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Encontrado em Israel um fóssil candidato a ser o ‘Homo sapiens’ mais antigo

Descobertos fósseis de dentes de 180.000 anos em uma caverna do bíblico Monte Carmelo

Fragmento de maxilar esquerdo achado na gruta de Misliya (Israel).
Fragmento de maxilar esquerdo achado na gruta de Misliya (Israel).

“Derrube as colunas para que o teto caia e quebre a cabeça de todos; e se alguém chegar a se salvar, eu o matarei com a espada; pois nenhum deles poderá fugir, não escapará ninguém com vida. Mesmo que desçam até o inferno, minha mão os retirará de lá; se subirem aos céus, eu os farei descer de lá. Se se esconderem no cume do Carmelo, lá eu os buscarei e os agarrarei”, bradava contra os pecadores o Deus do Antigo Testamento no Livro de Amós.

Lá, nesse bíblico Monte Carmelo, escondidos na caverna de Misliya, a 12 quilômetros da cidade de Haifa (Israel), apareceram agora os fósseis de humanos modernos mais antigos encontrados fora da África: um fragmento de maxilar esquerdo − com seus dentes − de alguém que viveu há 180.000 anos. “Certamente, também se poderia dizer que é o Homo sapiens mais antigo do registro fóssil. E foi encontrado em Israel, na Palestina, nesse lugar bíblico por excelência. Esse é um aspecto curioso desta descoberta. O primeiro Homo sapiens é encontrado na Terra Santa”, afirma o paleontologista Juan Luis Arsuaga, coautor da descoberta.

A pessoa de Misliya marca mais uma reviravolta na evolução humana. Até então, os primeiros restos de Homo sapiens fora da África tinham aparecido nas grutas israelenses de Skhul e Qafzeh, com idade entre 90.000 e 120.000 anos. Misliya supera essa idade em pelo menos 60.000 anos e confirma o que já indicavam os estudos genéticos: que os primeiros humanos modernos já estavam fora da África mais de 200.000 anos atrás.

Hoje é muito fácil sentir-se especiais, como membros de uma espécie escolhida por algum deus, mas essa crença era mais complicada há 100.000 anos. Naquela época, coexistiam no planeta Terra pelo menos cinco espécies humanas diferentes: Homo sapiens, Homo erectus, neandertais, Homo floresiensis e denisovanos. Todos os estudos científicos sugerem que praticavam sexo entre elas quando coincidiam em um mesmo território, dando origem a filhos mestiços cujo DNA permanece em maior ou menor medida em nosso sangue. É difícil combinar a promíscua verdade científica com o Gênesis bíblico.

O novo achado de Misliya, publicado nesta sexta-feira na revista Science, significa que os humanos modernos saíram antes da África e tiveram 60.000 anos a mais para compartilhar genes − ter relações sexuais − com os neandertais, mais típicos de climas frios, que circulavam naquela época pelo território que hoje é Israel.

A gruta de Misliya, no bíblico Monte Carmelo, em Israel.
A gruta de Misliya, no bíblico Monte Carmelo, em Israel.

O fóssil de Misliya, segundo Arsuaga, disputa o título de Homo sapiens mais antigo conhecido. Há poucos meses, uma equipe de cientistas revelou a descoberta de restos humanos modernos de 300.000 anos no sítio arqueológico marroquino de Djebel Irhoud. Essa descoberta deslocou o berço da humanidade para o Marrocos. Antes, os restos mais antigos de Homo sapiens, de 195.000 anos, tinham aparecido em Kibish, na Etiópia. Para Arsuaga, pesquisador da Universidade Complutense de Madri, estes fósseis são pré-sapiens.

“Estão na linha sapiens, mas ainda não são completamente sapiens. Eu ainda iria além do que diz nosso artigo publicado na Science e me atreveria a dizer que é o primeiro fóssil de Homo sapiens completo, com anatomia atual”, sustenta. “Estou totalmente de acordo com Arsuaga”, reforça Israel Hershkovitz, paleoantropologista da Universidade de Tel Aviv e líder da investigação. Seu estudo científico publicado na Science se limita a afirmar que os restos de Misliya são “os humanos modernos mais antigos fora da África”.

“Com este estudo, ampliamos a área geográfica na qual devemos procurar a origem de nossa espécie”, explica a pesquisadora María Martinón Torres

“A história da origem de Homo sapiens tem sido africana. Com este estudo, ampliamos a área geográfica no qual devemos procurar a origem de nossa espécie”, explica com mais cautela María Martinón Torres, coautora do trabalho e diretora do Centro Nacional de Investigação sobre Evolução Humana, em Burgos. “Acredito que é preciso considerar o Oriente Médio dentro dos limites geográficos daquilo que até agora temos chamado de berço da humanidade.”

Curiosamente, como no relato bíblico (“Derrube as colunas para que se o teto caia e quebre a cabeça de todos”), o teto da caverna de Misliya desabou há cerca de 160.000 anos e serviu de proteção para o fóssil humano e para as ferramentas enterradas no sedimento. Os restos encontrados mostram que os humanos de Misliya já controlavam o fogo e caçavam grandes animais, como vacas pré-históricas, gamos-persas e gazelas. Suas ferramentas de pedra, elaboradas com o método Levallois e sofisticadas para a época, são similares às encontradas com os primeiros humanos modernos na África.

“Há outro sítio arqueológico, no mesmo conjunto do Monte Carmelo, onde apareceram conchas perfuradas para fazer colares, de 100.000 anos atrás. Isso já indica que há uma mente como a nossa, linguística e simbólica”, detalha Arsuaga. Em Misliya, no entanto, não apareceu nada similar até agora. “Misliya é de 200.000 anos atrás. É uma época na qual não havia objetos simbólicos, de adorno ou artísticos, que nos façam pensar em uma mente como a nossa”, acrescenta Arsuaga. “É um Homo sapiens sem objetos simbólicos.”

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