados Unidos e que este país entenda que se trataria de renegociar o acordo para “reequilibrar os intercâmbios comerciais entre os países”. “O tempo vai ser um aliado nas negociações”, disse Guajardo.

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