Tribuna
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Estourou a Guerra Fria

Misteriosos ataques sonoros perturbaram o degelo diplomático entre Cuba e Estados Unidos. Raúl Castro não soube aproveitar os passos dados por Barack Obama e preferiu optar pela cautela em vez da reforma

NICOLÁS AZNÁREZ

Era calmaria demais para durar muito tempo. O degelo diplomático entre Cuba e Estados Unidos fracassou e os dois países recuaram os ponteiros de seus relógios para os tempos da Guerra Fria. Nas últimas semanas, surgiram novas causas de tensão e o discurso político retomou aquela beligerância habitual de que tanta falta eles sentiam.

Os laços entre a praça da Revolução e a Casa Branca voltaram muitos passos atrás de onde estavam em 17 de dezembro de 2014, data chamada em Cuba de 17-D, quando Barack Obama e Raúl Castro anunciaram a normalização das relações. Esse salto, agora, para o passado foi motivado pelos supostos ataques sonoros − sons que parecem o canto de dezenas de grilos − que provocaram náuseas, enjoos e dores de cabeça nos diplomatas norte-americanos afetados.

A máquina da propaganda oficial, que se havia desacelerado durante a reconciliação, agora procura retomar o ritmo que a caracterizou nos tempos de Ronald Reagan e George W. Bush. No entanto, percebe-se o cansaço e, em especial, a apatia de uma audiência nacional mais voltada para a sobrevivência do dia a dia do que para as convulsões diplomáticas.

Sem seu alvo preferido, os porta-vozes do regime estavam visivelmente perdidos entre tantos abraços, fotos conciliadoras e delegações de empresários norte-americanos que chegavam à ilha. Não podiam lidar com a calma, por isso agora enchem os pulmões com os ares da tormenta. Só o confronto os torna importantes, só o combate lhes parece dar vida.

Enquanto a classe política mostra os dentes e alardeia a cartucheira que leva na cintura, ao redor da Embaixada dos Estados Unidos em Havana abundam nestes dias as caras tristes. Toda manhã chegam às suas proximidades dezenas de cubanos angustiados por ter ficado encalhados no meio de um trâmite migratório por causa da suspensão dos trabalhos consulares. Os pequenos comércios da área que vendiam café, alugavam quartos para os solicitantes de visto ou preenchiam formulários migratórios tiveram uma repentina quebra. O Tio Sam movia a economia de milhares de famílias próximas ao perímetro do imponente edifício e agora tudo ficou pausado, impregnou-se de incerteza.

Aos vizinhos do edifício só resta evocar a imagem daquele agosto de 2015 em que John Kerry participou do içamento da bandeira americana na recém-inaugurada Embaixada dos EUA em Havana. Foi “o melhor momento desta área e do país”, conta Paquito, um morador que vivia de oferecer serviço de guarda-volumes para os solicitantes de visto terem onde deixar suas bolsas e celulares. Hoje sua sala está vazia e seu maior desejo é que “os yumas [norte-americanos] retornem o quanto antes”.

Ao longo do país, muitos temem que as medidas de Donald Trump sejam ampliadas e acabem afetando o fluxo de voos regulares entre a ilha e seu vizinho, restabelecidos durante o Governo passado. A redução do envio de remessas também povoa os pesadelos de inúmeras famílias que sobrevivem graças à ajuda que lhes chega do Norte a cada mês.

Muitos temem que as medidas de Donald Trump afetem o fluxo de voos regulares entre os dois países

Têm razão os que preveem uma piora das relações. A retirada do pessoal não essencial depois dos ataques sonoros é apenas um capítulo a mais da novela salpicada por ódios, paixões e discussões que os dois países protagonizam há mais de meio século.

O novo episódio só adicionou uma nova dose de mistério, de histórias de espiões e agressões sofisticadas ao que já era um roteiro típico deste conflito de “rejeição-aproximação”, no qual o objeto de desejo é rechaçado ou querido indistintamente.

O terreno para a beligerância está adubado e dessa base tão fértil brotam as mais variadas especulações sobre os autores das agressões que supostamente sofreram os diplomatas norte-americanos.

Os partidários do degelo dizem a um grupo de ortodoxos dentro do Governo que viram o pacto com os Estados Unidos como uma traição. Uma confraria de “talibãs” suficientemente bem posicionados nas esferas do poder para poder realizar uma ação tão complexa.

Outros especulam que um terceiro país, como Rússia, Irã ou Coreia do Norte, tenha usado o território cubano para lançar um ataque contra seu velho adversário. Neste caso, a ilha teria sido apenas o cenário de uma luta de poderes externos e a inteligência nacional nem ficou sabendo. Isto é algo muito pouco provável em um país em que a vigilância alcançou graus de sofisticação e intensidade sufocantes.

Também não faltam aqueles que apontam Fidel Castro como o gênio malvado por trás da trama dos ataques sonoros. O único homem com mais poder que Raúl Castro para organizar algo dessa natureza surge nas especulações de quem recorda sua incalculável capacidade de incomodar Washington.

Nota-se o cansaço de uma população mais preocupada com a sobrevivência do que com as brigas diplomáticas

Aqueles que sustentam a hipótese do “testamento envenenado” do Comandante assinalam que os misteriosos ruídos começaram antes de seu falecimento, em novembro de 2016, e lembram também o distanciamento com que se manifestou sobre o degelo diplomático. O eterno anti-imperialista não deve ter gostado nem um pouco dos flertes de seu irmão com o inquilino da Casa Branca, sentenciam os que sustentam essa conjectura. A imprensa oficial aponta que os ataques sonoros foram apenas o pretexto para que Trump ponha em prática uma política para Cuba mais alinhada com os setores do exílio desconformes com o degelo, reduz a importância dessas agressões e semeia a dúvida de que elas tenham ocorrido alguma vez. Apesar disso, a imprensa oficial reitera que o Governo está disposto a colaborar com a investigação.

O grande perdedor com o que ocorreu é Raúl Castro. O legado principal de seu mandato era justamente o de ter obtido a aproximação entre as duas nações. Através do degelo, o mais novo dos irmãos deixou sua própria marca e se afastou da sombra do Comandante, um contumaz agitador do conflito entre o Davi ilhéu e o Golias norte-americano. O general, que até agora não pôde cumprir muitas de suas promessas de mandato − como a reunificação monetária, em um país fraturado pela dualidade entre o peso conversível e o peso cubano − nem devolver aos salários a dignidade perdida, vê como a herança de seu Governo se desvanece.

A normalização diplomática é, sem dúvida, a história do fracasso do segundo dos irmãos Castro, que não soube aproveitar os passos impulsionados por Barack Obama e preferiu optar pela cautela em vez da reforma. Se não é o culpado direto pelos ataques sonoros, então é responsável pela negligência que permitiu que outros os levassem a cabo e por não ter sabido evitar que esse incidente levasse à atual confrontação diplomática.

No final, os tempos das mãos estendidas se acabaram e a ilha se encontra em plena recessão econômica, afetada pela passagem de um poderoso furacão, com um apoio reduzido da Venezuela e uma geração histórica o bordo da obsolescência biológica. A Guerra Fria voltou, mas a Cuba daqueles anos já não existe.

Yoani Sánchez é jornalista cubana e diretora do jornal digital 14ymedio.

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