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EDITORIAL

França em marcha

Derrotado o extremismo, Macron terá de resgatar seu país e refundar a Europa

Emmanuel Macron apresenta sua candidatura em novembro do passado ano.
Emmanuel Macron apresenta sua candidatura em novembro do passado ano. AFP

Emmanuel Macron se projetou com a vitória nas eleições presidenciais da França com mais autoridade do que se previa. Sua carreira meteórica para o  Palácio do Eliseu é um êxito inédito digno de análises históricas posteriores. O mais jovem presidente da República Francesa desde a Segunda Guerra Mundial bateu vários recordes. Entre eles, o de despertar, em tão curto espaço de tempo, enormes expectativas quanto a seu próprio país e a Europa. Seu movimento Em Marcha! conseguiu a melhor posição para dar uma resposta a seu próprio nome e coroar essas expectativas. A Europa pode hoje respirar com alívio e dar as boas-vindas a este europeísta convicto.

Os desafios que aguardam Macron a partir de agora são enormes. Sua grande tarefa será resgatar seus cidadãos do mal-estar que os aflige. Tem de demonstrar que seu projeto reformista é o mais adequado para dinamizar a economia nacional até libertá-la da paralisação que a prostrou diante da potente indústria alemã e a deixou a mercê dos slogans demagógicos dos extremistas. Não será fácil. O Governo de François Hollande reduziu a ambição de suas mudanças, como a reforma trabalhista, devido à pressão das ruas. Avançar por esse lado, como prometeu o presidente eleito, porá a prova seu apego confesso pelo diálogo social.

O leque de propostas de Macron é amplo. Restauração da vida pública com maior controle nos gastos, simplificação dos procedimentos para as pequenas e médias empresas, redução do número de funcionários e reforço da educação primária são algumas delas. Todas buscam recuperar a confiança, flexibilizar a economia e aumentar a competitividade. É o caminho para gerar uma dinâmica social diferente e conseguir negociar com a Alemanha em pé de igualdade.

Apenas com um eixo franco-alemão equilibrado os franceses deixarão para trás seus complexos em relação a Berlim e a Europa poderá enfrentar com mais solvência o tipo de refundação de que necessita depois do Brexit.

O chamativo presidente terá de formar, também em tempo recorde, uma maioria parlamentar que apoie suas reformas. É (caso inédito) um presidente sem partido e, sem dúvida, apenas mediante acordos com outras forças políticas conseguirá o respaldo a suas políticas e, de quebra, pisar forte na Europa. O reforço da zona do euro é o grande projeto do vencedor destas eleições.

A vitória de Macron é incontestável e mais ampla do que se previa nas pesquisas. Estas indicavam um apoio de apenas 60% e prediziam uma derrota maior para qualquer de seus rivais diante de Marine Le Pen. Mas a líder ultradireitista colocou seu partido acima de tudo. Deve muito à Frente Nacional sua estratégia de apagar o passado, mas também à esquerda de Mélenchon e à direita, que com Nicolas Sarkozy abriu a porta para a estratégia do nem-nem (nem FN nem socialistas). O resultado é uma abstenção recorde que beneficiou Le Pen e homologou sua formação política para o futuro. Macron tem cinco anos pela frente para desativar o discurso extremista que, neste momento, se apoderou injustamente da pauta social.

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