Assim é o asteroide Oumuamua, “o mensageiro que chegou primeiro”

Peça do espaço interestelar, algo nunca visto, passou raspando pela Terra e está indo embora do Sistema Solar

Recriação do asteroide Oumuamua, com meio quilômetro de comprimento.
Recriação do asteroide Oumuamua, com meio quilômetro de comprimento.ESO

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Quem leu Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke (1973), experimentou uma sensação de dejà-vu nos últimos dias. Para quem não conhece, o enredo do romance se situa em medos do século XXII e narra o descobrimento e exploração de uma imensa nave extraterrestre que entra no Sistema Solar. É um cilindro oco, habitado em seu interior, de 20 quilômetros de largura por 50 de comprimento. Rama, como se chama o artefato, chega do espaço interestelar, e não de outro planeta do Sistema Solar, e não demonstra o mínimo interesse pelo nosso mundo. De fato, ignora completamente a Terra antes de acelerar para um novo destino extragaláctico.

Milhares de astrônomos e aficionados devem ter recordado esse argumento nas últimas semanas. No livro, Rama é detectado por um sistema automático de localização de asteroides, para evitar a repetição de uma catástrofe como a que acarretou a fictícia destruição de Veneza pelo impacto de um meteoro; pois bem, em 19 de outubro deste ano, um telescópio robótico do Havaí, dedicado precisamente a localizar pequenos corpos celestes próximos da Terra, descobriu o que parecia ser um novo cometa entre as órbitas da Terra e Marte.

O recém-chegado não desenvolveu cauda, e em poucos dias foi reclassificado simplesmente como um asteroide sem maior interesse. Mas as surpresas começaram ao calcular os parâmetros da sua órbita.

Quando foi descoberto, o asteroide já tinha passado por seu periélio (o ponto mais próximo do Sol) e estava em órbita de saída, afastando-se da nossa estrela. Ninguém o vira chegar. Mas sua velocidade não deixava dúvidas: provinha do espaço interestelar. E a ele voltaria numa viagem cuja duração se mede em centenas de milhares, ou mesmo centenas de milhões de anos.

Em 19 de outubro, um telescópio robótico do Havaí, dedicado a localizar pequenos corpos celestes próximos da Terra, descobriu o que parecia ser um novo cometa entre as órbitas da Terra e Marte

Algumas poucas observações e muitos cálculos permitiram estabelecer que sua trajetória original vinha aproximadamente da direção de Vega, uma estrela jovem, na constelação da Lira, onde não há planetas conhecidos (outra coincidência: o romance Contato, de Carl Sagan, depois levado ao cinema, punha nessa mesma estrela a origem da misteriosa mensagem extraterrestre. Talvez por sua relativa proximidade de nós: só 25 anos-luz).

Convém esclarecer que é muito improvável que esse asteroide tenha realmente sua origem nos arredores de Vega. Há cerca de oitocentos mil anos, quando se calcula que estava à distância em que se encontra Vega, essa estrela nem sequer tinha chegado à posição que hoje ocupa.

Recebeu o anódino nome A/2017 U1, uma denominação nova, que inaugurava uma classe inédita na classificação de objetos celestes: os “interestelares”. A equipe responsável pelo descobrimento tinha o direito de batizá-lo de um jeito mais atrativo. E escolheu uma palavra em idioma havaiano, “Oumuamua”, que significa “o mensageiro que chegou primeiro”.

Na sua aproximação, deslocava-se a 100.000 quilômetros por hora; essa cifra triplicou no momento do seu trânsito. Porque passou incrivelmente perto, entrando fundo na órbita de Mercúrio. Isto provocou uma acentuada mudança de trajetória, de quase 300 graus, o que o punha na direção da constelação de Pégaso.

Alterações de rumo como essa são comuns em sondas interplanetárias, sobretudo as dirigidas para aos planetas exteriores. As naves Galileo, Cassini e Juno, para citar alguns exemplos recentes, utilizaram essa manobra, chamada de “assistência gravitacional”, para ajustar seu rumo e sua velocidade com relação a seus alvos. Postos a fantasiar, se Oumuamua fosse um objeto artificial, seus construtores não poderiam tê-lo feito melhor para ajustar sua trajetória a outro destino.

A essas velocidades, é claro que estaria por pouquíssimo tempo ao alcance dos telescópios, então vários observatórios se apressaram em analisar suas características. Entre eles o de Roque de los Muchachos, na ilha de La Palma (arquipélago das Canárias, Espanha), que conseguiu fotografá-lo no fim de outubro: um simples ponto luminoso frente a uma floresta de estrelas que parecem se mover devido à exposição. E também o seguiam vários telescópios gigantes na América do Sul e Havaí, além dos telescópios espaciais Hubble (no espectro visível) e Spitzer (no infravermelho)

A curva de luz, ou seja, as variações de brilho ao girar sobre si mesmo, apontava outra surpresa: não era de forma esferoide nem irregular, e sim alongada, como um charuto. E vai dando cambalhotas ao redor de seu eixo transversal (o mais curto: coisas do impulso de inércia).

Seu dia – deduzido por essas variações – dura cerca de sete horas. Assumindo que tenha uma superfície escura como a de outros asteroides, estima-se um comprimento de pouco menos de 500 metros por uma largura entre 50 e 62. É muito menor, por exemplo, que o cometa 67P, visitado há alguns anos pela sonda Rosetta. Entre meio milhão de objetos cósmicos atualmente sob vigilância, nunca os cientistas haviam visto nada com um formato semelhante. Outra vez as comparações com o fictício Rama parecem inevitáveis.

A análise espectroscópica da sua luz aponta, além disso, para um predomínio dos baixos comprimentos de onda: Oumuamua tem um tom avermelhado. Talvez seja a consequência das mudanças em seus minerais devido ao bombardeio de radiação cósmica durante a sua longuíssima odisseia no espaço. Mas também há quem opine que, se for para construir uma nave interplanetária, nade impede que seja pintada de vermelho.

Para completar as semelhanças com Rama, só faltaria que Oumuamua fosse oco. Mas não é o caso. O mais provável é que seja composto por rocha sólida, e não por refugos aglomerados, como alguns cometas. Tem que ser assim para poder ter resistido às forças de maré provocadas por uma passagem tão próxima do Sol, e também à sua própria força centrífuga; ambos os fatores tendem a fragmentá-lo.

Houve propostas de construir com a máxima pressa uma sonda que pudesse caçar e investigar detalhadamente o asteroide antes que ele desapareça. Ou inclusive depositar nele algum instrumento científico. Embora o tempo seja muito apertado, há quem diga que talvez fosse possível tentar. Até agora, o recorde de velocidade cabe a duas sondas alemãs Helios, que, ao passarem pelo periélio, alcançaram os 250.000 km/h. É quase como o Oumuamua. Mas não o suficiente, claro.

Como todos os cometas em trajetória de saída, o Oumuamua foi perdendo velocidade, embora ainda se mantenha acima dos 25 quilômetros por segundo. Nesse ritmo, no primeiro semestre de 2018 passará à distância de Júpiter, e em 2019 estará na altura de Saturno. Para alcançá-lo, qualquer veículo que pudesse ser lançado agora (caso estivesse disponível) teria que ir muito mais rápido do que qualquer outro artefato já construído pelos humanos. E, ao chegar ali, a não ser que sejam usados complexos sistemas de manobra, o encontro só duraria uma fração de segundo.

Sem dúvida, Arthur Clarke teria se divertido com esta nova descoberta. Afinal de contas, duas de suas profecias se cumpriram ou estão a caminho: os satélites de comunicações e a possibilidade de vida em Europa, uma lua de Júpiter. Por que Rama não poderia ser a terceira?